Chapter 5: Summary and Concluding Remarks
5.2 Concluding Remarks
É importante ratificar que, a partir de nossa visão crítica, consideramos difícil a possibilidade de separação do conteúdo de uma obra do momento histórico em que ela foi concebida e por isso sustentamos a assertiva de que fica ainda mais difícil a separação do ficcional e do real, quando se tem para observar e analisar duas narrativas como as de Rubem Fonseca e Pedro Juan Gutiérrez. As obras desses autores trazem ao leitor uma aproximação muito condizente com a realidade dos grupos minoritários que se encontram à margem do processo econômico tanto do Brasil quanto de Cuba.
Porém, o que acontece quando um autor, um artista, expõe algo que não era para ser revelado? Ainda que muitos tenham conhecimento dessa realidade, para que ela não transpareça, o melhor é ignorá-la e/ou, até mesmo, escondê-la? É justamente nesse contexto que entra o Estado, o discurso oficial, como aquele que não deixa transparecer
124 GUTIÉRREZ, 2000, p. 294. “No monte, em direção a Campo Florido, há duas rinhas de galos,
clandestinas, porém sem problemas. E vendem rum barato e cigarros de um peso. De que mais necessito? Não quero computadores, nem e-mail, nem Internet, nem quero que me encham o saco mais. Que me deixem em paz e não me incomodem.”
as mazelas sociais. Um caso que podemos ressaltar nesse contexto foi a prisão do jornalista e poeta cubano Raúl Rivero, em março de 2003. Ele foi condenado a vinte anos de detenção pela sua oposição a Fidel Castro, evidenciada essa oposição por meio do incentivo que dava à prática do jornalismo independente em seu país. Foi libertado, em novembro de 2004, depois de forte pressão internacional e agora vive na Espanha.
Apesar de Pedro Juan Gutiérrez dizer na maioria de suas entrevistas que política seja um tópico não tratado por ele, podemos perceber em sua obra o caráter de uma “literatura anfíbia”125 que, segundo Silviano Santiago, é aquela na qual se pode
identificar política e arte juntas.
No caso de O Rei de Havana a visão política está implícita ao longo da narração. Talvez, para alguns leitores, esse romance funcione como um veículo de crítica explícita e profunda ao governo cubano. Porém, quando fazemos uma análise levando especificamente em conta a leitura política, esse fato por si provocaria um direcionamento, quando na verdade seria muito mais enriquecedor se abríssemos a novas perspectivas ou horizontes de leituras tais como: cultural, identitária, religiosa ou se poderia também explorar a questão do gênero. Todas essas possibilidades poderiam nos dizer muito sobre uma mesma obra, partindo de perspectivas heterogêneas de leituras possíveis126.
Uma leitura a partir de uma perspectiva de gênero poderia ser feita se levássemos em conta, por exemplo, qual é o papel da mulher frente à postura machista e
125 SANTIAGO, 2004, p. 66.
126 Não é nosso objetivo desenvolver neste trabalho o tema relacionado ao caráter cultural. Porém,
podemos destacar que, em relação aos aspectos cultural e identitário, é possível buscar elementos que fortalecem uma característica que o autor cubano ressalta em muitas de suas entrevistas, ou seja, como a mestiçagem do povo cubano relegou como herança genética a paixão que eles têm, por exemplo, pela música, pelo sexo, fato que, de um modo geral, justifica até sua alegria de viver. O sincretismo religioso seria outro aspecto importante para entender melhor as formações culturais e a própria constituição da identidade. Esse sincretismo aparece em várias passagens de O rei de Havana, demonstrando a riqueza da cultura e sua diversidade, seja nos rituais de oferendas, que aparecem diante do olhar desatento e disperso do personagem principal, que inclusive as ignora, seja no aparecimento de entidades como Ogum, Iemanjá e Oxum, manifestadas em personagens adeptos da Santería, ou mesmo de santos católicos como
falocêntrica que aparece manifestada em grande parte de O rei de Havana, tanto do ponto de vista do narrador quanto das atitudes do personagem Reinaldo em relação a Magda, a Daysi e outras mulheres com quem ele se relaciona ao longo da narrativa. Em se tratando de gênero, poderíamos explorar também a questão do travesti Sandra, sua relação com o protagonista e dado o desdobramento da relação dos dois personagens teríamos nesse sentido, por exemplo, outro aspecto sobre o estudo de gênero, que ultrapassaria o estereótipo homem/mulher, abrindo dessa forma uma perspectiva para analisar a questão genérica, a partir de uma classificação hetero ou bissexual do personagem protagonista.
