Embora o homem apresente o instinto social48, mais elaborado, certas circunstâncias ainda podem fazer com que ele os suprima em detrimento de outros instintos mais básicos; podemos falar, por exemplo, em comportamentos condicionados, agressividade animal; e não são poucos os relatos que demonstram situações em que o ser humano pode revelar sua faceta instintiva mais primitiva. Quando colocado em circunstâncias de muitas privações ou que ponham sua
44 MATURANA, H. e VARELA, F. op. cit., p. 209. 45 COSNIER, J. apud: MORIN, E. op. cit., p. 30. 46 MORIN, E. op. cit., p. 30.
47 DORIA. C. A. op.cit., p. 30. 48 Ibid.
21 existência em risco, há uma grande probabilidade de que estes comportamentos instintivos tomem conta do sujeito. Um destes relatos pode ser encontrado na observação do psicólogo Viktor Frankl sobre o comportamento de judeus prisioneiros em campos de concentração: “face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a ‘regressão’ da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal.”49 A fome pode fazer o homem atropelar as
regras de civilidade. Na Divina Comédia, Dante fala da fome, ela deixa a marca permanente e inconsciente de uma morte agonizante no ser humano:
a primeira das calamidades que assolam a humanidade. Sua consequência é a morte mais miserável de todas. A fome provoca um suplicio lento, dores prolongadas, um mal que habita e se esconde no interior da gente, uma morte sempre presente e sempre lenta a chegar.50
Como um de nossos instintos mais imperativos, os tempos de penúria alimentar da história evolutiva ficaram registrados de forma contundente em nosso DNA.
A fome, como expressão característica do instinto de autopreservação, é sem dúvida um dos fatores primários e mais poderosos de influência do comportamento; na realidade, a vida dos primitivos é atingida mais fortemente por ela do que pela sexualidade. Nesse nível, a fome é o alfa e o ômega – a existência em si.51
Desta maneira, a prática voluntária do jejum, seja por qual motivo for, constitui um mecanismo poderoso de descondicionamento e aprendizagem.
Quando muitos dos programas biológicos inatos do homem estavam se formando, este encontrava-se em condições de existência bastante custosas52, pois a coleta e especialmente a caça de animais que representava na carne, um alimento com mais sustância, eram incertos, o que privilegiou certos comportamentos que visavam a conservação da espécie:
[O homem] estava quase sempre faminto, sem nunca ter certeza de poder satisfazer essa fome. O homem, que vivia num clima tropical evoluindo aos poucos para as zonas
49 FRANKL, V. Em Busca de Sentido. São Paulo: Vozes, 1985, p.20.
50 Apud: CHONCHOL, J. O desafio alimentar. A fome no mundo. São Paulo: Marco Zero, 1989, p. 7. 51 Psychological Factors in Human Behavior, The Structure and Dynamics of the Psyche, OC 8, 237. Apud:
JACKSON, E. Alimento e Transformação: Imagens e simbolismo da alimentação. São Paulo: Paulus, 1999, p. 18.
52 LORENZ, K. Civilização e Pecado. Os oito erros capitais do homem moderno. Rio de Janeiro: Artenova S.A.
22 temperadas, certamente sofreu muito com isso. Com suas armas primitivas, devia viver num estado permanente de alarme e medo. Nesse contexto, muitas atitudes que hoje consideramos desprezíveis ou culposas, eram perfeitamente justificáveis. Uma estratégia inspirada pelo instinto de conservação transformava necessidade em virtude e mandava que comessem o mais possível toda vez que capturavam um animal de bom porte. A sabedoria consistia em se empanturrar. O mesmo se dava com o pecado mortal da preguiça. Obter um pedaço de carne custava tal esforço que era preciso cuidar para não despender mais energia do que o necessário.53
O processo de seleção natural tem favorecido mecanismos que otimizam energia. É o corpo que ensinará ao homem as primeiras noções de economia, através de um elaborado sistema de condicionamento:
No homem, o primeiro tipo de estímulo está ligado a um sentimento de prazer, o segundo a um sentimento de desagrado. Podemos, sem muito antropomorfismo, designá-los simplesmente, nos animais superiores por noções de recompensa e castigo.54
Ou seja, sensação de saciedade e bem estar versus sensação de fome e/ou dor causada pela fome. Através de um sistema de feedback55, ou retroação que consiste em reforçar aprendizados positivos e enfraquecer ou inibir aprendizados negativos (descondicionamento), homens e animais aprendem como investir bem sua energia, buscando na maior parte do tempo, acumula- la.
