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Os antecessores do MOW costumavam realizar estudos de natureza empírica e descritiva, embora se registrem produções de cunho ensaístico, realizadas sob diferentes matrizes epistemológicas, que serviram para contextualizar as discussões em seus vários domínios. Conforme sistematização de Bendassolli (2009), as pesquisas nessa fase concentram-se em quatro eixos temáticos, quais sejam: (a) centralidade do trabalho; (b) atitudes e crenças em relação ao trabalho; (c) resultados valorizados do trabalho; e (d) valores do trabalho, e serão a seguir apresentadas e complementadas pelas revisões de outros autores, além de Bendassolli (2009).

Os estudos com foco na (a) centralidade do trabalho enfatizavam o grau de importância do trabalho para um indivíduo em relação a outros campos de sua vida, concentrando seus objetivos em demonstrar uma relação direta entre engajamento e centralidade do trabalho (BENDASSOLLI, 2009). Nesse eixo de pesquisa, em 1956, Dubin desenvolveu um estudo denominado Central Life Interests (CLI), com o intuito de descobrir que aspectos da vida competiam ou se sobrepunham ao trabalho. Mesmo não atingindo seu objetivo, as evidências de sua pesquisa indicaram que o trabalho tinha um significado instrumental. Aprofundando a questão, o autor realizou mais três pesquisas posteriores, sendo a primeira em 1975, comparando interesse central e afeto; a segunda, em 1986, em parceria com Mannhein, explorando as consequências da alta ou baixa centralidade do trabalho em comparação ao comprometimento, na qual concluiu que, quanto maior a centralidade, maior o envolvimento do indivíduo com o trabalho; e a terceira, em 1992, que proporcionou a redefinição do conceito de Central Life Interests (CLI) como centro da vida no qual um indivíduo dirige suas energias em estados positivos (BENDASSOLLI, 2009). Ainda neste eixo, Goulart (2009) traz o estudo de Williams, Morea e Ives, que, em 1975, compararam interesses de estudantes e profissionais britânicos, constatando que, para os estudantes, o trabalho era mais importante que a família, enquanto para os profissionais, ocorria o contrário. Para mensurar a centralidade do trabalho, Bendassolli (2009) apresenta Mannheim e Cohen, que em 1978, construíram uma escala, concluindo que ela era dependente do significado atribuído ao conteúdo do trabalho: quanto maior o propósito ou o sentido desse conteúdo,

mais central era o trabalho na vida do indivíduo. Além deste, Mourão e Borges-Andrade (2011) destacam o trabalho de England e Misumi, que, em 1986, comparam a centralidade do trabalho entre trabalhadores americanos e japoneses, de diversos níveis hierárquicos, constatando que a centralidade do trabalho é influenciada pela nacionalidade e não pelos cargos, pois os japoneses tinham o trabalho em primeiro lugar, enquanto os americanos, a família.

O segundo eixo temático foi orientado pelas (b) atitudes e crenças em relação ao trabalho, considerando o significado do trabalho como dependente das atitudes e crenças que os indivíduos possuíam com relação ao trabalho. No que se refere ao sub-eixo análise das atitudes, os resultados atestaram a existência de uma pluralidade de significados com relação ao trabalho. Por exemplo, Bendassolli (2009) traz a pesquisa de Fried, em 1966, que associou o significado do trabalho distintamente para o emprego, a tarefa, a ocupação e a carreira, constatando que eles variavam desde a concepção instrumental até o desejo de realização pessoal. Em suma, a análise das atitudes permite concluir que o trabalho, para um indivíduo, pode ter um significado instrumental [emprego], enquanto ele reserva sua necessidade de significado para outras esferas [lazer, família, religião, amigos]; um significado de ocupação, quando pela carreira ele tem a expectativa de realizar necessidades como autoestima e reconhecimento social ou uma atitude afetivamente orientada, via vocação, significando que o trabalho é uma razão de ser da existência daquele indivíduo (BENDASSOLLI, 2009).

Com relação ao sub-eixo de análise das crenças, Bendassolli (2009) apresenta como estudos relevantes a obra de Büchholz (1977), que adotou o conceito de crenças de Rokeach (1968). Para Borges (2001), o sistema de crenças individuais seria a própria ética do trabalho, considerada uma espécie de lente intermediando a percepção do indivíduo com relação ao mundo com relação ao trabalho. Após estudar e realizar pesquisas empíricas com executivos das maiores empresas norte-americanas, Büchholz concluiu que elementos como autonomia, oportunidade de crescimento pessoal e trabalho interessante tinham correlações mais altas com a satisfação no trabalho do que simplesmente a segurança ou o salário (SHEPPARD; HERRICK, 1972 apud BÜCCHOLZ, 1977). Isso ocorreria, principalmente, se considerado o estabelecimento das ideias do movimento das relações humanas. Assim, ele detectou cinco sistemas de crenças em relação ao trabalho: ética, sistema organizacional, marxismo, humanismo e lazer. Na visão de Bendassolli (2009), os méritos de Büchholz (1977) consistem na: (a) consolidação da literatura existente sobre crenças relativas ao trabalho, que possibilitou a revelação do enfraquecimento da ética protestante até então vigente, suscitada pelo confronto das relevâncias entre essa mesma ética [trabalho como dever e glorificação a Deus]

e as demais experiências e necessidades que se faziam presentes no trabalho [tais como as relacionadas à criatividade, autorrealização e crescimento pessoal]; (b) sugestão de inovação na área de recursos humanos, representada pelo desenvolvimento de uma gestão de pessoas compatível com o sistema de crenças predominantes entre os pesquisados, as de cunho humanista e não instrumental. Além desses estudos principais no eixo de atitudes e crenças com relação ao trabalho, outras pesquisas foram empreendidas e hoje têm valor histórico, considerando que captaram pontos ainda abertos na atualidade. Bendassolli (2009) cita, por exemplo, o trabalho de Weiss e Kahn, na década de 1960, que fizeram um inventário sobre os diversos significados do trabalho para distintas categorias ocupacionais nos Estados Unidos, visando à identificação de diferenças entre trabalho e ocupação. Os autores encontraram quatro padrões e perceberam que 60% dos pesquisados consideravam o trabalho como um mal necessário.