Em “Feliz ano novo” podemos destacar também a questão do gênero, uma vez que a condição masculina de um dos personagens é colocada em questionamento. O personagem se chama Lambreta, dono das armas que Pereba e o resto do bando vão tomar emprestadas para praticar o assalto. Vejamos o trecho em que esse aspecto é evidenciado:
Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, para não falar aqui no rio. Mais de trinta Bancos. É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.
Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.
Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.
Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?
Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha. 127
Mas outra questão que deve ser evidenciada é que um dos integrantes do bando tem a pretensão de redimir o comparsa que tem a sua hombridade contestada, por essa condição ser, a partir de sua perspectiva, uma característica inferior para um indivíduo que já possui um alto conceito no meio em que atua, isto é, a categoria de bandido de grande competência e experiência. A tentativa de redenção e aceitação aparece nas seguintes frases dos personagens:
127
Cara importante faz o que quer, eu disse. É verdade, disse Zequinha.
Ficamos calados, fumando. 128
O próprio silêncio dos personagens indica que o melhor a se fazer no caso do comparsa, suspeito de ser homossexual, fornece-nos uma pista de que essa pausa e mudança para outro assunto logo em seguida, mostra-se como uma forma de preservar a imagem do Lambreta. Nesse contexto, o poder e/ou o respeito que o personagem representa, no universo do crime, está acima de sua opção ou tendência sexual, ou seja, ninguém terá coragem de duvidar da sua “hombridade”, que, aqui, não se relaciona apenas com a opção sexual. Trata-se de uma questão pautada em um tipo de “exercício de poder” e respeito que possui o personagem. Essa forma de poder, que se dá inclusive quando Lambreta não se faz presente, está relacionada também com o saber, ou seja, a experiência que o bandido possui, o que nos permite associar à seguinte colocação de Focault: “tenho a impressão de que existe [...] uma perpétua articulação do poder com o saber e do saber com o poder”129
.
Em O rei de Havana, quando o personagem Reinaldo se vê envolvido com o travesti Sandra, ele também tem a pretensão de redimir a si próprio e conter o desejo que surge nele pelo travesti: “Rey olhou e ficou muito excitado com aquele contraste tão atraente, mas na mesma hora entendeu que tinha de se dominar, e rechaçou a idéia: “Eu sou homem, porra”, pensou.”130Mas o seu instinto fala mais alto e seduzido pelas características tão femininas de Sandra, além de suas condições materiais que também se mostram como um atrativo a ele, pois com Magda, não tinha tanto conforto como ao lado de Sandra, Reinaldo logo entra por completo na relação. Vejamos alguns trechos que atestam sobre
128 FONSECA, 2004, p. 16. 129 FOCAULT, 2003, p. 141.
caráter de fascínio que exerce a beleza andrógena de Sandra sobre Reinaldo e o seu deslumbre pela condição confortável em que o travesti vive.