Temos o instinto a favor da permanência, isto é, segundo Konrad Lorenz, uma série de programas inatos presentes em todos os sistemas vivos, e com função ultima de conservar o organismo e consequentemente dar continuidade à espécie. Entre tais programas encontram-se a agressividade para defesa de território, defesa contra agentes destruidores (contaminação), o sexo e a alimentação; “por sua importância estratégica para a vida essas duas [ultimas] atividades constituem as fontes mais intensas do prazer carnal.”56 Contrariamente, os mecanismos de
descondicionamento visam inibir comportamentos que possam colocar o individuo e a espécie em risco.
53 Ibid. 54 Ibid, p. 53. 55 Ibid, p. 21.
23 Os princípios opostos da recompensa e do castigo existem para manter o equilíbrio entre preço a pagar e o lucro em perspectiva. Isso é demonstrado pelo fato de sua intensidade variar de acordo com a economia do organismo. Se a alimentação é abundante, sua força de atração diminui a tal ponto que o animal dá apenas alguns passos para alcança-la, e nesse caso qualquer estímulo negativo é suficiente para acabar com o apetite. No caso inverso, a capacidade de adaptação do mecanismo prazer-desagrado permite ao organismo, em período de necessidade, pagar um preço exorbitante para alcançar uma meta vital.57
Um animal deve conseguir superar certos obstáculos para obter o que precisa, mas não ao ponto de ter ferimentos graves ou mesmo de perder sua vida. Seria ilógico pagar seu almoço com uma parte de seu corpo, como por exemplo, ter uma pata congelada ao sair para caçar em regiões muito frias. Um risco tão alto só deve ser percorrido se for a ultima cartada na tentativa de salvar a própria vida.
Podemos observar de forma mais detalhada o que sugerimos anteriormente: uma das primeiras coisas que aprendemos com a natureza foram os princípios de economia. Nosso corpo precisa de certos recursos para manter-se, para tanto, arca com certos custos. Os custos variam de acordo com os recursos necessários e disponíveis. Qualquer ser vivo depende de administrar bem os meios de aquisição de recursos e quanto gasta para obtê-los. No ser humano, entretanto, dada sua capacidade simbólica, o instinto social transporta este jogo de negociações para outras esferas. “Os seres humanos buscam o que percebem ser recompensas e evitam o que percebem ser custos.”58 Assim, seres humanos podem submeter-se a certos sacrifícios ou restrições para
conseguirem o que querem. Quase todas as religiões impõem regras sobre alimentação. Aquele que deseja as recompensas ou aceita os compensadores59 oferecidos por uma dada religião, arca com o custo de se submeter, pelo menos em parte a estas imposições. “O cumprimento das regras
57 Ibid, p. 55.
58 STARK, R. e BAINBRIDGE, W. S. Uma teoria da religião. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 37. Mesmo na escolha
das religiões os homens são movidos por este mecanismo, que apesar de parecer eminentemente humano, tem raízes biológicas.
59 Ibid., Compensadores são outras vantagens que as pessoas podem encontrar numa religião quando não podem
24 de alimentação tem sempre sido parte fundamental do contrato dos crentes dos diferentes credos.”60
O mecanismo inato de valores biológicos, que determina a relação do organismo com seu meio, porém, não é estático: “o valor biológico aumenta ou diminui ao longo de uma escala indicadora da eficiência dos estados físicos para a vida.”61 De acordo com os desafios a que é submetido,
um organismo muda suas faixas de valor biológico, tornando-se mais tolerante a um mesmo conjunto e/ou intensidade de estímulos. “Toda combinação de estímulos de excitação, agindo de forma repetida, perde gradativamente sua eficácia.”62 Isto equivale a dizer que quando um
organismo recebe diversas vezes um mesmo estímulo de prazer este perde seu efeito, assim como quando um organismo recebe diversas vezes um estímulo de dor, também desenvolve certa tolerância quanto a este. Desta forma atinge-se, por exemplo, a excelência em jejuns prolongados (falaremos disso com mais detalhes no item 4.1).
