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Enquanto as relações diplomáticas entre o Brasil e os países nazi-fascistas não foram rompidas, a censura cinematográfica era obrigada a verdadeiros malabarismos para demonstrar a nossa “neutralidade. O primeiro alvo desta política foram os filmes norte- americanos antinazistas”.

José Inácio de Melo Sousa207

Como já estudada ao longo desta dissertação, a cinematografia produzida por Hollywood dominava os cinemas brasileiros com filmes propagando os ideais norte- americanos a respeito do estilo de vida e da estrutura política democrática. No decorrer da Segunda Guerra a indústria cinematográfica norte-americana logo identificou seus inimigos nazistas e se posicionou através da produção de várias películas contra os regimes totalitários.

Porém, antes do rompimento das relações diplomáticas e a declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, os filmes antinazistas foram proibidos pela censura do DIP, pois feria a política de “neutralidade” desenvolvida pelo governo brasileiro. Somente os cinejornais de atualidades sobre a guerra e os filmes de cunho patriótico e militar foram liberados para exibição nos anos iniciais do conflito.

Nos cinemas da capital paraense o rompimento das relações diplomáticas com os países nazi-fascistas, em 1942, foi refletida com a liberação das películas antinazistas pelo governo do Estado Novo.208 Filmes de comédia, ação, guerra,

drama, desenhos e outros gêneros serviram para a propaganda dos Estados Unidos contra o inimigo nazista.

Na luta realizada no campo das imagens, a nação norte-americana levava vantagens por predominar na distribuição e exibição de filmes para as duas empresas proprietárias das salas de projeção da cidade, Cinematographica

Paraense e Cardoso & Lopes. Os anos de 1943 a 1945 foram marcados pela

207 Souza, José Inácio de Melo. O estado contra os meios de comunicação (1889-1945). São Paulo:

ANNABLUME: FAPESP, 2003, p. 131-2.

208 Na dissertação a referência ao termo antinazista é em decorrência dos anúncios dos cinemas veiculado nos

periódicos locais que se reportavam aos filmes que tratavam sobre o tema do nazismo dessa forma e da quantidade de películas exibidas nas salas de projeção que falavam sobre o terror empreendido pela Alemanha nazista.

intensa propaganda através das imagens, com a exibição de películas contrárias aos ideais nazistas, quase todas as semanas nos cinemas, e pela participação efetiva dos poderes estatais e do Comitê de Coordenação dos Negócios Inter-Americanos no Estado do Pará.

No final de 1941 um evento da Segunda Guerra Mundial mudaria definitivamente a política de “neutralidade” brasileira. Com o ataque a Pearl Harbor, às 6 horas da manhã do dia 07 de dezembro, os Estados Unidos declararam guerra aos países do Eixo, acabando com sua política externa de “neutralidade” e lutando ao lado dos Aliados. Conseqüentemente, a pressão norte-americana para que o Brasil se posicionasse a favor do seu “irmão maior” do continente aumentou, influenciando a tomada de posição do governo de Getúlio Vargas.209

A notícia do ataque à base norte-americana no arquipélago do Havaí foi transmitida pelos cinejornais nos cinemas locais com o título “As fortificações do

Havaii”, sendo que, além das notícias sobre o ataque a Pearl Harbor, outras

informações foram exibidas:

Primeiras vistas de Pearl Harbour, a famosa base americana do Pacífico, onde se verificou a agressão japonesa aos Estados Unidos. No mesmo jornal: A viagem de Saburo Kurusu, emissário especial do Japão, às conferencias de Washington sobre a questão do Oriente.210

As repercussões desse evento logo se fizeram visíveis na política externa brasileira. No final de janeiro de 1942, o Brasil rompia relações diplomáticas com os alemães e começava a se preparar para o confronto. O perigo da guerra “européia” chegava ao Brasil e a mobilização cívica contra o perigo nazista tomou conta das ruas com passeatas a favor da democracia.

