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que está dada em sua condição e diante da qual “(...) a escolha é pos- sível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”. (SARTRE, 1987, p. 17)
É interessante que as escolhas são ativas ou passivas e a responsa- bilidade pesa sobre elas, seja qual delas for.
É verdade no sentido em que, cada vez que o homem escolhe o seu en- gajamento e o projeto com toda a sinceridade e toda a lucidez, qualquer que seja, aliás, esse projeto, não é possível preferir-lhe um outro; é ainda verda- de na medida em que nós não acreditamos no progresso; o progresso é uma melhoria; o homem permanece o mesmo perante situações diversas, e a es- colha é sempre uma escolha numa situação determinada. (SARTRE, 1987, p. 18)
É o homem quem escolhe seu engajamento e isto, segundo Sar- tre, jamais mudará. É por isso que, preocupa-se em dizer que não há a idéia de progresso em relação ao homem, já que o mesmo sempre es- tará diante da escolha de seu engajamento. Talvez fique mais eviden- ciada a idéia de que o homem não é uma essência, pois não se trata de chegar a um ponto ou lugar determinado, antes o que resta a cada um é fazer sua escolha, a escolha que lhe for possível.
Quando declaro que a liberdade, através de cada circunstância concre- ta, não pode ter outro objetivo senão o de querer-se a si própria, quero dizer que, se alguma vez o homem reconhecer que está estabelecendo valores, em seu desamparo, ele não poderá mais desejar outra coisa a não ser a li- berdade como fundamento de todos os valores. Isso não significa que ele a deseja abstratamente. Mas simplesmente, que os atos dos homens de boa fé possuem como derradeiro significado a procura da liberdade enquanto tal.
(SARTRE, 1987, p. 19)
Portanto, o valor máximo da existência humana é a liberdade. Mas a liberdade não é algo individual, ou seja, a sua liberdade implica na dos outros. Apesar das circunstâncias é a liberdade o valor imprescin- dível da vida humana. O alerta que faz Sartre em relação à liberdade como fundamento de todos os valores é o de que:
Temos que encarar as coisas como elas são. E, aliás, dizer que nós in- ventamos os valores não significa outra coisa senão que a vida não tem sen- tido a priori. Antes de alguém viver, a vida, em si mesma, não é nada; é quem a vive que deve dar-lhe um sentido; e o valor nada mais é o que esse senti- do escolhido. (SARTRE, 1987, p. 21)
O homem, pelo fato de ser livre e tornar-se homem, já que a exis- tência precede a essência, depara-se com a situação de que a vida não
Sartre (1905-1980). < www .infoamerica.org . <
possui sentido anteriormente dado. O sentido da vida é traçado a par- tir das escolhas que faz e através dos atos que realiza. Sendo assim, Sartre não aceita os demais humanismos, pois apresentam um sentido a vida humana como sendo uma meta, algo pronto e acabado ao qual cada indivíduo deva alcançar.
Existe uma universalidade em todo projeto no sentido em que qualquer projeto é inteligível para qual- quer homem. Isso não significa de modo algum que esse projeto defina o homem para sempre, mas que ele pode ser reencontrado. Temos sempre a possibilidade de entender o idiota, a criança, o primi- tivo ou o estrangeiro, desde que tenhamos informações suficientes. Nesse sentido, podemos dizer que há uma universalidade do homem; porém, ela não é dada, ela é permanentemente construída. (SARTRE, 1987, p. 16).
Uma das diferenças entre o humanismo apregoado pelo existencia- lismo está no fato de que há uma universalidade humana que é uma construção do próprio homem, contrária a afirmação de uma essência humana já que a mesma entende-se como algo dado, pronto e sem- pre o mesmo.
(...) não podemos admitir que um homem possa julgar o homem. O existencialismo dispensa-o de todo e qualquer juízo desse tipo: o existencialismo não colocará nunca o homem como meta, pois ele está sempre por fazer. E não devemos acreditar que existe uma humanidade à qual possamos nos de- votar, tal como fez Auguste Comte. O culto da humanidade conduz a um humanismo fechado sobre si mesmo, como o de Comte, e, temos de admití-lo, ao fascismo. Este é um humanismo que recusamos.
(SARTRE, 1987, p. 21)
A afirmação sartreana: “(...) o homem é liberdade”, depara-se com o humanismo proposto pelo existencialismo que entende que o ho- mem não pode ser colocado como meta. É por isso, que mesmo ha- vendo a meta, para os demais humanismos, Sartre a rejeita pelo fato de entender que é por meio de sua ação – engajamento, o homem tor- na-se homem. Ruínas de Lazareto. < www .ilhagrande .gov .br <
Por não haver valores estabelecidos, o homem pode inventá-los, e, ao fazê-lo, atribui sentido à própria vida. O humanismo do qual fala o existencialismo é o que permite que os homens por meio da inven- ção de valores criem a comunidade humana. Deve-se destacar o fato de que não há um modelo ou meta pré-determinada, mas se dá por meio da própria ação dos homens. É com essa preocupação que Sar- tre afirma que:
Segundo Sartre, “(...) dizer que nós inventamos os valores não significa outra coisa se- não que a vida não tem sentido a priori. Antes de alguém viver, a vida, em si mesma, não é nada; é quem a vive que deve dar-lhe um sentido; e o valor nada mais é do que esse sen- tido escolhido. Por constatar-se, assim, que é possível criar uma comunidade humana. (Sar- tre, 1987, p. 21)
1. Leia e discuta em grupos o fragmento do poema de Fernando Pessoa, Adiamento. 2. Com base no poema, responda as questões:
a) A afirmação “a existência precede a essência” pode ser aceita como verdadeira? Justifique. b) Como ocorre isso no seu dia-a-dia? Exemplifique.
3. Apresente os resultados da discussão para debate.
As regras para o debate encontram-se na introdução deste livro.
Nesse sentido, o existencialismo aponta para um novo humanis- mo.
Também por entender que o homem não é uma meta, é impossí- vel, para Sartre, admitir que o homem possa julgar o homem. Quan- do recusou o Prêmio Nobel de Literatura, o fez por entender que nin- guém poderia valorar, ou seja, julgar a sua obra. Para o existencialismo o humanismo está dado na realização da própria vida, onde por meio das escolhas e diante das circunstâncias e condições o homem realiza sua existência através da liberdade.
Fernando Pessoa (1888 – 1935).
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Adiamento
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; Se em certa conversa
Tivesse dito frases que só agora, no meio-sono, elaboro – Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria indiscutivelmente levado a ser outro também.
(PESSOA, 1994, p. 371)