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Num trabalho que pretende conhecer as representações sociais das ajudantes de lar, afigura-se imprescindível investigar as respetivas representações da velhice.

Perguntou-se-lhes o que a palavra «velho» lhes fazia pensar. A grande maioria das entrevistas não se sente à vontade com esta palavra, devido à conotação negativa que lhe está associada atualmente. Os comentários seguintes demonstram-no: «É uma palavra mal dita. Velho é os trapos» (Justina, ent.3), «Idoso. Porque velho a mim assenta-me mal. Fico a pensar: um dia estou aqui, eu não gostaria que me chamassem «velho» (Íris, ent.13), «Eu acho que idoso. Velho é uma palavra feia» (Idalina, ent.14). No entanto, encontrou-se uma apologista da palavra, a ajudante Sofia: «Gosto, adoro. Porque eu digo sempre “os meus velhos” (…) acho que velho é o termo correto. Eles

são velhos (…) É bonito. Eu gosto tanto. Eu não estou a diminuir a pessoa por ser

velha» (Sofia, ent.10).

Algumas colaboradoras enunciaram que chegar à velhice significa ter uma vida longa, o que é um traço positivo, como expressa a ajudante Elisabete: «Faz-me pensar uma coisa muito boa. É que chegamos lá, é bom sinal» (Elisabete, ent.1).

Várias entrevistadas realçam que a velhice lhes faz pensar no seu próprio futuro. As palavras da ajudante Carmo são elucidativas: «Eu amanhã. Porque é os nossos espelhos. Eu estou sempre a dizer: eles são a nossa fotografia amanhã» (Carmo, ent.7). Neste contexto, o facto de conhecerem profundamente a velhice no seu dia-a-dia leva a que formulem medos, sobretudo o medo de sofrer. Este pensamento está bem patente nas respostas, a da ajudante Célia é um exemplo: «Dantes não me metia medo a velhice. Mas agora confesso que mete-me medo (…) há aqueles velhinhos, aqueles idosos, pronto, que é um sofrimento… Numa cadeirinha de rodas, que dependem (…) tenho

muito medo do sofrimento (…) Tenho muito medo da velhice» (Célia, ent.9).

Várias ajudantes mencionam a situação de carência e incapacidade na fase final da vida, quando questionadas sobre a velhice.

Curiosamente, algumas ajudantes declaram que a palavra «velho» lhes faz pensar nas crianças. Estabelecem um paralelismo entre a fase da infância e da velhice: «Não sei explicar muito bem, mas é assim: o idoso torna a ser criança. Para mim, é o que eu percebo. Só que o idoso é mais complicado de se aturar do que uma criança» (Justina, ent.3), «A gente tem que ter sempre umas palavras amigas, que eles são pior que as crianças. Eles tornam-se crianças. Os idosos tornam-se crianças (…) porque se lhe muda a fralda» (Eva, ent.8). É a situação de dependência dos idosos que está na origem desta associação. Contudo, afirmar que o idoso torna a ser criança representa um processo de infantilização que não respeita a condição adulta do ser mais velho. Um idoso não deixa de ser adulto, na realidade.

Ainda com o intuito de compreender o modo como as ajudantes consideram o que representa ser idoso, a entrevistadora começou a frase «Ser velho é…» e pediu a cada entrevistada que a continuasse. Os resultados mostram que na perspetiva das profissionais ser velho significa ser sábio, ser dependente, ser triste e sofredor e também ser criança. Algumas ajudantes respondem, contudo, que ser velho significa viver uma etapa da vida como os mais novos vivem e que a pessoa nunca é velha, o que nos remete indiretamente para a importância do espírito humano: «É a fase da vida. Que se adquiriu. Não é ser velho, não é ser velho, a pessoa nunca é velha. É uma idade

talvez… há a idade da juventude, de criança, de jovem, adulto, é a terceira idade (…)

Porque não há pessoas velhas. Não há» (Natália, ent.4), «Acho que as pessoas nunca são velhas» (Raquel, ent.12).

Muitas ajudantes declaram que os mais velhos são pessoas sábias. No decorrer da sua atividade profissional, escutam os residentes e vão percebendo que estes possuem um conhecimento profundo acerca da vida. As palavras da auxiliar Marina revelam o reconhecimento da sabedoria dos mais velhos, bem como um sentimento de admiração pelos mesmos: «Sabedoria. Para eles estarem na idade em que estã o, eles já

sabem muito e acabam por saber muito mais do que nós (…) É gratificante chegar-se a

esta idade e eles já têm muita sabedoria. É sinal de sabedoria. E muitas vezes é… um

passado muito difícil. E acabam se calhar por estar um pouquinho em paz, nos últimos dias da vida deles» (Marina, ent.17).

