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Conforme dito anteriormente, o conjunto de transcrições constituídas a partir das dinâmicas de Grupo Focal, bem como os dados advindos dos questionários preenchidos pelos docentes, não passam de um “diamante bruto”, cuja “lapidação” foi realizada através das técnicas de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2000).

A Análise de Conteúdo trata-se de um conjunto de técnicas que visam principalmente a ultrapassagem da incerteza, ou seja, investiga se a leitura que realizamos de uma mensagem é a mesma realizada pelas demais pessoas (se é generalizável); busca o enriquecimento da leitura, aumentando sua produtividade e pertinência, além de possuir funções definidas: a primeira é “heurística”, ou seja, o enriquecimento da tentativa exploratória aumenta a probabilidade à descoberta. Trata-se da análise, conforme Bardin (2000, p. 30), “para ver o que dá”. Também possui a função de “administração de prova”, na qual hipóteses servem de diretrizes que podem ser confirmadas ou não a partir da análise sistemática. Esta é a Análise de Conteúdo “para servir de prova”. Durante a análise dos dados, foi dada atenção para ambas as funções, buscando comprovar algumas afirmações, mas nunca ignorando novas descobertas.

A partir da Análise de Conteúdo de um texto, de uma conversa ou um documento, podemos recolher “indicadores” quantitativos ou qualitativos que nos possibilitem realizar “inferências de conhecimentos”, ou “deduções lógicas” que, além de mostrar-nos quais as condições de produção (de quem fala e de onde fala), podem também responder a questões de causa e efeito desses enunciados: “o que é que conduziu a um determinado enunciado?” e

“quais as conseqüências que um determinado enunciado vai provavelmente provocar?” (BARDIN, 2000, p. 39)

O termo Análise de Conteúdo é definido pela autora, como sendo um conjunto de técnicas que visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhe- cimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens.

Como método de pesquisa, a Análise de Conteúdo é constituída de fases. A primeira, que diz respeito à organização da análise, “corresponde a um período de intuições, mas, tem por objetivo, tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais, de maneira a conduzir a um esquema preciso do desenvolvimento das operações sucessivas, num plano de análise”. Nessa etapa, o pesquisador escolhe quais os documentos que pretende analisar. No caso desta pesquisa, os documentos submetidos à Análise de Conteúdo foram as respostas dadas nos questionários preenchidos pelos professores e as falas deles nas transcrições das dinâmicas de Grupo Focal. A exploração de todo o material ocorre na forma de leituras flutuantes, ou seja, aquelas nas quais o analista entra em contato com o objeto que será analisado e começa a formular algumas ideias iniciais. (BARDIN, 2000, p. 95)

Durante a primeira fase também ocorre a elaboração de hipóteses, que são afirmações provisórias que desejamos verificar mediante análise, e os objetivos, que correspondem à finalidade da análise, ou seja, qual a questão que a análise do conteúdo pretende responder.

Após o pesquisador formular hipóteses baseadas na leitura flutuante que realizou dos documentos, é comum que ocorram as manifestações dos índices e indicadores (quantitativos e qualitativos). Durante a análise do questionário sobre as concepções alternativas foram utilizados indicadores quantitativos. Por exemplo, para a análise das respostas dos professores sobre a constituição do Sistema Solar, um dos índices pode ser a menção da existência das órbitas planetárias ao redor do Sol. O indicador para esse exemplo seria uma quantificação do número de professores que citaram esse índice. Já para a análise das transcrições dos Grupos Focais, os índices (dessa vez, qualitativos) são unidades de registro denominados conteúdos, que correspondem a afirmações sobre um determinado assunto. Para Bardin,

O tema é geralmente utilizado como unidade de registro para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências, etc. As respostas a questões abertas, as entrevistas (não diretivas ou mais estruturadas) individuais ou de grupo, [...] as reuniões de grupos, [...] podem

ser, e são frequentemente, analisados tendo o tema por base. (BARDIN, 2000, p. 106)

Após a primeira fase da análise, quando ocorre a escolha dos documentos e a sua leitura flutuante, bem como a formulação de hipóteses, índices e indicadores, pode ocorrer a etapa de categorização das componentes das mensagens analisadas. A autora afirma que “este processo não é uma etapa obrigatória de toda e qualquer Análise de Conteúdo”, mas deixa claro que a “maioria dos procedimentos de análise organiza-se, no entanto, em redor de um processo de categorização”. Para esta pesquisa foram elaboradas categorias para melhor organizar as informações, contribuindo, dessa forma, para a realização das inferências. (BARDIN, 2000, p. 117)

Segundo Bardin, a categorização pode ser definida como

... uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero (analogia), com os critérios previamente definidos. As categorias, são rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registro, no caso da Análise de Conteúdo) sob um título genérico, agrupamento esse efetuado em razão dos caracteres comuns destes elementos. (BARDIN, 2000, p. 117)

Neste momento, tomo a liberdade de adaptar o termo categorização, passando a denominá-lo, nesta pesquisa, como definição das dimensões de análise, cada qual com seus temas em variadas abordagens. Entendo que o termo categoria seja mais específico que o termo dimensão de análise, justamente pelo caráter mais abrangente desse último. Acredito que essa adaptação não desrespeite o trabalho de Bardin, e só traz contribuições para a análise e compreensão dos dados desta pesquisa. O motivo dessa escolha se tornar-se-á mais claro durante a leitura do capítulo seguinte.

Como última etapa da Análise de Conteúdo, a interpretação das inferências consiste em conclusões pertinentes aos objetivos da pesquisa, e é parte que compõe o capítulo final deste trabalho.

O esquema abaixo apresentado foi elaborado para clarificar as etapas da Análise de Conteúdo realizada durante a pesquisa.

Figura 5.2. Esquema das etapas da Análise de Conteúdo realizada durante a pesquisa.

O capítulo que segue mostra como todo o corpo de dados foi submetido às técnicas de Análise de Conteúdo.

6 ANÁLISE DOS DADOS

Este capítulo é divido em duas seções: na primeira (6.1), os dados foram submetidos à Análise de Conteúdo (BARDIN 2000), cujas interpretações englobaram todas as inferências realizadas e fazem parte do capítulo seguinte; na segunda seção (6.2) é realizada uma comparação entre as respostas aos questionários de levantamento de concepções alternativas em Astronomia, preenchidos no primeiro e no último dia do curso de formação continuada, para avaliar se os conhecimentos dos professores sobre os conteúdos abordados sofreram alterações.