O terceiro eixo de pesquisa é o de (c) resultados e orientações do trabalho, que se concentra na função psicológica do trabalho. Diferentemente do conceito de centralidade, a função do trabalho diz respeito aos resultados esperados por meio de sua realização, sejam eles de caráter instrumental ou não instrumental. A primeira pesquisa desse eixo ocorreu nos anos 1950 e, historicamente falando, é o estudo pioneiro sobre o significado do trabalho, conforme mencionado no início desta seção. Motivados por observações sobre os efeitos da aposentadoria e do desemprego nos indivíduos, Morse e Weiss (1955) investigaram uma amostra de empregados do sexo masculino, de diversas categorias, posições e idades, lançando a seguinte pergunta sobre se uma herança faria com que eles deixassem de trabalhar. A pergunta também é mundialmente conhecida como a questão da loteria (MORSE; WEISS, 1955). Como mais de 80% dos entrevistados disseram que continuariam a trabalhar, o assunto tornou-se objeto de investigação. Anos depois, Vecchio (1990) revisitou a pesquisa de Morse e Weiss, mas os resultados foram discrepantes. Durante três anos, o autor investigou uma amostra de empregados do segmento industrial e obteve resultados diferentes daqueles obtidos há quase 30 anos. Enquanto na pesquisa de Morse e Weiss (1955), 80% dos entrevistados continuariam a trabalhar caso obtivessem uma herança, na pesquisa de Vechhio (1980), 72,2% deram a mesma resposta. Além dessa redução, Vecchio notou que as correlações entre os quesitos idade e posição hierárquica estavam mais fracas do que as encontradas por Morse e Weiss. As razões de tal discrepância para a mesma pesquisa, realizada quase 30 anos após a primeira, apontaram para uma mudança cultural decorrente da adaptação dos valores culturais à nova sociedade, considerando a contínua preocupação com o

lazer e a qualidade de vida no trabalho, que, igualmente, podem ter levado a uma aceitabilidade maior da aposentadoria antecipada (VECCHIO, 1990).

Tausky e Piedmont (1967), estudando saúde mental, observaram que a função do trabalho também é criar identidade e inserção social, o que veio ratificar Morse e Weiss (1955). Visando à criação de um corpo teórico referencial para futuras pesquisas, Tausky e Piedmont elaboraram uma tipologia do significado do trabalho, com duas orientações, (a) instrumental, que focalizou padrões de consumo, e (b) expressiva, com foco no social. Haveria, ainda, um terceiro tipo, a semiexpressiva, resultado da mistura das duas funções anteriores, isto é, tendo um foco socioinstrumental e existindo em função da percepção do trabalho como fonte legitima, ou seja, que não fosse fruto de herança ou ganho ilícito (TAUSKY; PIEDMONT, 1967). Por fim, é interessante trazer uma pesquisa, que, embora não seja explicitamente desse eixo da função psicológica, pode ser assim visualizada por ter trazido a ideia de satisfação ligada às condições do trabalho que se realiza. Em 1984, Cacioppe e Mock compararam grupos de trabalhadores inseridos nos setores público e privado e observaram que os indivíduos inseridos no setor privado estavam mais satisfeitos com a vida profissional do que os do setor público, diferença mais perceptível nos cargos de maior hierarquia (GOULART, 2009), o que trouxe a perspectiva de que o significado do trabalho pode variar conforme posição e tipo de empresa, por exemplo.

O último eixo de pesquisa focalizou os (d) valores do trabalho, discutindo os valores de forma ampla e diferente da teoria de valores humanos adotada atualmente no cenário acadêmico, em virtude da teoria de Schwartz (1992) (SVERKO; VIZEK-VIDOVIC, 1995). Por ocorrerem antes de Schwartz, algumas vezes, essas pesquisas consideravam valores enquanto crenças ou atitudes (ROSSO; DEKAS; WRZENIEWSKI, 2010). Neste eixo, destacam-se três grandes estudos. O primeiro deles é de Lodhal e Kejner, que, em 1965, propuseram uma medida denominada Job Involvment [envolvimento com o trabalho] e sustentaram que a socialização é o período de início do envolvimento de uma pessoa com o trabalho, pois, nessa fase, os valores sociais do trabalho são transmitidos e internalizados. Mais tarde, esses valores seriam cristalizados, e, quando ativados por experiências laborais, afetariam a autoestima e, consequentemente, o significado atribuído ao trabalho (BENDASSOLLI, 2009). O segundo estudo foi produzido por Wollack et al. (1971), que construiu e validou um instrumento denominado Survey of Work Values, o SWV, visando à análise do significado do trabalho e dos valores relacionados à ética protestante no processo de secularização, tendo três eixos valorativos principais: individualismo, ascetismo e diligência (WOLLACK et al., 1971). E o terceiro estudo importante ocorreu em 1984, quando

Furnham investigou os determinantes e as relações entre atitudes e crenças e as várias medidas de valores de trabalho na população inglesa. Para o pesquisador, as crenças e valores diziam respeito às orientações estáveis e persistentes dos indivíduos em relação ao emprego remunerado e não às reações dos empregados ao emprego ou a aspectos ligados a ele (BENDASSOLLI, 2009). Outro estudo que considerou valores do trabalho foi o do grupo MOW (1987), a seguir apresentado.