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C. albicans ainda é a espécie responsável pela maioria das

doenças fúngicas causadas pelo gênero Candida e também a mais virulenta em modelos animais de infecção disseminada. Além disso, esta espécie encontra-se com o genoma completamente sequenciado. Por esse motivo, seus fatores de virulência têm sido bastante estudados, tais como: transição levedura a hifa, adesão a células epiteliais e endoteliais do hospedeiro, bem como a materiais plásticos utilizados em procedimentos médicos invasivos

(produção de biofilmes), habilidade de escapar do ataque de células do sistema imunológico e a capacidade de secretar enzimas hidrolíticas (Schaller et al., 2005; Odds, 1994). Entretanto, investigações a respeito dos atributos de virulência de espécies de Candida não-Candida albicans, ainda são escassos, apesar de estes patógenos serem frequentemente relatados como causadores de doença.

C. albicans é capaz de secretar diversas enzimas hidrolíticas, tais

como proteinases, fosfolipases e lipases, e todos estes atributos de virulência auxiliam o fungo na obtenção de nutrientes a partir das células do hospedeiro, auxiliando a levedura a invadir os tecidos do hospedeiro através da quebra das membranas celulares e matrizes extracelulares, bem como no escape aos mecanismos de defesa do organismo humano, garantindo ao patógeno uma habilidade ímpar de sobreviver e infectar vários sítios anatômicos com diferentes pressões ambientais (Fu et al., 1997).

Atividade proteolítica extracelular é um fator de virulência importante em C. albicans atribuído às proteinases aspárticas secretadas (SAPs), que são codificadas por uma família de pelo menos 10 genes que expressam 10 tipos de proteinases diferentes (SAP1-SAP10). Estas proteinases assumem papéis variados durante o processo de infecção no hospedeiro, uma vez que são diferencialmente expressas e reguladas. É sabido, por exemplo, que as SAP4-6 são produzidas quase que exclusivamente durante a formação de hifas e em pH neutro, e também são comumente associadas à infecção de mucosa vaginal. Por sua vez, SAP9 e SAP10, são constitutivamente expressas em todas as formas de crescimento

do patógeno. Durante as infecções sistêmicas, SAP2, SAP 4-6 e SAP9 são altamente expressas, sendo SAP2 expressa nos estágios mais tardios dessas infecções (Schaller et al., 2005).

As funções propostas para as proteinases durante a infecção incluem: digestão das proteínas do hospedeiro para suprimento nutricional, evasão do sistema imunológico humano através da degradação de imunoglobulinas e proteínas do complemento, bem como a aderência e degradação das barreiras do hospedeiro durante a invasão e resistência ao ataque antimicrobiano (Hube et al., 2001; Monod et al., 1994; Monod et al., 1998).

Genes homólogos aos genes SAPs também foram identificados em outras espécies de Candida. Utilizando-se a sonda SAP1DNA, foi possível identificar bandas no genoma de C. tropicalis, C. parapsilosis e C. guillermondii. Diferenças substanciais na especificidade de substratos em cada uma das proteinases produzidas pelas diferentes espécies também foram encontradas, tal como ocorre em C. albicans (Hrusková-Heidingsfeldová et al., 2009; Haynes, 2001).

A produção de proteinase por espécies de Candida não-Candida

albicans já foi relatada em diversos estudos, particularmente em C. tropicalis, C. glabrata, C. krusei e C. parapsilosis. Contudo estas outras espécies

geralmente caracterizam-se por apresentarem cepas não produtoras ou baixas produtoras de proteinase quando comparadas à C. albicans (Rorig et al., 2009; Gokce et al., 2007).

Produção de fosfolipase por C. albicans é considerada outro aspecto importante na virulência dessa levedura. Microscopia eletrônica e ensaios bioquímicos radioativos demonstraram que a atividade de fosfolipase nessa levedura está presente na superfície da célula leveduriforme, e é principalmente encontrada na extremidade de crescimento das formas filamentosas. Seu alvo fundamental são os fosfolípideos da membrana celular, os quais são hidrolisados levando a ruptura da membrana celular no momento da invasão tissular. Algumas funções para as fosfolipases durante a infecção têm sido postuladas, entre elas: penetração na célula do hospedeiro, adesão às células epiteliais e invasão de epitélio oral humano (Schaller et al., 2005; Banno et al., 1985).

A produção de fosfolipase, evidenciada através do cultivo em meio contendo gema de ovo (rico em fosfolipídeos), também foi detectada em

C. glabrata, C. parapsilosis, C. tropicalis, C. lusitaniae e C. krusei (Kantarcioglu

& Yücel, 2002). Contudo, a produção desta enzima por espécies de Candida não-Candida albicans é, em sua maioria, baixa ou nula, independentemente do sítio de isolamento (da Costa et al., 2009; Mohan das & Ballal, 2008; Ghannoum, 2000).

Ibrahim et al. (1995) comparam a habilidade de cepas de C.

albicans recuperadas do sangue de pacientes com isolados obtidos da

cavidade oral de indivíduos sadios em produzirem fosfolipase. Estes isolados clínicos, com diferentes níveis de expressão de fosfolipase, foram também comparados quanto à sua virulência em modelo murino de candidíase disseminada. Nas amostras de sangue, foram observadas altas taxas de

produção de fosfolipase quando comparados às cepas comensais. Em modelo de infecção em camundongo, outros fatores de virulência foram avaliados em paralelo, entretanto, somente a atividade de fosfolipase foi preditora de mortalidade. Estes dados sugerem um envolvimento de fosfolipase no processo de invasão dos tecidos por C. albicans.

Considerando que 25% de todo conteúdo lipídico do estrato córneo humano é formado por triacilglicerol, espera-se que fungos patogênicos secretem lipases para conseguirem infectar o hospedeiro. Pouca atenção tem se dado para o papel das lipases em virulência. Contudo, um estudo revelou que a produção de lipases em 85 isolados de Candida spp. foi crucial no crescimento das leveduras em determinadas condições específicas, embora o papel fisiológico dessas lipases não tenham sido completamente esclarecidos (Tsuboi et al., 1996).

Dez genes que codificam lipases em C. albicans (LIP1-LIP10) já foram reportados, os quais são diferencialmente regulados e expressos de acordo com o estágio de infecção do paciente. Além disso, um recente estudo utilizando modelos experimentais demonstrou que mutantes deficientes para o gene LIP8 foram significantemente menos virulentos em modelos de infecção em camundongos, indicando claramente que o produto expresso pelo gene

LIP8 é um importante fator de virulência em C. albicans (Gácser et al., 2007a).

Também foi verificado que mutantes não produtores de lipase de C.

parapsilosis, cuja expressão dos genes LIP1 e LIP2 foram suprimidas,

murinos, além de se tornarem mais suscetíveis à ação destrutiva dos macrófagos (Gácser et al., 2007b).

Embora as atividades de proteinase e fosfolipase ainda não tenham sido amplamente estudadas em C. rugosa, sabe-se que esta levedura é um grande produtor de lipase, o que torna de fundamental importância investigar se a produção desta enzima apresenta potencial patogênico para esta espécie. Lipases de C. rugosa foram descritas pela primeira vez nos anos sessenta, através do isolamento da levedura de amostras de solo. Subsequentemente, duas isoenzimas chamadas de LipA e LipB foram identificadas, purificadas e caracterizadas. Atualmente, pelo menos sete genes foram descritos como envolvidos no maquinário produtor de lipase por C.

rugosa, sendo cinco deles completamente caracterizados bioquimicamente (de

Maria et al., 2005).