As religiões carregam um sistema de crenças com fundamentos doutrinários, ritos, atos e práticas, que buscam explicar questões da vida, estabelecendo uma visão de mundo e regras para bem viver. Como ressalta Vilhena (2008: 15), as religiões “são universos de sentido e significado que acolhem e buscam responder às indagações, perplexidades, angústias, desejos, necessidades humanas”, mas não é um espaço homogêneo, existindo no interior de cada uma “maior ou menor grau de semelhança, proximidades e distanciamentos”. No Espiritismo, percebemos esse espaço não homogêneo desde sua implantação no Brasil, com vários elementos contribuindo para as diferenças em seu interior. Em nosso país, o pensamento racionalista de Kardec perdeu seu caráter experimentalista, típico do Espiritismo francês, para impregnar-se do estilo brasileiro de compreender o mundo via sacralidade. Em contraposição ao filosófico e científico do estilo francês, vamos encontrar no Brasil a religião como marca preponderante, o que, segundo Stoll (2003), pode ocorrer devido à cultura brasileira que permite às pessoas se relacionarem com os espíritos como se relacionam com os santos, os orixás e eguns. Ao lado desse laxismo brasileiro de praticar sua religiosidade, destaca-se a ênfase na prática terapêutica, como a busca do curandeiro, não separando o sobrenatural do natural.
O “Espiritismo a Brasileira”, na expressão de Stoll (2003), resultante do encontro cultural entre elementos de um movimento que teve início nos EUA, passou pela França onde foi desenvolvido –“codificado” –, e chega ao território brasileiro, historicamente construído no catolicismo, com uma característica marcada pelo laxismo religioso, por sincretismos e por um povo religiosamente aberto ao sagrado. Ao avaliar o Espiritismo no Brasil como carregado de catolicismo, ficamos nos interrogando sobre a interferência consciente ou inconsciente desse modelo católico, já que possui ao ethos do “maior país católico do mundo”, algumas práticas rituais realmente afloram, mas, em
relação a alguns elementos como caridade e celibato, não são necessariamente ranço de catolicidade.
Como já abordamos, o Espiritismo que foi estruturado sobre os pilares do iluminismo, propõe uma religiosidade com um cristianismo renovado, raciocinado, e irá passar por muitas mudanças em sua trajetória temporal (ALBRÉE e LAPLANTINE, 1990). No Brasil, foi importado da França na metade do século XIX, por meio da elite burguesa e ganhou respaldo entre os abolicionistas e republicanos. Aos poucos, se transformou em uma alternativa religiosa reflexiva e, portanto, de vanguarda, pois conjugava ciência com a fé raciocinada. Por influência das ideias revolucionárias francesas e das relações comerciais e culturais franco-brasileiras, a partir de 1815, penetram no Rio de Janeiro as práticas dos fenômenos espíritas das mesas falantes e jogo do copo em saraus (MEDINA, 1998). Aos poucos, nossos patrícios vieram estudando, incrementando e aperfeiçoando o legado espírita, e, em 1875, apresentam a primeira tradução de “O livro dos Espíritos”. Em 1890, em São Paulo, Antônio Gonçalves da Silva, o Batuíra18, fez circular o periódico Verdade e Luz, e Cairbar19 Schutel, em Matão (SP), inaugura “O Clarim” em 1905, jornal que circula até os dias de hoje. Nessa mesma época, em Sacramento (MG), Eurípedes Barsanulfo – pessoa com muitas faculdades mediúnicas – fundou um centro espírita, onde tratava doentes mentais por meio de passes, fundou um colégio espírita (Colégio Allan Kardec), além de efetuar várias outras atividades assistenciais.
Desde os primeiros estudos sobre o Espiritismo no Brasil, como as publicações de Cândido Procópio Ferreira de Camargo (1961), existe a ideia de uma “significativa mudança no processo de sua transplantação”, considerando, como já dissemos, que na França ocorreu o predomínio do aspecto científico, enquanto em território brasileiro prevalecerá o aspecto religioso (STOLL, 2003; STOLL, 2002). CAMARGO (1961: 4) apontou que a “ênfase no aspecto religioso da obra de Kardec, [...], constitui, no entanto, o traço distintivo do
18 Batuíra foi Antônio Gonçalves da Silva, nascido em Portugal em 1839 e falecido em São
Paulo em 1909. Fundou o Grupo Espírita Verdade de Luz e a Tipografia Espírita em São Paulo, sendo considerado um dos pioneiros do Espiritismo no Brasil.
