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Aija Rusina † Guttorm Schjelderup ‡

3.5 Concluding remarks

Avelino da Costa tem 50 anos, grisalho, com 1,65m de altura e é um dos coordenadores da Cooperação na Reciclagem Papel e Papelão (Coorpel). A gerencia do projeto é cíclica, sendo que, a cada dois meses uma dupla de cooperados assume o manejo de materiais recicláveis.

Com vasto currículo na profissão, há trinta anos Avelino so- brevive com a indústria da reciclagem. Só de carroceiro pelas ruas de São Paulo foram, pelo menos, vinte e cinco anos. Quando vamos até o catador, ele está terminando de conferir o material a ser pesado na balança localizada no meio do galpão em que trabalha com seus companheiros. Ele é um refugiado social que abandonou o caos familiar e a pobreza em que vivia na cidade de Registro, no interior paulista, e veio para a capital em busca de melhores condições de vida.

Porém, a parte que lhe cabia do centro financeiro do país não era lá muito fácil: cerca de 20 quilômetros e 800 quilos levados na carroça diariamente em uma jornada que se estendia das oito da manhã até as onze da noite, dividindo as ruas do centro com carros, motocicletas e caminhões. Dentre os casos de preconceito, Avelino se recorda dos xingamentos, do medo dos moradores quando ele passava próximo a portão de sua casa e de uma briga com um moto- rista que o ameaçou com punhal após discussão no trânsito.

Hoje, na Coorpel, Avelino ganha entre R$ 700 e R$ 800 por mês, defende a organização dos catadores em cooperativas,

mas admite que só parou de trabalhar na rua devido aquilo que é a pedra em seu sapato: a diabete. Fragilizado, o separador relu- ta em deixar o ramo, mas acredita na possibilidade de um rotina mais amena após fazer o curso de reciclagem de produtos eletrô- nicos do projeto Eco-Eletro, uma capacitação feita pelo Instituto GEA e por alunos da Escola Politécnica da USP para a reciclagem do chamado “e-lixo”.

Após dedicar mais da metade de sua vida à reciclagem, Avelino caminha durante a conversa até ficar entre grandes sa- colas com embalagens e vasilhames de plástico, para e lembra a primeira vez que ganhou dinheiro com a venda de papelão. “Eu e mais dois amigos soubemos que dava para vender o papel que a gente usava para dormir. A gente juntava uns 30 quilos, colo- cava na cabeça, vendia e usava o dinheiro para tomar o café da manhã”, relata.

Ele acredita que um dos maiores problemas para os catadores de São Paulo é a briga entre governo municipal e federal. De acor- do com o catador, há recursos federais que são destinados à área, mas a Prefeitura os utiliza para outros fins que não os que real- mente podem ajudar no desenvolvimento da coleta seletiva.

“A gestão do Kassab não quer nem saber da reciclagem. A co- leta não dá conta de tanto material, porque falta espaço e cami- nhões. A Prefeitura poderia desocupar prédios que não utiliza e dar infraestrutura, mas, ao invés disso, está perdendo dinheiro com os aterros sanitários e com projetos de incineração de lixo”, acusa fazendo referência ao recurso do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, que até então não ti- nha sido utilizado para a construção de cooperativas de mate- riais recicláveis.

Em meio a nossa conversa, o separador comenta ter vivido nas ruas no mesmo período que o ator principal do filme “Pixote, a lei do mais fraco” (1981, de Hector Babenco), Fernando Ramos da Silva, e relata algumas semelhanças com o personagem, como o abandono familiar e a falta de moradia, o que fez com que Avelino passasse três anos na Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem – atual Fundação Casa). Porém, ressalta que só foi para lá porque o pai foi assassinado e a mãe, atropelada por caminhão.

Essas tragédias pessoais, aliadas às instabilidades emocio- nal e financeira fizeram com que Avelino optasse por não se ca- sar. “Minha família foi toda desestruturada pelo álcool. Meu pai e minha mãe morreram muito cedo e os dois eram viciados. Eu não tenho problema com esse vício, mas ainda não consegui uma companheira. Hoje talvez pudesse dar certo, mas com o avanço da idade fica mais difícil”, explica.

Avelino conta que virou catador de fato quando conseguiu sua primeira carroça para coletar materiais no centro de São Paulo. Apesar de ter sido um dos fundadores da Coorpel e da primei- ra cooperativa de catadores da cidade, a Coopamare, admite que o trabalho do catador autônomo ainda é o que remunera melhor, cerca de R$ 60 por dia.

Porém trabalhando oito horas por dia como cooperado (sete horas de trabalho a menos, em comparação ao tempo de carrocei- ro), Avelino declara se sentir “mais protegido, organizado e, prin- cipalmente, mais respeitado”. Ainda tendo que ficar grande quan- tidade de horas em pé e se submeter a calor intenso no galpão, o coordenador reclama da falta de esteira elétrica para que pos- sam realizar a triagem dos materiais.

Sobre a importância de seu trabalho, Avelino enumera quatro pontos que fazem com que a coleta seletiva seja, segundo ele, de grande relevância para o mercado de trabalho atual e para o futuro. “A reciclagem gera renda, é boa para o meio ambiente, ajuda a economizar energia e evita que se retire mais alumínio e ferro do solo, além da extração de papel”, detalha.

O catador termina seu depoimento destacando que todas as pessoas que participam da coleta seletiva na Coorpel pagam men- salmente o INSS. “Uma empresa multinacional ajuda a gente com a condição de que o dinheiro seja revertido para o INSS e para o aluguel do galpão que é de R$ 2800”, diz.

O dia está movimentado e o núcleo se reorganiza após uma pequena reforma. O coordenador da Coorpel nos convida para o almoço e começa a descascar uma laranja para evitar ainda mais problemas com a diabete.

DE SOMbRA NOS OLhOS E PULSEIRAS