Nos cinemas, os meses seguintes, até final de junho, continuaram exibindo filmes referentes ao conflito, destacando a guerra e a propaganda implícita dos valores da democracia e liberdade difundidos pelos filmes hollywoodianos. Películas como: Correspondente estrangeiro, Levanta-te meu amor, Capitão Torson, entre outras, ressaltavam vários aspectos do conflito, porém suas mensagens anti-

209 O ataque a Pearl Harbor conjuntamente com os afundamentos dos navios brasileiros pelos nazistas foram os

motivos oficias que levaram a nação brasileira a declarar guerra aos regimes totalitários. Contudo a política de boa vizinhança desenvolvida pelo governo norte-americano nos anos iniciais do conflito já demonstrava a importância do Brasil para a proteção do continente americano.

totalitárias apareciam de forma velada e, geralmente, abafadas pelas cenas românticas ocorridas nos filmes.

Retomando as idéias discutidas por Furhammar e Isaksson, ao trabalhar os filmes com propósitos políticos e como arma de propaganda, os autores ressaltam a importância de elementos como surpresa, ameaça, aventura, amor, morte para tornar os filmes de propagandas mais eficazes na transmissão de mensagens políticas. Sendo assim a propaganda tem a intenção de forçar as pessoas a aderirem a um ideal específico, devido a manipulação da imagem cinematográfica transformar a realidade de acordo com os interesses de quem produziu as películas. Os autores alertam que mesmo os documentários ou reportagens de guerra tendem a atuar como filmes de propaganda por apresentarem apenas um lado da verdade.211

Em Belém, apesar do fim da “neutralidade” brasileira, poder-se-ia dizer que a propaganda explicita antinazista através dos filmes iniciou a partir do dia 28 de junho de 1942, quando foi publicado um artigo sobre o primeiro filme de propaganda contra o regime totalitário do Reich que seria exibido nas salas de projeção da cidade, sendo que o artigo tem grande importância para demonstrar a mudança ocorrida na política do DIP, e do DEIP do Pará, quanto à liberação das películas. Com o título “A PROPAGANDA ANTI-NAZISTA PELO CINEMA” o artigo enfatizava

“’Tempestade D’Alma’, Um Filme Estupendo que Mostra as Misérias Incríveis do Regimen de Hitler – Os Sucessos, No Brasil, Da Grande Celulóide – O Que Nos Disse K. Maschke, Da ‘Metro Goldwyn Mayer’”212.

O artigo ilustrava bem a “nova” política brasileira em relação à guerra mostrando “o momento atual, em que as fauces do hitlerismo, sanguinário e

inclemente, escancaram-se no intuito abominável de absorver os sãos princípios da democracia”, direcionado para a luta contra o nazismo a favor das democracias. A

política de “neutralidade” brasileira se rendeu diante das “atrocidades” dos alemães e “uma propaganda intensiva contra o regimen da escravidão total” viria através das imagens, começando com o filme Tempestade D’Alma.

A cinematografia não poderia deixar de concorrer para tão humano “desideratum”, descobrindo, na maravilha do “écran”, cenas reais que

211 FURHAMMAR, e ISAKSSON, op. cit., p. 145-159.

repugnam e assombram, e que são, na dura realidade, os moldes em que são fundadas as bases do nazismo.213

O reconhecimento da importância do cinema na luta contra o inimigo, transmitindo imagens aos países Aliados do “regimen de escravidão total” imposto a Europa pelos estados totalitários da Alemanha e Itália (na Ásia esse papel foi desempenhado pelo Japão), favoreceu a absorção dos ideais democráticos propagados pelos Estados Unidos, estimulando os brasileiros a assistirem as películas contra as nações do Eixo.

Nessas condições, alcançando esses princípios, filmes colossais são lançados à sociedade. Presentemente, “Tempestade d’Alma”, ocupa o cartaz cinta de valor, decalcada de cenas verídicas que se desenrolam no inferno germânico, ela deve ser vista por todos os brasileiros.214

Segundo o artigo, o filme Tempestade d’Alma foi o primeiro filme antinazista liberado pela censura do DIP. Seu lançamento no Brasil viria estimulado pela declaração de guerra à Alemanha e à Itália, sendo exibido nos cinemas das principais capitais do país e “em todos tem alcançado sucesso extraordinário, não só

pelo aprimorado da confecção, como, também, pelo sentido do seu enredo”.215

Nesse caso, foram enfatizados a qualidade técnica e o enredo do filme como pontos a serem apreciados na película, mas para o momento o enredo seria relevante pelo conteúdo referente ao contexto da Segunda Guerra, despertando interesse pelos poderes públicos dos Estados.

