O pesquisador e linguista cabo-verdiano Manuel Veiga (2004) acentua que a evolução da Língua cabo-verdiana se deu em períodos mais ou menos distintos: o primeiro coincide com a fase escravagista (desde a segunda metade do sec. XV) e foi protagonizado pelos colonos portugueses e por um grande contingente de escravos negros “[...] arrancados compulsivamente de diversas comunidades africanas onde viviam no equilíbrio ecológico e psicológico da sua tabanca.” (VEIGA, 2004, p.31); o segundo período, caracterizado por um sentimento nativista intrinsecamente ligado ao sentido de pertença, partilha e estabelecimento da “Nação Cabo-verdiana”, que antecede à própria formação do Estado (juridicamente falando), e que conduz à afirmação da “crioulidade”3.
É nesse período que surge o gênero musical designado por “morna”, considerada como outro “aglutinador” da “crioulidade”. Manuel Veiga reitera a ideia de o nativismo concedeu sua contribuição para o início de uma nova era em Cabo Verde no que se refere ao Crioulo, ainda que a sua efetiva valorização e a luta para a sua elevação à língua nacional só se tenha verificado após 1975, data da independência do País. (VEIGA, 2004, p. 35). O terceiro período é conhecido como criolista e tem como referência um marco histórico para a cultura das Ilhas: o surgimento do “Movimento Claridoso”4; o quarto período é o universalista em que predomina nova atitude: a de olhar Cabo Verde, tanto de dentro para fora como de fora para dentro.
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Sentimento de pertença, com o cabo-verdiano a reivindicar para si as suas origens crioulas. 4
Movimento literário nascido por volta do ano de 1936, que pretendia ser genuiamente caboverdiano, atacando os problemas sociais por meio da prosa e da poesia. O nome “claridoso” provém da primeira revista do movimento, denominado de Claridade para desviar a atenção da polícia política portuguesa.
Com a Independência política, em julho de 1975, entretanto, o Português foi formalmente declarado “língua oficial” do jovem Estado, à revelia de um amplo movimento nacionalista e cultural de apelo às raízes, que rodeou esse momento histórico. De um lado, a afirmação das raízes, do nacional expresso na Cultura, na Política, na Administração com o rompimento das práticas do antigo colono. De outra parte, o Português ganhou estatuto de língua oficial desse novo País, acabado de nascer. Como relatam, no entanto, algumas fontes, a contestação à hegemonia do Português no Arquipélago é anterior à Independência. Surge com a publicação, em 1936, da Revista Claridade, na qual um grupo de intelectuais cabo-verdianos contestava a dominação cultural estrangeira.
O movimento literário denominado Claridade é um, dentre vários, exemplo dessa oposição. Uma das principais bandeiras desse movimento era a valorização da realidade sociocultural local e suas especificidades. Apesar da resistência local,contudo, de fato, em decorrência da imposição estrangeira, o Português é “língua oficial” em Cabo Verde e vigora desde 1460. Ainda hoje é discutido, se o movimento dos intelectuais associados em torno do movimento claridoso visava, de fato, combater o Português. Há quem defenda a ideia que o movimento “apenas” buscava certa paridade entre o Crioulo e o Português. Outros postulam como um dos propósitos do grupo o de suprimir a onipresença do Português da vida social e cultural do Arquipélago.
Essa visão, entretanto, carece de mais e melhores explicações, na medida em que, em uma situação de dominados, os nativos poderiam resistir, mas não ao ponto de impor suas vontades ao dominador, a não ser em condições de revoluções. Apesar dessa imposição, dados históricos comprovam que o crioulo ou “falar da terra”, como era conhecido, gozava de grande preferência dos habitantes das ilhas antes do século XIX. Segundo Manuel Veiga (2004, p. 84), contudo,
o alargamento do ensino formal no século XIX e a criação do Seminário-Liceu de S. Nicolau5, na segunda metade deste mesmo século (1867) constituíram, por um lado, os principais entraves ao desenvolvimento do Crioulo de Cabo Verde, por outro lado, criaram as condições estruturais e institucionais para a afirmação e o
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Seminário da Igreja Católica, construído na Ilha de São Nicolau, destinado à formação de padres e que durante muito tempo funcionou como única instuição de formação no arquipélago de Cabo Verde.
desenvolvimento da Língua Portuguesa. A partir de então, o desenvolvimento das duas línguas passou a processar-se num contexto de contradições e de competição desigual, no âmbito político, cultural e linguístico. (VEIGA, 2004, p. 84).