Rey observou os peitos de Sandra e pensou que eram bonitos, mas mordeu a língua. Sandra percebeu o olhar de Rey:
— Está vendo que não me falta nada. Na-da. E pelo menos sou mais divertida que essa mulher. Ela devia se chamar Angústia.131
Rey ia empurrá-la, mas é sabido que a carne é intensamente fraca e pecadora. E deixou que ele fizesse. Sandra, ajoelhada na sua frente, tirou o bustiezinho e mostrou os peitos lindos, perfeitos, firmes. Rey tocou os bicos, que ficaram duros. Sandra parou um pouco o que estava fazendo. Subiu até ele. Beijou-o.132
Quando Rey entrou no quarto ficou assombrado. Tinha de tudo ali dentro! Desde luz elétrica até televisão, geladeira, cortinas de renda, uma cama de casal como bichos de pelúcia em cima, uma penteadeira coberta de potes de creme e perfume. Tudo limpo, imaculado, sem um grão de poeira, as paredes pintadas de branco, enfeitadas com grandes pôsteres coloridos de belíssimas mulheres nuas.133
Analisando a questão do homossexual em “Feliz ano novo”, podemos constatar que “o ser bandido” é uma característica ou posição inconciliável à condição de homossexual, e essa questão parece ter uma importância maior do que em O rei de Havana, uma vez que, mesmo o personagem apresentando resistência em relação à Sandra, e reforçando para si mesmo sua masculinidade, ao final, entrega-se ao relacionamento homossexual. Nesse momento, Rey se utiliza de sua relação com Sandra para saltar de uma condição econômica e, dessa forma, constitui e reforça sua característica de cafetão, macho potente e rei que é atendido por seu subjugado, que lhe provém de dinheiro, comida e também lhe proporciona a satisfação sexual.
— Sandra, não está com fome?
— Vou fazer um almocinho, papi. Só para você e para mim. Vai ver que gostoso... toma...
Deu-lhe vinte pesos. Rey trouxe cerveja. Quando voltou, Sandra estava cozinhando arroz com frango.
— Você vive bem mesmo. Sandrita. Sabe viver. — Eu sei. 131 GUTIÉRREZ, 2001, p. 64. 132 GUTIÉRREZ, 2001, p. 67. 133 GUTIÉRREZ, 2001, p. 64.
— Ontem arrumei um pouco de arroz e feijão-preto. Espere que vou trazer um pouco para você...
— Não, não. Deixe para a bruxa. Você aqui não tem de trazer nada,
papi. Nada. Eu sustento você, meu amor... ei... Por que não toma um
banho? 134
A homossexualidade aparece retratada também em Feliz ano novo no conto “Botando pra Quebrar”. Nesse conto, o gerente de uma boate passa a recomendação de que o leão- de-chácara não deixe entrar no recinto “bicha louca, crioulo e traficante”. Porém, em seguida, chama-lhe a atenção por haver cumprido a recomendação dizendo: Porra, disse o dono, aonde foi que você aprendeu o serviço? / Será que você não sabe que existem bichas nos altos escalões e que esses a gente não barra?135
Podemos observar que nos dois casos em que figura a homossexualidade nos contos de Rubem Fonseca que compõem o livro Feliz ano novo, a condição de inferioridade do homossexual, apesar de ser estigmatizada por outros personagens, torna-se relativamente branda. Quando o indivíduo homossexual tem uma importância pelo que faz e representa para o seu grupo, como é o caso do conceituado bandido Lambreta ou da “bicha louca”, que ocupa um lugar privilegiado na sociedade. Neste caso, sua hierarquia social ou o seu dinheiro o torna imperceptível aos olhos do dono da boate que havia passado recomendações claras ao seu empregado, que não consegue entender bem porque, especialmente, aquela “bicha louca” poderia entrar na boate.
Ainda nos referindo ao caráter político, pode-se notar que a forma literária anfíbia que propõe Santiago também é intrínseca à obra O Rei de Havana, pois nas palavras desse autor, “A forma literária anfíbia requer a lucidez do criador e também a do leitor, ambos impregnados pela condição precária de cidadãos numa nação dominada pela injustiça.”136