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Cairbar Schutel foi um baluarte do Espiritismo de Matão (SP), espírito que, para Chico Xavier, é o responsável pelo livro espírita no Brasil no plano espiritual.
Espiritismo brasileiro”. Após 1950, com a participação de Chico Xavier, de origem católica e formação militar, o Espiritismo irá se estabelecer com caráter altamente religioso e com forte intercessão com o catolicismo, gerando uma expressão familiar e de disseminação da caridade (LEWGOY, 2011; STOLL, 2003).
O Espiritismo pode ser entendido como um sistema de crenças em formação, e como tal, não se mostra como algo pronto, acabado, fechado. Como o próprio Kardec expôs, ele se mostra capaz de incorporar outras investigações científicas, incorporar interpretações e acrescentar recortes que surgem por meio da atividade mediúnica. No Brasil, esse aspecto ganha volume e força na figura de alguns médiuns que se tornam agentes construtores e divulgadores da doutrina no país. No ambiente espírita brasileiro, os trabalhos de Chico Xavier, Divaldo Franco, Carlos A. Baccelli e outros relevantes médiuns nacionais são exemplos desse processo. A relevância da atuação de Chico Xavier na formação do Espiritismo no Brasil20 é destacada desde os estudos de Cândido Procópio em 1961, quando este ressalta que sua “influência se faz sentir de modo análogo à autoridade de Kardec” (CAMARGO, 1961: 5). Essa prerrogativa de o Espiritismo estar aberto a novos ensinamentos dos Espíritos foi pontuada por Kardec em vários momentos das obras de codificação. Em “O livro dos Espíritos”, encontramos que
Confiou Deus a certos homens a missão de revelarem a Sua lei? “Indubitavelmente. Em todos os tempos houve homens que tiveram essa missão. São Espíritos superiores, que encarnam com o fim de fazer progredir a Humanidade.” (KARDEC, LE: 307, grifo nosso)
Se ao longo da história aparecem novos Espíritos com a missão de contribuir com o avanço do conhecimento espírita, como saber se as novas informações são verdadeiras? Dentre estes que produzem novas informações sobre a doutrina, pode haver maior ou menor desvios da realidade espiritual, como resolver o problema? Diante dessas possibilidades, a espiritualidade
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É importante ressaltar que a mediunidade no Brasil é trabalhada de forma distinta do que fez Kardec. O codificador do Espiritismo escolheu alguns médiuns, aproximadamente dez, para entrar em contato com os Espíritos e obter respostas às perguntas por ele elaboradas; cabendo a ele organizá-las e sistematizá-las posteriormente. Já no Brasil, o trabalho com a mediunidade é publicado de forma direta, ou seja, a organização das informações ditadas pelo Espírito fica na responsabilidade do próprio médium receptor.
consultada por Kardec admitiu o problema, mas esclareceu que, mesmo entre erros, podem-se encontrar verdades:
Os que hão pretendido instruir os homens na lei de Deus não se têm enganado algumas vezes, fazendo-os transviar-se por meio de falsos princípios?