A participação da imprensa local fortaleceu a importância da película incitando a população belenense a assistir o filme, quando esse já estivesse em exibição nas salas de projeção da cidade “a imprensa conclama o seu valor, aconselhando o

público a ir vê-la, a-fim-de se inteirar do que é, em pequena síntese, o abominável regimen de Adolf Hitler e seus seguidores querem implantar no mundo”.216

A entrevista concedida pelo gerente da Metro Goldwyn Mayer de Pernambuco, Sr. Kurt Maschke, que se encontrava em Belém há vários dias, ressaltava a importância da película para a atualidade do conflito e sua função para

213 Ibid. p. 01 do 2º Caderno.

214 Folha do Norte – Belém, 28 de junho de 1942, p. 01 do 2º Caderno. 215 Ibid. p. 01 do 2º Caderno.

desmoralizar os ideais políticos alemães. Para finalizar o artigo foram discutidos os dois momentos da política brasileira em relação aos filmes contra o Reich “depois de

‘Tempestade d’Alma’, outrora proibida pela censura, outro filme de não menos valor será exibido nas telas paraenses: ‘A Fuga’, extraído do famoso romance que imortalizou Ethel Vance, sob o título ‘Escape’”.217

A mudança implementada pela entrada dos norte-americanos na guerra e pelo rompimento do governo brasileiro das relações diplomáticas com os países do Eixo, repercutiu posteriormente na política desenvolvida pelo DIP. Retomando as idéias de Souza (2003) sobre os filmes com conteúdos antinazistas, como O Grande Ditador de Charles Chaplin, pode-se observar uma polêmica entre a imprensa de São Paulo e o Departamento de Imprensa e Propaganda, tendo sua exibição proibida na cidade. Contudo, após janeiro de 1942, a política do DEIP paulista mudou completamente sua postura, pois “o fim da ‘neutralidade’ trouxe para

o Brasil todos os filmes anti-nazistas que estavam barrados”.218

Em Belém poder-se-ia dizer que essa política de proibição de filmes que denegriam o regime nazista não gerou polêmica na imprensa, porém estava refletida na programação elaborada pelas empresas donas das salas de projeção e fiscalizadas pelo DEIP paraense. Para o segundo semestre de 1942 e os anos restantes da Segunda Guerra, a investida na campanha pelo cinema de propaganda foi intensa, tendo como participantes ativos a população, o poder público paraense e o Comitê de Coordenação dos Negócios Inter-Americanos no Estado do Pará.

A partir desse momento o Brasil entrava de fato na guerra das imagens, fato esse que já vinha sendo adiado há muito tempo por conta da política desenvolvida nos anos iniciais do conflito. Nessa nova fase de exibições de películas contra a política nazista, as empresas proprietárias dos cinemas começaram a fazer parte da luta através das imagens cumprindo o circuito brasileiro de exibição do filme

Tempestade d’Alma. Assim, no dia primeiro de julho de 1942, foi anunciado no jornal Folha do Norte a exibição da película no cinema Olímpia.

A Empresa Cinematográfica Paraense acaba de firmar um contrato especial com o sr. Kurt Maschke, representante da “Metro Godwyn Mayer”,

217 Ibid. p. 01 do 2º Caderno. 218 SOUZA, op. cit., p. 135.

atualmente nesta cidade, para apresentação do momentoso filme anti- nazista “Tempestade d’alma”.219

Na corrida pela programação do momento a Empresa Cinematográfica

Paraense saiu na frente, firmando contrato com o representante da Metro Goldwyn Mayer para a exibição do filme. O cinema Olímpia continuava como principal sala de

projeção para lançamento das películas que faziam sucesso.