De conformidade como Primeiro Volume da História Geral de Cabo Verde (1991), a vivência de um longo período colonial, que se prolongou, desde a chegada dos primeiros colonos brancos ao Arquipélago em 1460, até 1975, ano de sua Independência Política, a sua proximidade ao Continente Africano e a permanência durante tão longo tempo dos dominadores externos favoreceram o surgimento de uma identidade própria, nem africana, nem europeia, mas absorvendo e incorporando elementos de ambas. Embora o Estado-Nação seja recente (1975), é possível identificar traços de uma identidade nacional.
A identidade nacional, consoante a reflexão de Silva et. al. (2000), pode ser marcada por “símbolos” materiais e imateriais, podendo ser uma elaboração tanto simbólica quanto uma representação social. A luta pela afirmação dos traços culturais nas ilhas de Cabo Verde, tal como em todas as outras latitudes, teve causas e consequências naturais. Apesar de não ter registrado em seu território guerra que opusesse, em sentido formal, os exércitos dos oprimidos (nativos) e dos opressores (colonos), há registros de vários exemplos de conflitos e revoltas, e do surgimento do “movimento claridoso,” cujo objetivo principal era a valorização da realidade local e suas especificidades. Embora não estejam disponíveis estudos e pesquisas aprofundadas sobre o conteúdo e as motivações deste movimento, é possível, entretanto, distinguir nele traços simbólicos de reivindicações essencialistas.
Com frequência, algumas reivindicações assumiram aspectos e contornos marcadamente de grupos de pertensa, com o cabo-verdiano a reivindicar para si as origens crioulas. Seria, entretanto, reducionista abordar a criação e a defesa da identidade nacional de Cabo Verde apenas pelo movimento de um grupo de intelectuais. O povo, por intermédio do seu linguajar, comida e vestimenta, assumiu tanto a tradição europeia como elementos marcantes e os traços da cultura africana a coabitar com a cultura dominante.
O social e o simbólico, tratados por Silva et. al. (2000), são bastante acentuados em Cabo Verde, traduzidos na manutenção das características
tipicamente locais na dança, no artesanato, na alimentação e até na religiosidade. O fato mais marcante na história da formação da identidade nacional foi (embora carecendo de aporte científico que o tipifique) a resistência da língua materna. É certo que não há exemplos esclarecedores de uma oposição forte dos intelectuais cabo-verdianos à Língua Portuguesa como expresso. Pelo contrário, alguns intelectuais da época, como Baltazar Lopes de Silva (1907-1989), defendem, abertamente, a coabitação entre o Português e o Crioulo. Tal defesa não é obra do acaso. Cada ilha tem a sua variedade e o Português, por algum tempo, foi o elo. É desta forma, segundo Silva et. al (2000), que a identidade se insere “no circuito da cultura”, distinguindo algo que seja local, por meio de práticas de representações simbólicas que dão corpo à produção de significados, permeando “[...] todas as relações sociais, tendo em consideração a identificação” do povo de Cabo Verde. (SILVA et. al. 2000).
Pelo exposto, é possível discutir a possibilidade de integrar a identidade cultural dos cabo-verdianos, pelo menos na vertente linguística, naquilo que Hall (2006, p.14) designa modernidade tardia. Com efeito, pelo menos, até onde se julga saber, o povoamento das ilhas de Cabo Verde corresponde ao momento do sujeito do Iluminismo que, por sua vez, coincide com a expansão dos “Descobrimentos Marítimos” (1460). Nesse sentido, e considerando que os “descobrimentos” coincidem, por sua vez, com aquilo que hoje é designado globalização, e, na ausência de elementos que confirmem a presença humana antes da chegada dos portugueses, é possível enquadrar a identidade cultural nessa corrente tardia. Supõe-se, todavia, ter em consideração o fato de que essa é apenas uma visão parcial do processo histórico em Cabo Verde. De todo modo, essa globalização teve impactos na formação do cabo-verdiano e sua identidade cultural tende a refletir essa miscigenação, que resulta do “intercâmbio” do Africano autóctone com o branco Europeu.