O trabalho do michê inicia-se quando ele “desce” para a rua, para “fazer a pista” ou “batalhar”. Como qualquer outra atividade humana, a prostituição precisa de espaço para se realizar. No cotidiano da rua, o mostruário principal são as calçadas, onde os michês, em constante movimento, mostram seus corpos, como se em um mercado aberto. Percorrem ruas, praças, bares, cinemas pornôs e alguns
banheiros públicos, considerados como lócus de encontro e do exercício da profissão: afinal, o nomadismo é a tônica do métier. É preciso movimentar-se e fazer buscas durante as andanças em meio à multidão que fervilha no Centro da cidade. Os garotos percorrem os pontos onde os clientes possam localizá-los e lançam olhares em todas as direções.
O ponto de partida dos encontros eróticos é, pois, a troca de olhares e a movimentação para mostrar as partes do corpo:
[...] Existe a troca de olhares, é muito difícil ele [o cliente] chegar de cara e dizer: “eu quero fazer sexo com você”. Não, ele chega e simplesmente, a gente tem uma grande perda de tempo com a troca de olhares. [...] é muito difícil quando um homem paquera um outro homem, eu sei que tem muita gente que passa por isso. É difícil ele chegar, mas ele chega [e acontece a] troca olhares, realmente. Se você é um profissional, vai complementar o olhar dele e vai até onde ele quer chegar. [...] quando ele vê que realmente você é um garoto de programa, que você é um profissional do sexo, ele chega pra você e [diz]: “oi, tudo bem? Como é que você está?”. Boa noite, bom dia, boa tarde e daí começa todo o processo. Ele pergunta o que você está fazendo, por exemplo, na praça ou shopping, então você chega e diz: “cara, eu curto, eu sou um garoto de programa, meu preço é esse aqui”. [...] [Você] vai complementar o olhar dele e vai até onde ele quer chegar. (Rafael).
O olhar é um universo carregado de sentidos, é uma arte como tática de captura, mediada pela comunicação. O olhar coisificado manipula os homens como objetos de desejo, convoca-os e verifica-os (DELEUZE; GATTARRI, 1997).
O cliente percorre todo o corpo do michê com olhos de quem quer ver, ter e sentir muito mais, tanto no que se refere às expectativas sexuais, quanto aos riscos envolvidos na transação (PERLONGHER, 2008). Embora busque uma aventura, esse olhar é indicativo de uma organização racional que não carece de cálculo para mensurar o grau do desejo ou mesmo o perigo ao envolver-se com o desconhecido. Essa primeira abordagem entre cliente e michê exige um jogo de sedução e força, no qual os menores sinais e detalhes são devidamente analisados e valorizados. O cliente procura as características que considera interessantes para o desempenho do programa: os traços corporais do garoto, como musculatura e tamanho do pênis. Já o garoto observa a aparência do cliente: se está bem vestido, se usa alguma joia ou relógio, o modelo do carro e outros sinais de que tem dinheiro para o pagamento do programa.
Nessa modalidade da relação, verifica-se que a abordagem não é tão fácil como poderia parecer, quando se tem em conta a exposição dos garotos, os indícios
das intenções dos clientes e a notoriedade dos “pontos de pegação” 55 em espaços territorializados pela prática da michetagem. Na verdade, trata-se de uma interação algo tensa, pois a decisão de fazer (ou não) o programa envolve não poucos riscos e incertezas para ambos os parceiros. Tudo tem que ser decidido a partir de uma rápida análise sobre os traços exteriores e uma conversa superficial, onde são negociados os tipos de serviços e os preços respectivos.
Para designar a breve, porém decisiva comunicação verbal que ocorre entre michês e possíveis clientes, vários sujeitos da pesquisa utilizaram o termo “entrevista”. Com efeito, a interação que se estabelece guarda semelhanças com a técnica utilizada por pesquisadores, jornalistas, médicos e outros profissionais, a fim de obter de certas pessoas informações a respeito delas mesmas ou de determinados assuntos, durante um encontro face a face. Neste sentido, a entrevista exige habilidade e confiança entre as partes: o resultado só será satisfatório se o motivo que a determina for admissível para o entrevistado. De modo semelhante, na “entrevista” que ocorre durante a interação inicial entre o garoto e o cliente potencial, ambos procuram obter informações, a fim de definir os temos de um possível contrato: “[...] quando está rolando [a] entrevista, o carro para e o cliente pergunta o preço do programa, o que é que você faz, o tamanho do pênis...” (Marley). Um dos garotos entrevistados destacou essa conversa como elemento importante para a definição do papel “ativo” ou “passivo” (discutido no Capítulo 2):
Tem cliente que chega pra você e pergunta: “você faz tudo”? Aí você responde: “não, eu não faço tudo, eu sou ativo; eu só faço isso e isso”. [...] acho que se deve dizer tudo na entrevista, numa conversa [...] Então, se você disse [que] faz tudo ou se você só faz o ativo, então você tem que fazer o seu papel que você mostrou.(Rafael).
Questões não explícitas, porém, costumam estar presentes, como a possibilidade de “golpes” de ambas as partes. Mais que isso, porém, o cliente quer ter a certeza de que se trata de um parceiro “macho”, para proporcionar o prazer desejado ou as fantasias sonhadas, enquanto o michê necessita assegurar sua masculinidade, por ser o maior sustentáculo de seu negócio. Essa desconfiança
55 “Pegação” é um termo usado para definir a busca de parceiros ou parceiras em bares, festas, danceterias etc. Tem sua origem no ambiente homoerótico, no qual indica a procura anônima e imediata por satisfação sexual e afetiva, geralmente em cantos discretos de ambientes públicos. Varia desde a troca de olhares em silêncio e à distância, até a masturbação mútua, felação ou mesmo relação sexual completa. (PERET, 2010).
entre as partes ou a busca de certeza do que cada um está levando para junto de si (na cabine do cinema, no motel, dentro do carro, no banheiro, atrás do muro etc.) faz parte da observação prévia e, consequentemente, da transação; afinal, trata-se de prazer, vontade e desejo, mas, também, cálculo, interesse e ganho monetário.