A ausência de uma dor previamente conhecida, bem como o momento de sua interrupção, são interpretadas como recompensa:
Se, por exemplo, ele é fortemente levado por estímulos dolorosos criadores de inibição além do seu equilíbrio, e se esses estímulos cessam de repente, o sistema não volta, em curva amortecida, ao estado de indiferença. Ultrapassa o estado de repouso e vivencia a suspensão da dor como um prazer considerável.63
Se por razões de saúde ou religiosas o individuo é obrigado a abandonar a alimentação oral ou a deixar de comer parcialmente, quando volta a comer normalmente, o alimento passa então a ter uma conotação de recompensa, de celebração, ainda seja uma comida do dia a dia. Esta evidência pode ser constatada no capítulo III, observando-se que quase todas as religiões, após um período de jejum, encerram-no com banquetes; e estes têm por esta razão, um sabor muito especial. Não se trata apenas quebrar o jejum, mas sim, comemoração.
Algumas práticas alimentares e até mesmo alimentos específicos evidenciam o caráter recompensador da comida. Não podemos deixar de citar, neste caso, o alimento que parece ser a
60 EZQUIBELA, I. J. Prescripciones y tabúes alimentarios: el papel de lãs religiones. Distribuición y consumo:
Barcelona, Novembro-Dezembro, 2009, p. 9. Tradução do autor.
61 DAMASIO, A. op. cit., p. 69. 62 LORENZ, K. op. cit., p. 56. 63 Ibid.
25 recompensa por excelência, trata-se do açúcar. Em todas as línguas, faz-se referência às suas propriedades: diz-se de uma pessoa, que ela é doce, quando é afável, meiga, agradável. Fala-se em doces lembranças, doces momentos, doce vida, etc. Quando damos presentes comestíveis, geralmente, são bombons, biscoitos, bebidas: produtos doces. E, não somente na esfera secular, mas também as religiões que têm no açúcar o símbolo das boas coisas da vida. Como veremos no capítulo IV, muitas são as ocasiões religiosas festivas onde os doces são símbolos importantes. A Doutora Nicole Avena, pesquisadora em neurociência e psicologia da alimentação pela Universidade de Princeton, explica que o açúcar, em suas várias formas (glicose, frutose, lactose, dextrose, amido, mel...), quando consumido, ativa os receptores que enviam sinais para o tronco cerebral e dali se subdivide em muitas partes do prosencéfalo, é a partir deste ponto que o sinal ativa o sistema de recompensa do cérebro, causando uma sensação de bem estar. A principal moeda do nosso sistema de recompensa é a dopamina, um importante neurotransmissor. Há muitos receptores de dopamina localizados no prosencéfalo, onde também se encontra nosso sistema de recompensa. Drogas como álcool, nicotina ou heroína enviam dopamina em excesso, levando algumas pessoas a buscar constantemente essa sensação, causando dependência, o açúcar também provoca a liberação da dopamina, embora não tão violentamente quanto as drogas.64
Inferimos, portanto, que o simbolismo positivo do açúcar tem origem não numa convenção, mas em seu efeito fisiológico no cérebro humano. A sensação de prazer ao comer um doce, ainda que fosse uma fruta, deve ter se destacado entre as demais. Colocando o açúcar como sinônimo das coisas boas, assim é comum fazer votos de “um ano doce” ou “uma vida doce”. Nas supostas visões miraculosas entre mulheres da Idade Média encontram-se relatos de que na eucaristia “a hóstia tornar-se-ia mel ou carne na boca das mulheres.”65
Outro produto que merece destaque no sentido de estar associado aos programas biológicos é a carne. Seu consumo, inicialmente, haveria dado origem a certa “obstinação benéfica”, pelo menos no início da humanidade:
64 AVENA, N. How sugar affects the brain. TED Ed Lessons worth sharing. Disponível em: www.ed.ted.com.
Acesso em 15/12/2013.