(...) “Tempestade d’alma”, um filme para o momento, uma vibrante advertência dos povos livres, um grito de alarme contra os nojentos “quinta colunistas”, que trama contra a segurança das nações que se resguardam, felizes, à sombra da liberdade (...) essa nova iniciativa dos esforçados empresários do Olímpia, trazendo para as nossas telas “Tempestade d’alma”, que é a narração de um capítulo chocante do drama nazista, na efusão plena e odiosa dos seus métodos.220

O primeiro passo havia sido dado para um empreendimento poderoso na luta contra os países totalitários. Os filmes de propaganda antinazistas ganharam espaço no circuito de exibição dos cinemas belenenses. As películas que tiveram grande repercussão na imprensa brasileira ganhavam destaque ao serem exibidos nos cinemas locais.221

Nas fontes pesquisadas constatou-se que vários filmes antinazistas, com grande repercussão, duraram até três semanas em exibição nas salas de projeção. No entanto, outros filmes de menor prestígio também fizeram seu papel divulgando os ideais das nações democráticas, que lutavam pela liberdade contra os inimigos nazi-fascistas, tendo essas películas em seu conteúdo uma propaganda tão intensa quanto às de destaque.

O filme Tempestade d’Alma teve sua estréia no dia 24 de julho de 1942 e no anúncio do cinema Olímpia, veiculado no jornal Folha do Norte, o destaque era a foto dos artistas principais, James Stewart e Margaret Sullavan, posicionados para um beijo e, de forma reduzida, um símbolo da suástica nazista levando um tiro e se despedaçando. No anúncio dizia: “O filme que 6 países proibiram, inclusive o Brasil!

219 Folha do Norte – Belém, 01 de julho de 1942, p. 02. “Foi contratado para o Olímpia o filme anti-nazista

‘Tempestade d’alma’ – Louvável iniciativa da Empresa Cinematográfica Paraense S. A.”

220 Folha do Norte – Belém, 01 de julho de 1942, p. 02. “Foi contratado para o Olímpia o filme anti-nazista

‘Tempestade d’alma’ – Louvável iniciativa da Empresa Cinematográfica Paraense S. A.”.

221 Como já foi descrito anteriormente o circuito de exibição de filmes seguia uma rota sul/suldeste em direção

ao nordeste e norte, sendo assim essas películas ao chegarem na capital paraense já tinham se tornada referência nos principais cinemas brasileiros.

TEPESTADES d’ALMA – Um empolgante romance de Amor nas sombras do regime do III Reich – A 1ª. PELICULA ANTI-NAZISTA liberada pela Censura”.222

Outros comentários como maior sucesso artístico e de bilheteria no Rio de Janeiro, “cinco semanas de consagração por multidões entusiásticas!”, acompanharam com destaque o anúncio de estréia do filme.

O filme possuía os elementos necessários para que atraísse a atenção do público: um enredo propício para a situação em que a guerra se encontrava (contando a participação do Brasil no conflito) e um belo romance para agradar a maioria do público que gostava do gênero. O sucesso no Rio de Janeiro parecia acompanhar o filme em sua estréia em Belém, pois no dia 26 de julho de 1942 um artigo comentava a exibição do filme na cidade.

A curiosidade criada em torno de “Tempestade d’Alma” levou sexta-feira ao Olímpia um público numerosissimo e ávido de ver alguma coisa que outros filmes não apresentam. E cremos que quantos lá foram, saíram satisfeitos do cinema.

“Tempestade d’Alma”, encerra uma história nova e atualíssima, onde as conseqüências do regimen criado pelo III Reich, são focalizadas com fidelidade absoluta, mostrando o horror que o nazismo espalhou por toda Alemanha e a atroz perseguição ao povo judeu.223

A participação da população comparecendo ao cinema para assistir ao filme parecia demonstrar a importância da indústria cinematográfica para a atualidade da guerra, bem como a aceitação e reconhecimento da película para o maior entendimento do regime nazista. Porém, esse entendimento se caracterizava pela visão dos Aliados em relação ao conflito, procurando demonstrar os horrores proporcionados pelo regime totalitário alemão.

Outro fato realçado no artigo dizia respeito à história do filme e sua veracidade. Nesse caso, as imagens tomam forma do real ao mostrar a encenação da Alemanha governada por Hitler, evidenciando as imagens cinematográficas da atualidade como “focalizadas com fidelidade absoluta”.

Tudo é contado com muita inteligência e acerto, numa propaganda sadia por uma causa que é quase de todo mundo.