134 GUTIÉRREZ, 2001, p. 89. (grifo do autor) 135 FONSECA, 2000, p. 56.
Pedro Juan Gutiérrez em suas próprias palavras se define com um ser apolítico, ou quando muito, diz-se alguém que já sofreu todas a desilusões em relação ao regime socialista cubano, diferentemente de Raúl Rivero que é um engajado assumido, e que por isso sofreu as sansões do regime castrista. Pedro Juan Gutiérrez prefere não levantar nenhuma bandeira e segue fazendo um movimento da diáspora137 para se fazer escutar em outros lugares que não aquele de sua origem. Quando perguntado diretamente sobre sua relação com o regime ou se teme por sua segurança, esquiva-se e, inclusive, dá uma amenizada na situação real da seguinte maneira: “Cuba não é um ditadura policial, onde vão te dar um tiro se você criticar o governo. Mas podem tornar as coisas difíceis para você. Eu, por exemplo, fui banido da profissão de jornalista.”138
Como foi dito no capítulo anterior, é possível fazer uma leitura de O rei de
Havana em que aparecem duas Cubas, e uma delas a partir de uma visão política que se
pode observar, por meio da narrativa, o esmaecimento de um sonho que seria a mudança proporcionada pela chegada do comunismo ao poder em Cuba, à época da revolução cubana, quando Fidel Castro toma o poder de Fulgêncio Batista.
Ao contrário do que se supõe, os discursos da nação não refletem um estado unificado já alcançado. Seu intuito é forjar ou construir uma forma unificada de identificação a partir das muitas diferenças de classe, gênero, região, religião ou localidade, que na verdade atravessam a nação.139
O próprio pano de fundo que é a crise demonstra a derrocada final da possibilidade de uma política justa que faça garantir o direito dos cidadãos.
No caso do Brasil, à época da ditadura militar, o Ato Institucional Número Cinco, o quinto de uma sequência de decretos emitidos pelo regime militar nos anos
137 No nosso trabalho, estamos utilizando o termo diáspora para nos referir ao movimento que o escritor
cubano faz em direção a outros países, levando assim, por meio de suas obras, uma descrição pormenorizada do cotidiano cubano. No entanto, devemos evidenciar que esse movimento em direção ao exterior, especificamente no caso de Gutiérrez, há sempre o regresso à pátria.
138 Playboy, 2001, p. 76. 139
seguintes ao Golpe militar de 1964, redigido pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, recrudesceu a censura, determinando que a mesma, de modo prévio, se estendia à música, ao teatro e ao cinema. Foi sobre os alcances desse ato institucional, que Rubem Fonseca teve o seu livro Feliz ano novo censurado.
Segundo Deonísio da Silva,
O livro tinha vendido cerca de 30.000 exemplares quando Armando Falcão, ministro da Justiça (governo Ernesto Geisel, 1974-1978), assinou a portaria 8.401-B, em 15 de dezembro de 1976, proibindo sua publicação e circulação em todo o território nacional, determinando ainda a apreensão dos exemplares postos à venda, sob a alegação de que exteriorizava matéria contrária à moral e aos bons costumes.140
Para entender um pouco mais sobre o contexto histórico em que foi publicado o livro Feliz ano novo, recorremos às palavras de Lafetá:
O livro de Rubem Fonseca foi publicado quando a propaganda da ditadura militar ainda falava em “milagre brasileiro”, desenvolvimento econômico acelerado, ingresso do país no clube das potências internacionais, necessidade de fazer crescer o “bolo” da riqueza para depois dividi-lo com os pobres etc. 141
Nesse momento histórico o que vinha à tona nas narrativas de Rubem Fonseca funcionava com uma afronta ao discurso do Estado e sua incapacidade de conter as proporções que atingiam os índices de criminalidade e violência daquele período histórico do país. Desse modo, a leitura política de Feliz ano novo é mais veiculada por uma reação do Estado ditatorial ao que era exposto nos contos que compunham o livro, do que propriamente a uma possível escrita engajada de Rubem Fonseca.