“Certamente hão dado causa a que os homens se transviassem aqueles que não eram inspirados por Deus e que, por ambição, tomaram sobre si um encargo que lhes não fora cometido. Todavia, como eram, afinal, homens de gênio, mesmo entre os erros que ensinaram, grandes verdades muitas vezes se encontram.” (KARDEC, LE: 307)
Para Kardec, o Espiritismo é mais ciência do que religião e, nesse sentido, reforça em vários momentos das obras de “codificação” que é necessário muito estudo e observação dos fenômenos. Ele estabelece que a “ciência espírita compreende duas partes: experimental uma, relativa às manifestações em geral; filosófica, outra, relativa às manifestações inteligentes” (Op. Cit, LE: 46). Como qualquer ciência, para que se possa compreendê-la, são necessários estudos constantes, e que envolvam outras ciências:
Por isso é que dizemos que estes estudos requerem atenção demorada, observação profunda e, sobretudo, como, aliás, o exigem todas as ciências humanas, continuidade e perseverança. [...] Ninguém, pois, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós. Será de admirar que o efetuá-lo demande tempo, muito tempo mesmo? (KARDEC, LE: 39)
O tríplice aspecto da doutrina muitas vezes gera construção de fronteiras no interior do Espiritismo. No Brasil, veremos que existe uma heterogeneidade, apresentando os puristas, por seguir rigorosamente a “Codificação de Kardec”; os que seguem as orientações da Federação Espírita Brasileira (FEB), com suas instituições juridicamente organizadas; finalmente, os que são livres de vínculo com a FEB. Os grupos são classificados como puristas e não-puristas por dar ênfase a um ou outro aspecto da doutrina, ou seja, ser científico e filosófico ou religioso. Os dois últimos grupos geralmente são os que trazem forte influência do catolicismo e irão constituir o que Stoll (2003) denominou de “Espiritismo à brasileira”, forma já identificada por Cândido Procópio Camargo (1961). Os puristas criticam o Espiritismo disseminado pela FEB, dizendo que tem forte conotação religiosa em detrimento da parte científica que Kardec
preconizava, além de integrar as ideias de Roustaing21 (AMORIM, 2009a;
2009b), entendidas como discordantes da doutrina no que tange à vida do Cristo. Tanto a facção da FEB, quanto a ala dos “independentes” são vistas como “não puros” pelos puristas. Por ser uma religião em que existe uma “codificação”, esta fica com o lugar de autoridade máxima em questões doutrinárias. Para os espíritas (não puristas), apesar de fundamental, tal codificação é vista como obra inacabada, muito ainda tendo para ser revelado. Assim, outros Espíritos missionários vieram após Kardec, e o ainda virão, para continuar o trabalho de esclarecimento sobre a origem e destino da humanidade. Essa abertura a novos esclarecimentos por parte dos Espíritos (com diferentes médiuns em atuação) pode promover polos de sincretismos e anti-sincretismo, e provavelmente constitui um fator contribuídor, ou mais elemento favorável, para o que está se chamando de “redefinição de identidade” no Espiritismo brasileiro (LEWGOY, 2008).
Com um breve recorte, fundamentado em Giumbelli (1997), podemos dizer que no Brasil, durante o período de 1890 a 1940, o Espiritismo foi alvo de preocupação de médicos que irão formular “teorias e acusações para explicá-lo e deslegitimá-lo”, principalmente acusando os médiuns com a pecha de charlatães22 em relação à prática da medicina. O médium nesse período, é tratado como doente mental, e as categorias “sugestão”, “alucinação”, “delírio” são recorrentes no relatório do “Inquérito da Sociedade de Medicina e Cirurgia” do Rio de Janeiro (sendo parte do grupo o Dr. Esponzel23) a respeito do
Espiritismo. No relatório produzido pelos médicos, o Espiritismo é visto como propiciador de anomalias mentais.
A partir de 1940, atenuou-se a discussão dos médicos e ocorreu mudança do discurso, saindo dos aspectos biológicos e entrando nas questões da educação
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Jean Baptiste Roustaing, advogado francês, que escreveu “Os quatro evangelhos”, obra publicada quase à mesma época dos livros codificados por Allan Kardec e que atribui a Jesus Cristo uma condição sobrenatural, isto é, “não corpórea”.
22 Charlatão é o indivíduo que desrespeita os códigos da medicina, premeditadamente ou não;
até mesmo um médico formado em faculdade pode ser considerado um charlatão.
23 Dr. Esponzel foi médico do Rio de Janeiro, atuando nas áreas de clínica psiquiátrica e
neurologia, e participou do inquérito promovido pelo médico-legista Leonídio Ribeiro, publicado no jornal “A Noite” falando sobre questões do Espiritismo – as respostas do inquérito estão em Ribeiro e Campos (1931).