A prestação de cuidados aos mais velhos faz as ajudantes sentirem-se orgulhosas de si próprias, pelo bem-estar que proporcionam a quem precisa. Descobrem que são capazes de lidar com situações humanas difíceis e adquirem conhecimentos sobre a vida humana, o que representa um motivo de satisfação pessoal. A resposta da auxiliar Clara expõe esta asserção: «Sinal de sabedoria (…) Porque têm experiência de vida. E que, para nós, eu, que tenho 22 anos, lidar com eles tem-me ensinado muitas coisas que eu

nem fazia ideia… E têm-me ensinado muitas coisas que eu nem sabia que era capaz de fazer» (Clara, ent.15).

Por outro lado, como seria já de esperar, as entrevistadas respondem que os mais velhos são seres sofridos, carentes e tristes. Efetivamente, os mais velhos são institucionalizados precisamente porque estão doentes e a doença acarreta sofrimento, carências e tristeza, visíveis no seu rosto e na sua voz. É esta dimensão da velhice que as ajudantes de lar conhecem em profundidade e que as faz declarar:

«É ser sofrido. Que eles estão aqui, muitos deles nem sequer vem cá ninguém. É sofrer num sentido, mas noutro não. Sofrem porque os filhos não vêm. É ser tr iste, talvez» (Raquel, ent.12).

«Olhe é uma vida… praticamente, parte deles, chegou ao fim… Eles estão numa cadeira de rodas, dependentes de tudo e de todos, à espera que alguém chegue, “tem sede”, “tem fome”, está dependente de tudo e de todos (Íris, ent.13).

«Eu acho que é triste ser velhinho. Eu nem queria lá chegar» (Idalina, ent.14). Algumas ajudantes estabelecem um paralelismo entre a velhice e a infância, como acontecera na questão anterior. A resposta da ajudante Justina é esclarecedora:

«Ser idoso é uma criança (…) Acho que é uma criança autêntica, só que com mais,… mais custoso de a gente tratar dele (…) Nós temos que fazer a higiene total. Limpá-los, dar-lhe o comer à boca, o cuspirmos, fazer-nos mal, como eu digo, uma criança às vezes estamos a dar-lhe o comer à boca e elas também vão com a mão à boca e tiram- no, não é? O idoso é a mesma coisa. Eu acho o idoso muito igual a uma criança. Só no sentido como eu já disse. Idoso é idoso, mais pesado, mas torna a ser cria nça para mim» (Justina, ent.3). Estas palavras denunciam o processo de infantilização pelo qual os mais velhos passam. É difícil para as ajudantes verem no idoso uma pessoa adulta, devido à sua dependência de cuidados.

Foi solicitado às ajudantes que associassem termos à palavra «velho». Nas associações concretizadas, podem identificar-se dois polos: um polo negativo, que engloba uma semântica de dependência, doença, sofrimento, cansaço, solidão, revolta, abandono e morte; um polo positivo que reúne os conceitos de mimo, afeto, histórias, boa-disposição, vida, amor, espírito, sabedoria, inteligência e experiência.

Esta disposição de ideias é demonstrativa da composição de emoções vivida pelas ajudantes durante a prestação de cuidados, assim como do conhecimento que adquirem sobre a velhice.

Seguidamente, perguntou-se às colaboradoras se já tinham ouvido falar de Envelhecimento Ativo e no seu significado. Para algumas, significa participar em atividades durante a velhice, como exprimem as respostas seguintes: «É o idoso ir envelhecendo e ir fazendo atividades. Por isso temos aí um animador, não é, e sair, … é mexer. Não estar ali assim à espera do que nós todos esperamos» (Elisabete, ent.1),

«Pronto, isso é um idoso que… é idoso mas ainda trabalha. Nós temos aí senhoras que

vão dobrar guardanapos, descascar batatas, cebolas. E senhores também» (Célia, ent.9), «Para mim o envelhecimento ativo acho que é uma pessoa que já tem uma certa

idade mas não pára. Continua… Há pessoas que andam na universidade sénior… essas coisas… Para mim, ser ativo é isso» (Marina, ent.17).