Segundo Florencia Garramuño,
“Apesar do que se pudesse prever — uma vez que se trata da intervenção de um regime ditatorial —, a razão para censurar o livro de Fonseca não é política, senão moral [...] De fato, outros textos mais políticos em um sentido tradicional são eximidos da censura, como o caso, por exemplo, de Em Liberdade (1981), um romance de Silviano
Santiago que, com caráter reconhecido por todos, narra a tortura e assassinato do jornalista brasileiro Wladimir Herzog.”142
Dessa maneira, pode-se dizer que os elementos que propiciam uma leitura pessimista sobre a sociedade e o governo vigente, estão mais visíveis no livro do escritor cubano do que em Feliz ano novo de Rubem Fonseca. Porém, é mister salientar que a visão pessimista da sociedade é perceptível também em Feliz ano novo. Quando observamos, por exemplo, que a explosão da violência nos grandes centros urbanos não é exclusiva nas classes marginalizadas, como mencionado anteriormente, já temos um arquétipo de que esse enfoque pessimista aborda a sociedade e o seu lado obscuro de um modo geral. Primeiramente, vejamos um trecho de O rei de havana em que podemos corroborar tal abordagem:
— Ah, sai dessa, Sandra, ter filho pra quê? Aqui? Pra sofrer e passar fome os dois? Não, pra mim eu passando fome já dá e sobra. Se algum dia tiver filho vai ter de ser de um homem muito especial, e fora de Cuba. 143
No diálogo do personagem se percebe um caráter político muito forte e relevante para entender a situação em que se encontram os moradores da ilha de Fidel Castro, ou seja, um ambiente arruinado pela escassez, onde as mulheres têm que se prostituir para conseguir se manter ou mesmo ter acesso a algo básico como alimentação. Em Feliz
ano novo, especificamente no conto “Intestino Grosso”, por meio da entrevista que o
narrador faz ao escritor, podemos constatar algumas questões que podem ser diretamente relacionadas à escrita de Rubem Fonseca, inclusive como autor de Feliz
ano novo. No fragmento a seguir, podemos perceber algo relacionado à exposição das
mazelas sociais daquela época no Brasil, aqui tratadas de maneira sarcástica. “Já ouvi acusarem você de escritor pornográfico. Você é?”
142 GARRAMUÑO, 2003.
http://www.revistatodavia.com.ar/todavia04/notas/Garramuno/txtgarramuno.html.
143
“Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes”.
“Os seus livros são bem vendidos. Há tanta gente assim interessada nesses marginais da sociedade? Uma amiga minha, outro dia, dizia não se interessar por histórias de pessoas que não têm sapatos”. Sapatos eles têm, às vezes. O que falta, sempre, é dentes.144
Outra parte do conto “Intestino Grosso” que podemos relacionar ao momento histórico em que Feliz ano novo foi lançado e que, de modo perspicaz, faz uma crítica ao Estado ditatorial é a seguinte:
Outro perigo na repressão da chamada pornografia é que tal atitude tende a justificar e perpetuar a censura. A alegação de que algumas palavras são tão deletérias a ponto de não poderem ser escritas é usada em todas as tentativas de impedir a liberdade de expressão.145 Se levarmos em conta o citado para analisar o conto que leva o nome do livro, “Feliz ano novo”, podemos identificar nele muitas dessas palavras “deletérias” que, como foi ressaltado anteriormente, funcionam inclusive para uma melhor constituição dos personagens e para torná-los, a partir de um ponto de vista literário, mais críveis. O próprio conto “Intestino Grosso” traz alguns palavrões como “vá pra puta que pariu” e “foder”, e o personagem, que é um escritor, dá, inclusive, de maneira cômica e sarcástica, a idéia da criação do Dia Internacional do Palavrão, visto que, segundo seus argumentos, o palavrão é muito importante para que as pessoas possam exteriorizar o que sentem.
Se fizermos uma análise mais profunda do contexto histórico da ditadura militar no Brasil e especificamente da censura, poderemos chegar a uma conclusão condizente com as colocações de Florencia Garramuño, recém citadas, que defende a idéia de uma censura que parte pela reprovação moral e não propriamente pelo aspecto estético da obra. Podemos destacar nos textos que compõem Feliz ano novo, sobretudo no conto “Feliz ano novo”, personagens que praticam toda classe de contravenções — porte de
armas, uso desenfreado da violência, uso de entorpecente, vandalismo, homicídios —, e que, ao fim, saem ilesos. O mesmo acontece em “Passeio Noturno I” e “Passeio Noturno II”. Portanto, podemos afirmar que a escrita do autor carioca expõe algo que, moralmente, ia contra os preceitos do Estado, que entendeu que a obra fazia uma