Da mesma maneira em que em Os Três Mosqueteiros (1844), de Dumas, a evolução do herói não é rápida, em Le chercheur d’or, como visto até então, o protagonista Alexis demora para atingir o seu objetivo para, enfim, triunfar. A divisão temporal da trajetória iniciática de Alexis é, portanto, nítida na grande maioria das vezes para que o leitor consiga ter a noção tanto da duração dos acontecimentos quanto do contexto histórico do qual eles fazem parte, já que, como se viu, o romance é também uma denúncia à situação atual das culturas minoritárias decorrentes da colonização exploratória e caótica. O período de duração da narrativa é de 1892 a 1922, sendo, portanto, de trinta anos, mas, como descrito anteriormente, a aventura só se iniciará, de fato, quando Alexis parte na embarcação Zeta, em 1910. Nota-se aqui que as datas são bem marcadas e, apesar de o narrador não falar a todo momento sobre sua idade, conseguimos sabê-la por meio da definição temporal e da sua idade inicial, oito anos. No decorrer da narrativa, percebe-se que, assim como Stevenson, Le Clézio marcará o tempo de duas maneiras diferentes: pelos anos precisos e pelas referências qualitativas, explorando os acontecimentos importantes que farão com que o herói perca a noção do calendário, como acontecerá durante a viagem no navio Zeta.
O primeiro e o segundo capítulos abrangem os anos de 1892 a 1910, em que a infância de Alexis é retratada tanto no Boucan quanto em Forest Side, onde o espírito aventureiro do herói é aguçado após ter sido forçadamente expulso do lugar onde fincara sua identidade. O terceiro capítulo narra a viagem na embarcação Zeta, que dura um ano, de 1910 a 1911, período em que o protagonista começa a conviver com uma gama maior de pessoas (já que o Boucan era um lugar excluído do restante do mundo) e a conhecer os arredores das ilhas Maurício e Rodrigues, o que contribuirá para sua futura evolução. Durante a viagem, a
56 marcação temporal de Alexis passa a ficar vaga, pois, em alto mar, o herói não tem acesso às restrições temporais já que não é mais escravo de uma rotina. Ademais, o que predomina, nesse momento, é o tempo psicológico, dificultando ainda mais uma definição exata de tempo: “Quel jour sommes-nous? Il me semble que j’ai toujours vécu ici, à la poupe du Zeta, [...]” (LE CLÉZIO, 1985, p.127). Desse modo, as divisões temporais deste capítulo serão feitas de maneira inexata e o único propósito é sinalizar a mudança de um dia para outro: “Jour suivant, à bord.” (LE CLÉZIO, 1985, p.131); “Un autre jour, en mer.” (Ibidem, p.135); “Une nuit en mer, encore.” (Ibidem, p.140). Com isso, fica evidente que, tanto nos dois primeiros capítulos (que ressaltam a infância de Alexis) quanto no terceiro capítulo (momento de sua viagem), o valor do tempo é qualitativo e, apesar da divisão temporal bem marcada entre os capítulos, o leitor não tem a impressão de fragmentação dos acontecimentos e consegue, aos poucos, entender o sentido e a simbologia dos fatos, objetos e personagens sem que o tempo cronológico seja imprescindível.
Depois de passar quatro anos (1911-1915) procurando, em vão, pelo tesouro do corsário desconhecido, sem ter sofrido ainda nenhuma evolução relevante, o herói parte para a Primeira Guerra Mundial, assunto do quinto capítulo do romance, cujas referências temporais também serão nebulosas e, perante tantas catástrofes, os dias parecem não terminar, evidenciando, assim como na viagem, a preponderância do tempo psicológico: “Il y a si longtemps que nous sommes dans cette terre, écoutant les grondements des canons, et le chant des corbeaux de la mort, nous ne savons plus rien du temps. Y a-t-il des jours, des semaines, des mois?” (LE CLÉZIO, 1985, p.277). Com isso, o período de basicamente um ano torna-se extremamente extenso, maçante; a angústia de estar diante de tanta violência e, inclusive, de fazer parte disso, faz do tempo algo interminável e massacrante.
A volta a Rodrigues, no verão de 1918, já denota grande evolução de Alexis, pois, ao ser submetido às consequências das relações de poder nutridas pelo sistema capitalista, o herói passa a revalorizar o Boucan, a paz que ele provoca, bem como as pessoas que fizeram e fazem parte de sua trajetória. Nesse capítulo, o narrador descobre o verdadeiro sentido do ouro e, ao religá-lo ao período vivido no Boucan, entende que Mananava é o lugar que representa a felicidade plena e essa descoberta o encaminhará para o último capítulo do romance, que ratificará a evolução do herói após trinta anos. É aqui que a narrativa evidencia seu caráter circular, pois, além de estar no espaço abrangido no início da obra, o tempo da infância é tido como o verdadeiro revelador do grande enigma do ouro e é através dele que Alexis consegue desvendar esse mistério: “Me voici de nouveau à l’endroit même où j’ai vu venir le grand ouragan, l’année de mes huit ans, lorsque nous avons été chassés de notre maison et jetés dans le monde, comme pour une seconde naissance.” (LE CLÉZIO, 1985,
57 p.374). Além disso, a última frase, assim como a primeira, faz uma referência ao mar, principal fonte de aventura e reconhecimento da narrativa: “[...] j’entends jusqu’au fond de moi le bruit vivant de la mer qui arrive.” (LE CLÉZIO, 1985, p.375).
Os altos e baixos da jornada de Alexis são, portanto, colocados em uma estrutura temporal simples e, na maioria das vezes, bem definida, pois os capítulos são divididos conforme a mudança espacial do protagonista. Nos momentos em que há o predomínio do tempo psicológico, nota-se que a aventura concentra o tempo nela mesma; a própria recorrência às lembranças da infância tem como propósito evidenciar e fortalecer o cunho aventureiro das viagens de Alexis. Ademais, a narração em perspectiva permite, também, o baralhamento da cronologia, tanto para dar maior realismo ao processo da memória quanto para privilegiar os instantes importantes. A questão do tempo reencontrado pela lembrança (latente em O Conde Monte Cristo) e o desejo de reviver uma época passada (a infância, em Le chercheur) é, segundo Tadié, uma das marcas que denotam a grandeza de uma obra literária: “Ecrire une fois l’aventure, c’est écrire un roman d’aventures; la faire retrouver par le souvenir, c’est écrire un chef-d’oeuvre littéraire.” (TADIÉ, 1982, p.68). Nesses termos, é perceptível que, assim como outros elementos da obra, tanto o herói Alexis quanto o tempo e os lugares que permeiam sua trajetória são compatíveis com os romances de aventuras, principalmente os de Alexandre Dumas; mas, ao mesmo tempo em que compartilha semelhanças estruturais, Le chercheur d’or apresenta inovações que demonstram a originalidade de Le Clézio, que se utiliza de um gênero aparentemente ligado ao entretenimento para fazer uma crítica à sociedade contemporânea.