e da cultura. É o chamado período “Higienista”, o qual considera que e as práticas espíritas devem ser combatidas com ações “higiênicas e educacionais”. Nesse sentido, recaiu sobre o Espiritismo o olhar social e cultural, deixando de lado os fundamentos biológicos. Entrando, na abordagem antropológica e social, veremos os estudos de Nina Rodrigues, Artur Ramos, Roger Bastide e Cândido Procópio Camargo, que valorizam os aspectos culturais e, consequentemente, reduzem o foco biologicista e psiquiátrico anteriormente preferenciado nas discussões (GIUMBELLI, 1997). O discurso dos cientistas sociais pode ter contribuído para remeter o Espiritismo à esfera do território religioso no Brasil. O Espiritismo, mesmo com as perseguições da época, não deixou suas práticas curativas, e muitos médiuns continuaram com suas atividades receitistas e de intervenção médica. A exemplo disso, lembramos o caso de José Arigó (José Pedro de Freitas), médium que dizia incorporar o espírito de Dr. Fritz em Minas Gerais, que, por volta de 1950, fazia pequenas incisões comparadas a procedimentos médicos cirúrgicos, e ditava receitas para um assistente, que as entregava ao paciente. Essas atividades levaram-no a responder a processos jurídicos. O primeiro foi instaurado em 1956 pela Associação Médica de Minas Gerais, sob a acusação de prática de curandeirismo, tendo ele sido condenado a quinze meses de prisão (1958); depois, um processo em 1964, em que foi condenado e detido por sete meses em Conselheiro Lafaiete (MG), pelo exercício ilegal da medicina (CONCONE, REZENDE, 2012).
O Espiritismo coordenado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), nesse período de meados do século XX, deixa gradativamente os aspectos científicos, incluindo as práticas ligadas à saúde, e privilegia a busca por legitimidade junto aos poderes públicos, mostrando-se como religião e intervindo somente no campo moral, filosófico e espiritual (SOARES, 2009; GIUMBELLI, 1997). Do nosso ponto de vista, a ênfase no aspecto religioso dada pela FEB tem relação com as acusações/perseguições que ocorriam em virtude do uso da mediunidade no campo da saúde. Caracterizava-se, assim, o surgimento de um campo autodefinido como ciência e filosofia, adentrando o campo da medicina, vista como científica. A opção pela religião reduziria a
tensão e, contando com a liberdade de culto do país, poderia se legitimar e expandir.
Com a administração da FEB, criada para realizar uma unificação do Espiritismo no Brasil, houve o privilégio do aspecto religioso, elegendo-se a tríade Chico/Emmanuel/André Luiz na tentativa de reforçar o aspecto cristão. Essa unificação da doutrina estabeleceu orientações para os rituais do Espiritismo, o qual irá se utilizar de um acervo de referências bibliográficas comuns a todos os grupos de estudo, que orientam e influenciam na formação e na prática dos trabalhadores espíritas, incluindo os oradores e médiuns dos centros espíritas. A FEB unifica não somente as atividades religiosas, mas realiza a estrutura do movimento espírita em Federações, Conselhos e Centros, oferecendo apoio nas questões administrativas com suporte jurídico, normativo e de material. Em relação ao funcionamento dos Centros espíritas, articula um conjunto de práticas religiosas a serem adotadas, como estudo sistematizado da doutrina, água fluidificada, atendimento fraterno, grupos de estudos, palestras, passes, reunião de desobsessão, evangelização infantil, orientação para as famílias realizarem o culto do evangelho no lar e praticar a caridade.
O Espiritismo, como as outras religiões, está à disposição do mercado à procura de adeptos. Peter Berger (2004) chama a atenção para os fenômenos da secularização24 e do pluralismo religioso, enfrentados pelas religiões nesta
contemporaneidade. Para ele, a estrutura da sociedade moderna, com todo seu modelo de sistema econômico, encarregou-se de gerar uma situação competitiva com consequente “racionalização das estruturas sociorreligiosas”. Segundo Berger, nas esferas institucionais da sociedade moderna, essa “racionalização estrutural se expressa primordialmente no fenômeno da burocracia” (BERGER, 2004: 150), e a religião passa a funcionar como qualquer outra instituição de mercado. A situação da pluralidade acarreta uma situação em que a religião não pode ser mais imposta como antigamente, mas tem que ser “posta no mercado” (BERGER, 2004: 156). Ao constatar essa situação, o grupo religioso procurará atender aos desejos de seus
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Secularização enquanto processo em que setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos; perde o poder sagrado.
consumidores, colocando à disposição seus produtos, e assim, “se introduz o controle do consumidor sobre o produto a ser comercializado” – mercado de bens simbólicos.