222 Folha do Norte – Belém, 24 de julho de 1942, p. 02.

223 Folha do Norte – Belém, 26 de julho de 1942, p. 01 do Segundo Caderno. A reportagem tinha como título

Os produtores tiveram um cuidado todo especial com a atmosfera deste filme. A impressão dos ambientes é perfeita. Tem-se, às vezes, a convicção de ser um filme alemão, tal a autenticidade da atmosfera que o cerca.224 Leite (2003) em seus estudos sobre o cinema questiona se essa arte manipula a realidade. Para ele, os filmes, ao fazerem uma representação da realidade, iludem o público com a falsa aparência de estar diante daquilo que existe efetivamente, ou seja, reproduzindo com fidelidade o que aconteceu. Contudo, a arte objetiva e neutra reproduzida pelas câmeras cinematográficas foi questionada, pois:

Não proporcionavam o registro objetivo da realidade, uma vez que as imagens produzidas eram o resultado de escolhas feitas pelos fotógrafos e cineastas e que tais escolhas eram condicionadas por seus interesses, suas crenças, seus valores....225

A causa propagada pela película tinha como principal articulador o governo dos Estados Unidos e seu principal representante no mundo do cinema: Hollywood. A causa da democracia em luta contra os estados totalitários viabilizava diversos utensílios para a construção dos enredos cinematográficos, que tinha em vista retratar de forma mais autêntica possível a postura do inimigo para estimular o público em geral a absorver esses ideais em proveito da campanha Aliada na guerra: “terminando, queremos insistir na necessidade que há da maior divulgação

possível de ‘Tempestade d’Alma’. Achamos mesmo que todos, sem distinção, estão na obrigação de ver esse filme”.226

No decorrer do conflito a necessidade de tornar o cinema uma obrigação para a população belenense e também de reconhecer as temáticas da Segunda Guerra Mundial, pertinentes aos sentimentos nacionalistas e patrióticos que envolviam os ideais de liberdade democrática apresentados pelos filmes hollywoodianos, foi bastante explorado pelas empresas proprietárias das salas de cinema e outros órgãos estatais.

Os anúncios referentes aos cinejornais também mudaram sua postura quanto à forma de descrevê-los. Até o fim da “neutralidade” brasileira, em 1942, os textos se referiam às atualidades cinematográficas sem definir explicitamente para qual tendência política se direcionavam na guerra. No entanto, essa política foi

224 Ibid. p. 01 do 2º Caderno.

225 LEITE, Sidney Ferreira. O cinema manipula a realidade? São Paulo: Paulus, 2003, p. 16. 226 Folha do Norte – Belém, 26 de julho de 1942, p. 01 do Segundo Caderno.

reformulada com a entrada do Brasil na guerra e assim deixando definido quem eram os inimigos e os Aliados.

Num novo número do Jornal Rápido, que é, inegavelmente, a melhor reportagem da tela, o Olímpia apresentará, domingo próximo, as primeiras vistas da batalha e ocupação da colônia francesa de Madagascar e também da batalha de Midway, onde as fôrças navais americanas tiveram um grande triunfo.227

Nessa nova fase da guerra os Aliados passaram a vigorar triunfantes nas batalhas. As vitórias contra a Alemanha, Itália e Japão foram exaltadas pelos anúncios dos cinemas, fossem transmitidas através dos cinejornais ou dos filmes, caracterizando a luta patriótica pela liberdade, as triunfantes vitórias e a coragem dos combatentes entre outras qualidades atribuídas aos países aliados do Brasil no conflito.

No lado oposto, os inimigos da democracia foram assinalados como causadores da penúria, como explicava: “a outra reportagem do aludido Jornal focaliza as conquistas japonesas na Ásia, dando-nos cênas autenticas dos bombardeios da Birmânia, onde os nipões espalharam a miséria e a destruição por toda parte”.228

Na luta contra os regimes totalitários não era apenas o filme ou a reportagem cinematográfica que tinha importância, os anúncios transmitiram com intensidade ao público a propaganda retratada nas telas dos cinemas. Procuraram chamar a atenção para os horrores e as misérias ocasionadas pelo nazismo, enfatizando nos anúncios palavras que desqualificavam o inimigo, fossem eles alemães, italianos ou japoneses.

Com o lado definido no conflito houve benefício mútuo (entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil) com a utilização do cinema na propagação dos ideais políticos condizentes com a democracia, embora o Brasil vivesse sob a ditadura do Estado Novo. Para eles a figura do oponente estava bem retratada pelos Estados

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