As ajudantes associam o envelhecimento ativo a uma vida levada com satisfação e vivida na felicidade, como demonstram as palavras: «Eles estão ativos, é bom para eles porque fazem a vidinha deles, fazem tudo à maneira deles, como eles gostam» (Solange, ent.7), «São felizes» (Justina, ent.3).

A auxiliar Clara refere sabiamente que realizar as AVD durante a velhice é uma forma de envelhecimento ativo: «Eu entendo como, envelhecer mas continuar a fazer

atividades do dia-a-dia, pronto, quanto mais não seja, porque muitos deles não são capazes de fazer mais» (Clara, ent.15).

Algumas respostas expõem representações interessantes sobre o Envelhecimento Ativo: «É uma incapacidade que qualquer ser humano pode atingir, em qualquer idade» (Natália, ent.4), «É a pessoa que perde a vida (…) Deixa de andar no ativo. E perde as capacidades» (Florbela, ent.5), «Envelhecimento ativo quer dizer envelhecer muito novo? Ou não?» (Esperança, ent.6), «É a pessoa que envelhece muito rápido?» (Íris, ent.13), «Ativo? Muito rápido?» (Idalina, ent.14). Estas palavras demonstram que a expressão é percecionada de modo inverso e que é urgente esclarecer a ambiguidade de ideias. O tema já é entendido como praxis na área da Saúde, contudo, esta investigação evidencia que muitas cuidadoras formais de idosos não o compreendem. A ajudante Julieta declara isso mesmo: «Sim, mas não compreendo» (Julieta, ent.11).

Algumas ajudantes responderam que nunca ouviram falar de Envelhecimento Ativo, mas se é nítido o desconhecimento da expressão, também é claro que todas as ajudantes estão a par da importância da promoção de um envelhecimento saudável. Após uma breve explicação, de modo a aprofundar o assunto, a entrevistadora inquiriu as participantes sobre o modo como o Envelhecimento Ativo é praticado na Instituição. Naturalmente que as respostas giram em torno do trabalho do animador e do técnico de reabilitação psicomotora, sendo referidas as atividades lúdicas promovidas, os passeios e caminhadas que se realizam. Mas as ajudantes também se implicam na promoção do envelhecimento saudável, como comprovam as respostas:

«O que eu às vezes faço: “Faça lá um bocadinho de ginástica, mexa lá os braços, vista lá a blusa, veja lá se dobre um bocadinho” (…). Às vezes a gente pode

vesti-los e tudo, mas às vezes também incentivamos para eles fazerem, para não pararem, porque se eles se poem ali, a gente vai fazer tudo, eles daqui amanhã é mau

também para eles (…) Ainda hoje de manhã, por acaso uma senhora que está numa

cadeira de rodas, sentei-a na cama e ela sentou-se, ficou assim. Eu disse: “Ó Sr.ª Leonor, mexa lá os braços um bocadinho, faça lá aí uma ginástica. Dispa lá a camisa” Pronto, é assim estas coisas, porque é pequenas coisas mas para eles é tudo, porque se

poem ali parados…» (Carmo, ent.7).

«E mesmo nós, funcionárias, que estamos com elas sempre, também, também

fazemos isso, porque nós também dizemos assim: “vá, vista-se. Vá-se vestindo”,

“Senão qualquer dia está presa, qualquer dia não faz nada. Olhe, qualquer dia tem uma mosca no nariz e não é capaz de a sacudir” (Sofia, ent.10).

«Eles às vezes não gostam muito, mas nós dizemos-lhes assim: “vá, agora faça

lá assim”… Até na própria higiene, eu tenho esse hábito: estou a fazer a higiene a

outra velhinha ali perto e no mesmo quarto estão duas, por exemplo. Digo à outra

velhinha “vá, vá lá lavando a cara”. Nesses pequenos gestos, eles vão mexendo. Coisas

que muitos deles vão perdendo porque não fazem» (Clara, ent.15).

As ajudantes demonstram ter consciência da importância do estímulo para a autonomia junto dos idosos. A realização das atividades da vida diária beneficia a motricidade dos residentes mas também o seu estado psicológico, pois continuar a sentir-se capaz de caminhar, de se auto cuidar e de comunicar tem um valor inestimável para o ser humano. As ajudantes Florbela e Idalina distinguem a relevância do diálogo, da comunicação com o idoso, no ato de cuidar:

«É conversarmos com eles, é fazer-lhes perceber as coisas, que alguns são

revoltados, entrar em diálogo (…) têm preciso que a gente lhe dê aquela palavrinha,

confortá-los, prepará-los, fazer-lhe perceber as coisas, que a vida não é assim, têm que

dar a volta por cima, temos aí vários (…) não aceitam bem a situação…» (Florbela,

ent.5).