65 BYNUM, C. W. Fast, Feast and Flesh. In: COUNIHAN, C. e ESTERIK, P. Food and Culture: a reader. New
26 É possível que tenha aparecido muito cedo o defeito genético da não metabolização do ácido úrico, cujo excesso tóxico nas células cerebrais parece desempenhar um papel numa característica espalhada pela humanidade: a tenacidade que vai até o fim (achievement); é evidente que este defeito só podia constituir uma vantagem seletiva nas condições e no grupo em que se fundiu.66
Um exemplo marcante encontra-se no contraste alimentar entre romanos e bárbaros. Enquanto os romanos buscavam um ideal de frugalidade em sua alimentação, bárbaros eram os grandes devastadores, comedores de carne. Talvez este fato os tenha levado a tão violenta invasão à Europa no momento de sua formação:
Os “verdadeiros” romanos são descritos como homens orgulhosamente ligados aos produtos da terra: cereais, legumes, leguminosas e frutas. Os bárbaros são os devoradores de carne que não dão qualquer valor aos alimentos vegetais [...] A simbiose entre esses dois mundos e essas duas culturas vai se realizar porque os vencedores do conflito, os bárbaros, que vieram da nova classe dirigente da Europa medieval, rendem-se ao encanto do modelo romano e aceitam seus valores.67
Uma grande corrente religiosa ligada ao cristianismo demonstrava sua preferência pelo vegetarianismo, a heresia cátara,
que a Inquisição destruiu após uma grande campanha no início do século XIII, contra os adeptos desta seita cristã [...] O consumo de carne constituiu no Ocidente um modelo de virilidade, associado não só à caça como atributo tipicamente masculino, mas também a uma noção de que o homem necessita alimentos adequados a sua função guerreira e belicosa.68
Ernest Haeckel sugere que etnias diferenciem-se em comportamento segundo suas dietas:
O nosso humor, os nossos desejos, os nossos sentimentos são muito diversos conforme estamos saciados ou com fome. O caráter nacional dos ingleses e dos gaúchos da América do Sul, que se alimentam quase que de carne [...], não é o mesmo do irlandês que se alimenta de batatas, nem do chinês que vive de arroz.69
66 ESCOFFIER-LAMBRIOTTE, C. apud: MORIN, E. 1999. op. cit., p. 61. 67 FLANDRIN, J-L. e MONTANARI, M. op. cit., p. 279. Grifo nosso. 68 CARNEIRO, H. op. cit., p. 71.
27 Aceitar ou rejeitar alimentos têm profundas raízes biológicas. Outro tipo de seleção nutricional estaria associado aos alimentos nocivos, era necessário reconhecer os alimentos que haviam causado dor, desconforto, indicando toxicidade:
Nojo tem fortes raízes evolucionistas: alimentos que provocavam vômito ou enjoo são perigosos; portanto, lembrados com sensação de repulsa no caso de se deparem com tal alimento em momentos posteriores.70
Seria como o oposto do açúcar, um exemplo de “castigo”. É possível que dietas baseadas no vegetarianismo tenham algum traço biológico de prevenção contra contaminação, uma vez que a proteína animal é um dos alimentos que se deteriora mais rapidamente especialmente em áreas de clima quente.
As raízes indianas e pitagóricas do vegetarianismo são ligadas a noções de pureza e contaminação, e não tem correspondência com a visão romântica de “amizade” com os animais. O vegetarianismo recusa toda alimentação carnívora [...], tem origem na tradição filosófica indiana, que chega ao Ocidente na doutrina pitagórica. Tal tradição [...] recusará a ingestão de cadáveres.71
1.3.1 Defesa contra contaminação de todos os tipos, um programa biológico
A defesa contra contaminação é outro dos programas inatos essenciais num sistema vivo. A contaminação caracteriza-se pelo contágio com alguma coisa fora dos padrões. Neste sentido, entendemos a contaminação como o oposto de identidade (conjunto de caracteres próprios e exclusivos de um organismo).
Onde há sujeira [contaminação] há sistema. Sujeira é um subproduto de uma ordenação e classificação sistemática de coisas, na medida em que a ordem implique rejeitar elementos inapropriados.72
70 ALLEN, J. S. The Omnivorous Mind. Our Evolving relationship with food. Massachusetts: Havard University
Press, 2012, p. 215. Tradução do autor.
