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Concluding remarks for the flow estimator

Os ribeirinhos que aportam e que desembarcam diariamente na cidade de Macapá, também trazem das ilhas distantes suas mazelas e esperanças para si e para os filhos num vir-a-ser constante que há muito tempo abriu caminho na relação entre o Pará e o Amapá, desde a ilha do Marajó ao longínquo Baixo Amazonas; desde a fronteira norte ao sul do Pará; e aos mais afastados estados da federação. A primeira migração para a povoação de Macapá ocorreu em 1752, seis anos antes de ser fundada a vila de São José, a 04 de fevereiro de 17588. Depois disso ocorreram outras migrações mais

significativas no decorrer do desenvolvimento do Amapá, como na instalação do Território Federal (1944), na exploração das minas de manganês pela Indústria e Comércio de Minérios S.A. – ICOMI (1952), na transformação do Amapá em Estado Federativo (1988) e durante a permanência da Área de Livre Comércio de Macapá e Santana – ALCMS (década de 1990). Nesses períodos a origem dos migrantes eram, em sua maioria constituídas de paraenses, maranhenses, piauienses e cearenses, nesta ordem (Censo IBGE: 2010).

8 4 A saga da emigração madeirense começa no século XV, quando suas ilhas já tinham uma densidade demográfica considerável, situação que já vinha sendo dinamizada pelo duque D.

Fernando na segunda metade desse século. “Para que a população crescesse e não faltasse mão-de-obra criou um imposto anual pago em trigo, para todos os homens solteiros que não têm

mulheres, para estimular a consumação de casamentos” (Fernandes dos Santos Maria Licínia in

Os Madeirenses na Colonização do Brasil. Centro de Estudos de História do Atlântico/Secretaria Regional do Turismo e Cultura. Funchal, Madeira, 1999.) Daí, com o excesso populacional das ilhas é que inicia a diáspora madeirense, aliada a fatores de subsistência econômica visto as ilhas vulcânicas não terem muito espaço para a agricultura diversificada. Além disso, a odisseia emigratória dos povos dos dois arquipélagos constituía-se em excelente oportunidade de ascensão social dos nobres de segunda linha que não possuíam meios materiais para permanecerem no pico da pirâmide social (Santos. Op. Cit. Pág. 21). Mas foi só com os alistamentos a partir de 1747 que se iniciou a vinda desses povos para o Brasil, principalmente para a região Meridional, quando se instalaram na Ilha do Desterro, hoje Florianópolis, e no Rio Grande do Sul. O sucesso político-diplomático da assinatura do Tratado de Madri, de 13 de

janeiro de 1750, que definia as fronteiras do Brasil, “exigia gente para proceder à demarcação

dos limites e para reforçar a defesa de toda a enorme região amazônica” (ver Silva, José Manuel

Azevedo, “Açorianos e Madeirenses no Povoamento e Colonização da Amazônia no Tempo do Marquês de Pombal” in As Ilhas e o Brasil. CEHA/SRTC. Funchal, Madeira, 2000.) Foram propostos, então, três remédios: o “descimento dos índios do sertão”, a introdução de escravos

negros e o envio de povoadores, principalmente casais dos Açores e da Madeira, segundo autor acima citado.

A sociedade amapaense é sempre aberta e não se petrifica. Ao contrário, se liquefaz, procurando ambiente para encontrar sua própria forma e para procriar e gerar elementos de sua utopia, de sua esperança de progresso, ainda instalada da herança deixada pelos primeiros governantes do Território do Amapá e sua mística ideológica, (que veremos no terceiro capítulo desta tese).

Essa identidade tem sua própria personalidade embutida nas histórias de conquistas e estabelecimentos que foram importantes para a solidificação da economia e para o orgulho amapaense.

Os descendentes de escravos que foram trazidos para Macapá desde a época da construção da Fortaleza de São José lutam hoje pela valorização de sua cultura, representadas pelas festas folclóricas do Zimba9 e do Sairé10, do

Marabaixo11 e do Batuque12 e da Folia13 , além das manifestações religiosas de

matriz africana como o Candomblé, o Tambor de Mina e a Umbanda e da herança cultural do povo de Mazagão Velho, que possui em torno de 20 festas anuais no seu ciclo santoral, incluindo as mais importantes que são as de Nossa

9 O Zimba é um batuque que ocorre nas festividades do Divino espírito santo na localidade de Cunani, no litoral amapaense. É dançado por pescadores e lavradores do local. Muito semelhante na dança ao Batuque, suas músicas são acompanhadas por grandes tambores denominados curimbós, confeccionados de troncos de árvores e couro de animais.