«Através do animador, do fisioterapeuta… E de nós se calhar também, um

bocadinho, acho (…) Fazendo-o sorrir. Acho que é o mais importante» (Idalina, ent.14).

Refira-se, no entanto, a resposta de uma ajudante a quem se apresentou a mesma questão: «Aqui, pouco (…) a não ser um ou outro que vá ajudar à cozinha» (Raquel, ent.12). Efetivamente, grande parte do tempo os idosos mantêm-se em inatividade no Lar, ou por falta de vontade deles próprios, ou pela escassez de incentivos.

Procurou-se saber o que significa envelhecer com qualidade de vida, na perspetiva das ajudantes de lar. As respostas focam aspetos variados, designadamente: possuir meios financeiros de adquirir tudo o que se precisa para a saúde e para o bem- estar, ter acompanhamento familiar, participar em atividades que proporcionam prazer ou permanecer na sua própria residência. Algumas ajudantes frisam o valor da funcionalidade nas AVD:

«Uma pessoa que envelheça e que ainda faça a sua vida, que se vista, que… Nós

temos aí um senhor que tem noventa e tal anos, ele ainda conduz, ainda faz essas coisas todas, isso é ter qualidade de vida» (Carmo, ent.7).

«É envelhecer, mas tentando sempre fazer pequenas coisas no dia-a-dia.

ajudamos. Mas vai até à rua. Vê outras pessoas… Para não estar sempre… confinado

ao mesmo espaço e às mesmas pessoas… Para conseguir falar, ter um outro ambiente, que não sempre o mesmo» (Clara, ent.15).

Outras ajudantes salientam a importância dos cuidados recebidos para se envelhecer com qualidade de vida, o que faz todo o sentido, pois a qualidade dos cuidados recebidos assume um papel inegável em situações de dependência ou semidependência:

«Olhe, por exemplo, esta casa. Porque há tanta gente que vem para aqui, e eu

conhecia pessoas aqui dos arredores… Casinhas velhas, com o teto a cair para cima,

sem comida, sem familiares, outros, familiares abandonam-nos» (Íris, ent.13).

«É ter os cuidados que necessitam, a higiene, a alimentação, a medicação, é terem alguém que olhe por eles. Que não estejam sozinhos, abandonados» (Beatriz, ent.16).

Saliente-se que as ajudantes com muitos anos de experiência relatam uma evolução muito significativa, o que demonstra a atenção que as áreas sociais e de saúde têm dedicado à qualidade dos cuidados prestados aos mais velhos. Escutemo-las:

«Nós no princípio não tínhamos a maneira de trabalhar que temos hoje. Ao princípio de eu cá estar era muito diferente. Em termos de higiene, de cuidar deles, de

tudo… Por exemplo, nós tínhamos umas luvas dessas grossas para fazer a higiene a

toda a gente. Enquanto hoje temos uma caixa de luvas para nós usarmos um par de

luvas para cada pessoa (…) Nós nessa altura tínhamos muita gente ferida. E hoje não temos (…) Mas não havia tanta quantidade de cremes como há agora… não havia peles

para as camas, colchões anti escaras… isso tudo evoluiu muito (…) Feriam-se nos calcanhares, feriam-se no rabo (…) Temos outros meios de proteção. Não havia sacos

do lixo individuais… mesmo em questões de detergentes, lixivias, há mais quantidade do que havia naquele tempo… Há 20 e tal anos atrás… Um alguidar para cada uma» (Julieta, ent.11)

«Antes estavam em agonia… eram capazes de estar 8 dias naquilo. E para quem

está aqui toda a noite com eles, há anos, é de partir o coração. Eu penso assim. E agora não. Agora telefona-se à senhora enfermeira ou telefona-se à auxiliar. Se vêm que é caso para ir para o hospital, vai logo (Eva, ent.8).

A evolução na medicina conduziu a que os idosos institucionalizados passassem a receber cuidados preventivos e paliativos. Também o conforto se tornou um objetivo

importante nos lares. Na atualidade, o desafio prende-se sobretudo com a imprescindível humanização dos atos de cuidar.

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