71 CARNEIRO, H. op. cit., p. 70. 72 DOUGLAS, M. op. cit., p. 50.
28 Desta maneira, um sistema, seja ele qual for, há que se defender dos elementos estranhos provenientes do ambiente para preservar as próprias características (identidade). Uma vez que trabalhamos com categorias bastante gerais nos sistemas, podemos observar o processo de preservação da identidade versus contaminação, ocorrendo desde o nível celular, como é o caso de um vírus, ou podendo caracterizar-se como xenofobia como no caso de sistemas socioculturais.
O processo de renovação dos componentes do sistema, no caso do corpo células, no caso de um sistema social, indivíduos socializados, pode ocorrer de forma anormal. É possível que haja falhas na replicação das células, o que daria origem a um câncer (células fora do padrão), como é possível que haja falhas no processo de socialização dando origem a indivíduos anormais (fora do padrão).
Nos organismos longevos e especialmente naqueles em que o período de crescimento é muito longo, existe o perigo constante do desenvolvimento de formas “antissociais” e nocivas em decorrências das mutações que podem ocorrer no curso de numerosas divisões celulares necessárias [...] É provável que todos nós morreríamos ainda jovens devido aos tumores malignos caso nosso organismo não tivesse desenvolvido, através da formação de reações imunitárias, uma espécie de “polícia celular”, que bloqueia em tempo a proliferação dos elementos antissociais [...] A espécie Homo Sapiens dispõe de um sistema de comportamento altamente diferenciado, visando a eliminar os parasitas perigosos para a sociedade e análogo ao sistema de defesa das células através dos anticorpos.73
A sociedade sempre tenta eliminar anomalias internas, pois elas podem comprometer a identidade do organismo, no caso, a própria sociedade. Um organismo de acordo com as estratégias de adaptação, privilegia certos padrões, mais convenientes para manutenção de sua identidade e reprime outros que possam ameaça-lo:
A existência da anomalia pode ser fisicamente controlada. Assim, em algumas tribos da África Ocidental, a regra de que gêmeos devem ser mortos quando nascem, elimina uma anomalia social, se se acredita que dois seres humanos não podem nascer do mesmo ventre ao mesmo tempo. Ou tomemos os galos que cantam à noite. Se seus pescoços forem prontamente torcidos, eles não viverão para contradizer a definição de galo como uma ave que canta ao alvorecer [...] eventos anômalos podem ser classificados como perigosos.74
73 LORENZ, K. 1974. op.cit., p. 69 e 71. 74 DOUGLAS, M. op. cit., p. 55.
29 Uma vez que o programa de defesa contra contaminação toma uma forma simbólica, passa a agir em prol da identidade do grupo assim como células com determinada informação genética compõem e preservam a identidade biológica de um sujeito, é por isso que as células cancerosas são combatidas, elas são células que perderam a informação original e iniciaram um novo padrão75, portanto, este novo padrão pode ser compreendido como perda de identidade e ameaça
à organização original.
Em toda a extensão de Pureza e Perigo, Mary Douglas explora o tema da contaminação, demonstrando pontos de contato entre ideias de pureza religiosa e contágio pelos mais diversos tipos de poluição. O perecimento de um ser vivo por entrar em contato com o que lhe é nocivo é um processo conhecido desde o nível celular. Temos gravado o mecanismo de não entrar em contato com certas coisas a fim de não nos contaminarmos. Douglas apontará em muitas culturas diversas ideias de contágio representadas não apenas através do materialismo médico76 (caso geral do ocidente), mas sob forma de princípios religiosos.
A alimentação constitui um veículo considerável de troca/contaminação tanto no nível microbiológico quanto nos níveis culturais e sociais. Cada sistema culinário materializa e representa uma identidade sociocultural. Ingredientes e pratos típicos permitem a reprodução e transmissão de valores particulares à identidade de um grupo.
[identidades e trocas] Noções que à vezes são contrapostas, quase como se a troca – ou seja, o confronto entre identidades diferentes – fosse um obstáculo à salvaguarda da identidade, isto é, do patrimônio cultural que cada sociedade reconhece em seu próprio passado [...] em geral a história é invocada como local de produção das origens, das ‘raízes’ mais ou menos míticas que servem de referência para conservação da própria identidade.77
O contato com certos sistemas culinários diferentes, através da incorporação de certos alimentos