10 O Sairé ou Sahiré era uma manifestação religiosa que acontecia em Mazagão Velho e Carvão. Consistia em uma procissão na qual era levada o sairé - uma cruz feita com três arcos de madeira enfeitada de algodão e com músicas cantadas em nheengatu em homenagem ao Divino Espirito Santo. Sobrevive em Santarém-PA, para onde foi levado por mazaganenses, de acordo com Nunes Pereira em seu livro O Sahiré e o Marabaixo (1951). A grafia usada pelos santarenos hoje obedece uma regra idiomática = Çairé. Em Mazagão há um movimento para reincorporar essa tradição ao quadro de manifestações folclóricas locais.

11 O Marabaixo, hoje, é a maior expressão da cultura popular do Estado do Amapá, embora também aconteça de forma apagada na festa do Çairé de Alter do Chão (no Município de Santarém – PA) e em Marabitanas, no Estado do Amazonas. É um ritual onde os aspectos religiosos propriamente ditos não têm mais a ênfase que lhe era dada no passado, mas continua vivo e enraizado entre os que o praticam. O reconhecimento como expressão cultural autêntica se deu a partir do início de um processo de valorização, promovido pelos setores públicos, o que motivou a elevação de sua autoestima e a consequente divulgação dentro e fora do Estado. 12 Ao Batuque estão atreladas várias manifestações de caráter religioso, ao lado de danças e cânticos preservados até hoje por moradores do Curiaú, Mazagão Velho e Igarapé do Lago, no Estado do Amapá. É uma dança de roda em que os dançarinos giram em volta dos tocadores,

respondendo o estribilho do “ladrão”, que é a música cantada por um solista. Porém, nos lugares aqui citados ele se realiza de modo especial, com características próprias.

13 A Folia é de origem portuguesa. Ela encerra o ritual com antigos cantos devocionais. Antigamente consistia num agrupamento de homens que saía a colher donativos com um porta- estandarte ou alferes-da-bandeira à frente do cortejo. No Curiaú, depois que encerra a ladainha, o Mestre-sala toca uma campa e é acompanhado nas músicas por vários instrumentos. Os Tambores são feitos de madeira leve e cobertos com couro de animais silvestres. Há pandeiros; reco-recos feitos de taboca talhada, na qual se esfrega um pedaço de madeira; querequexés, que são cilindros confeccionados de galhos de imbaúba onde são colocados grãos de cereais ou semente de tento; violas e cavaquinho.

Senhora da Piedade e de São Tiago, ambas realizadas no mês de julho, desde 1777 (Como veremos adiante).

Nas manifestações culturais as roupas dos participantes os distingue e os isola dos assistentes da dança, que também entram na roda dos tambores e cantores com a convicção de que são pertencentes ao grupo de uma forma maior, mais abrangente em termos dos significados de pertencimento e de identidade. Nessas rodas os trajes de homens e mulheres eram os usados em domingueiras antigamente: as mulheres com saias rodadas e blusas rendadas ou floridas. Os homens usavam trajes brancos e chapéus de palha, tanto no Marabaixo como no Batuque.

Não obstante a alegria normal nos dias de festa, presenciei provocações de cunho racista eles, que muitas vezes se calam diante disso. Por não terem argumento educacional ou político que possam mudá-las, se retiram do local para não se submeterem à violência que esses fatos podem gerar. Às vezes as provocações e os tratamentos humilhantes são realizados por afrodescendentes da própria sociedade, condição endógena normalmente velada. Faço essa assertiva por observar sempre o espaço em que todos vivem, nos bairros em que ando e dialogo, nas famílias que visito, e que desenho suas histórias já construídas, no relacionamento direto de aprendizado sobre seus saberes e projetos, sobre suas condições socioeconômicas e de vida sentimental e cultural.

Pelos fatos expostos acima é que a cidadania dos partícipes da festa é um motivo permanente de luta dos movimentos sociais afrodescendentes.