Com o pluralismo religioso há concorrência na territorialidade, e como diz Bourdieu (2007), ocorre produção da cultura pela disputa do poder simbólico, ou poder de produção e legitimação25 de significados. Essa perda do
monopólio religioso, pela proliferação de diversos grupos, impõe aos indivíduos a convivência com as diferentes formas de ver o mundo, e ao mesmo tempo cria a subjetivação das verdades, pela qual cada grupo busca viver em seu mundo. A religião, assim, perde seu poder unificador, e a secularização e o pluralismo se reforçam simultaneamente com consequente crise na plausibilidade26 da estrutura vigente. Nessa mesma linha de pensamento, segundo Peter Berger (2004: 180), o futuro da religião dependerá das formas com que as diversas instituições reagirão às forças da secularização, do pluralismo e da subjetivação. Como Peter Berger levantou, as instituições religiosas tiveram que passar por um processo de “progressiva burocratização” (BERGER, 2004: 151). Essa demanda construiu e constrói um sistema de “relações públicas”, em que a instituição estabelece relações externas e internas de maneiras similares às estruturas burocráticas não religiosas. Com objetivo de cumprir sua “missão”, não só produzem produtos para vender aos seus clientes, como estabelecem parcerias com agências de fomento, governamentais e não governamentais, para “levantamento de fundos” que viabilizem suas atividades junto aos clientes atendidos (BERGER, 2004). O Espiritismo não ficou alheio aos amplos processos que discutimos acima.
As instituições espíritas, nesse contexto, têm realizado parcerias com órgão governamentais e não governamentais, e investido em várias estratégias de marketing por meio do denominado “movimento espírita”. Ao conjunto de ações
25 Legitimidade como algo necessário para explicar e justificar a ordem social; algo que existe
como definições disponíveis da realidade e constituem o saber objetivo da sociedade, sendo a religião o instrumento mais amplo e efetivo de legitimação (BERGER, 2004).
26 A plausibilidade aqui é vista como a construção da realidade de “mundos em apreço” que
torna admissível essa realidade como processos socioestruturais. Ela é oferecida pela atividade religiosa, mas na dialética esse processo pode sofrer uma “interrupção” que ameaça essa realidade, requerendo uma “base” social para continuar ou manter sua existência real. Essa base pode ser a religião (BERGER, 2004: 58).
que envolvem o Espiritismo, os espíritas chamam de “movimento espírita”. O movimento abrange muitas vertentes, dentre elas: federações, conselhos, associações profissionais, centros, instituições culturais, livrarias, editoras, rede de TV, hospitais, laboratórios de pesquisa, orfanatos, escolas, imprensa jornalística. Algumas estratégias de expansão do Espiritismo, tanto no Brasil como no exterior, utilizam estratégias via meios de comunicação de massa e outras, tais como: filmes longa metragem, canal de TV religioso, novelas, feira de livros, livrarias, editoras, revistas com chamadas para a área da saúde, revista de dissertações religiosas, sítios na internet, canais de redes sociais como o Orkut, Facebook e Twitter, grupos no Yahoo e Google, eventos e congressos, obras de caridade e apoio a Organismos não Governamentais (ONGs) e governos em situações de calamidade pública.
No que tange ao mercado de livros, temos hoje uma literatura espírita muito vasta. Suas publicações e vendas somam milhões de livros colocados à disposição dos leitores. Estima-se no Brasil, que em torno de oito milhões de livros são vendidos por ano, com uma diversidade de Espíritos autores representados pelos seus médiuns, e aproximadamente 180 editoras espíritas no mercado (RODRIGUES, 2007). A psicografia é carro chefe desse mundo editorial e conta com inúmeras obras ditadas por “espíritos desencarnados”, revelando cifras significativas, como mais de 25 milhões de livros vendidos de Chico Xavier e mais de 7,5 milhões de Divaldo Franco (STOLL, 2005). As publicações espíritas colocam o país no ranking de detentor da maior parte da literatura espírita produzida no mundo, com uma indústria editorial que publica milhões de livros por ano, para um mercado de aproximadamente 30 milhões de pessoas simpatizantes no país (RODRIGUES, 2007). Além desses números brasileiros, a FEB disponibiliza uma estrutura editorial que faz o trabalho de tradução de obras espíritas para diversas línguas. É importante ressaltar que existem muitos livros espíritas, inclusive as obras de codificação e as revistas de Kardec, disponíveis para downloads gratuitos na internet. As características da religiosidade atual, com seus imperativos de bem-estar e autoestima – “temas da moda”, levaram à produção de obras com tendências psicologizantes adotados por alguns médiuns, dentre eles Divaldo Franco com a “série psicológica” e livros designados ao Espírito de Joanna D’Angelis,
trazendo aspectos da psicologia transpessoal (LEWGOY, 2011). A grande avalanche da indústria editorial, mercado expressivo no país, publica de tudo