Há quem diga que o amapaense é um místico por causa da “energia”

emanada pelo sol sobre a linha imaginária do equador. Esse atributo se dá pela

influência “astral” do Equinócio das Águas (março) e da Primavera (setembro) e

dos solstícios (junho e dezembro), nessa demarcação geográfica, que “passa” sobre Macapá na Latitude 0°,00’00”. Macapá é a única capital brasileira cortada

por ela, separando o planeta em dois hemisférios. Segundo o arquiteto Alberto Tostes

Não há dúvidas de que ser cortado pela linha do equador é um privilégio de poucas cidades do mundo. Caracterizar simbolicamente para uma cidade, um povo ou um país, não é uma tarefa fácil. Exige de todos a preocupação não somente com o fato de que ali fica a linha imaginária, mas também o sentimento da representação simbólica do

meio do mundo. A arquitetura e seus monumentos expõem, na realidade, aquilo que a cidade tem o privilégio de ser, o lugar onde o usuário inscreve a história do urbano e preserva a memória do seu repertório coletivo (TOSTES, 2009. 2º caderno. Pág 04)

O Turismo tem tirado proveito dessa condição prática do desenvolvimento econômico e promovido o Marco Zero, ao sul de Macapá, como um dos pontos de atração turística mais visitados e importantes da cidade, ao lado da Fortaleza de São José de Macapá. Aliás, isso se tornou marca registrada

em função dessa “passagem” da linha imaginária, pois transcende a mera

vinculação de um simples monumento, este que cada vez mais se faz presente no imaginário coletivo dos amapaenses.

O amapaense não perdeu totalmente sua herança cultural, como os costumes e crenças. Apesar das influências e intempéries da globalização devastadora que apresenta na contemporaneidade um farfalhar de opções e de novos valores, as relações sociais novas foram incorporadas em parte ao seu novo estilo de vida sociocultural. A inserção de novos empreendimentos urbanos, como shopping centers, condomínios fechados e o crescimento imobiliário, bem como o desenvolvimento populacional e novos aparatos urbanos que mudaram a paisagem da cidade, fizeram Macapá se igualar às cidades brasileiras de porte médio. Em Macapá hoje, os consumidores das

“benesses” são os altos funcionários públicos, tipo de casta que se formou com a chamada economia do contracheque, que caracteriza a economia amapaense e o movimento financeiro após os pagamentos salariais dos servidores públicos nos três níveis de governo (CHELALA: 2013). O comércio local vive às expensas do montante financeiro despejado nesses períodos, além das despesas governamentais na indústria da construção civil, nos serviços e no comércio propriamente dito. Mas a novidade também exacerbou a violência urbana. Esta, por sua vez, aumentou consideravelmente nos últimos anos, acompanhando o crescimento econômico e populacional do Estado.

Ainda que permaneça passivo diante de certas provocações ou humilhações, o amapaense sempre deu trabalho por envolver-se em brigas de bares, mortes e violências diversas, em que pese a truculência policial desde os

tempos do Território Federal. Diziam os de fora: “Deus nos livre da polícia de Macapá, das mulheres de Amapá e da fome de Mazagão “, enfatizando essa

recrutavam para a Guarda Territorial arruaceiros contumazes, que os policiais nem sempre podiam conter, oferecendo-lhes empregos na própria Instituição Militar que mais tarde foi substituída pela Polícia Militar do Amapá. Passou ao

“folclore da cidade” o fato de famosos marginais como o Gato, o Santino e o

Ibrahim se tornarem policiais. Em Macapá existia um conhecido delegado que também era famoso por sua arrogância e violência. Ele disputava com seus colegas para ver quem prendia mais pessoas. Certa vez, em um de seus plantões, foi fazer uma ronda em um dancing popular conhecido por

“Merengue”14, onde tudo estava em ordem. Não havia ninguém para prender. Decepcionado, ainda olhou um homem que dançava animado fazendo “breque”.

Ele disse a um dos seus comandados: - Prende o “brequista”. Essa história até hoje é contada. Entretanto, dizem os mais antigos moradores da cidade que no dia do seu enterro, pessoas por ele prejudicadas injustamente soltaram foguetes festivos para comemorar sua morte.

Ninguém se espanta com a “normalidade” do alto grau de suicídio

entre os jovens amapaenses. Essa estatística faz parte de um fenômeno social já estudado por Durkheim no século XIX e sempre teve a atenção dos sociólogos em muitos países. O suicídio é uma “epidemia silenciosa e devastadora” (BRITO: 2016) e configura caso de saúde pública mundial, pois “a cada quarenta

segundos uma pessoa morre no mundo” (Idem). O Brasil ocupa o 8º lugar no ranking mundial com 11,8 mil suicídios em 2012, com uma morte a cada 40 minutos. As principais causas são os transtornos mentais como a depressão, o transtorno bipolar, abuso de substâncias químicas, esquizofrenia e transtorno de personalidade Borderline (Idem). No Amapá o número de suicídios entre jovens chega a aproximadamente 50 por ano. Em 2015, 46 se suicidaram, a maioria por enforcamento15.