Assim como o texto principal ou corpo do texto, as notas de rodapé se fazem importante para o entendimento da leitura, elas trazem significados, realinham o texto e o deixam mais claro e conciso. Para Compagnon (1996, p. 82), sua função fundamental é livrar o texto de sua sobrecarga, afirmando: “Se as notas são essenciais peças de defesa (referências eruditas, acertos de conta, demarcações sutis, negações acessórias, recuos encobertos), elas têm também um papel estético: livram o texto de suas sobrecargas”.
São nas notas de rodapé que o autor faz suas explicações, orienta outras leituras, faz referências de obras e autores diversos, fazendo com que o texto ou o entendimento sobre o assunto em pauta fique mais rico e detalhado.
Dessa forma acontece no Novo Secretario Portuguez: Roquette acrescenta nas notas de rodapé informações diversas que enriquecem com detalhes o manual epistolar dando um toque de história e cultura a um livro que se caracteriza como sendo de consulta rápida e precisa no que tange à escrita de cartas. Os subsídios são diversos, nos quais o autor faz desde explicações históricas e gramaticais até traduções e anedotas.
Na 'Advertencia Preliminar', o autor coloca nas notas de rodapé explicações diretas de como escrever os pronomes de tratamento para determinadas autoridades, as quais são exceções às regras, utilizando-se de justificativas no sentido de explicar os fatos. Isso pode ser observado na seguinte passagem:
Aos Bispos não nomeados por sua Magestade dá a Secretaria o tratamento de ILL e R Senhor, mas os particulares não devem fazer distincções dos outros. Se o Arcebispo fosse parente reconhecido da Casa Real, dar-se–lhe– hia o tratamento de Alteza Serenissima (ROQUETTE, s/d, p. 4).
Outro tipo de explicação exposta nas notas de rodapé são as explicações gramaticais que vão além das formas de tratamento, conforme apresenta-se a seguir:
Phonetica, ou phonographica é a mesma que a alphabética de que usamos;
chama-se assim porque emprega signaes ou caracteres que não exprimem as ideias, como nas escrituras ideographica, mas os diferentes sons que entrão na composição das palavras, ωνη ιχϗ de ωνη voz, qualquer som (ROQUETTE, s/d, p. 82).
Dessa forma, o autor evidencia, ou tenta evidenciar, para os leitores, a posição de uma pessoa entendida das normas gramaticais tendo em vista os vários títulos de cunho didático que publicou na sua história de autor.
Além das explicações sobre as exceções às formas de tratamento e às gramaticais, ocorrem também, e essas em consideráveis números, as explicações de cunho histórico, como por exemplo:
As grandes assembleas dos Gregos, chamadas έχχλη ίαι, fazião-se na praçé publica; erão quase sempre mui agitadas e tumultuosas” e da página 32 “Quasi toda a Grecia seguia então o partido dos Macedonios; a isto é que Demosthenes chama o systema que segue actualmente a Grecia (ROQUETTE, s/d, p. 31).
Outra passagem interessante é a que o autor explica como os romanos escreviam suas cartas, ou seja, Roquette aproveitava determinada passagem de uma carta para fazer um comentário, explicando como ocorria a escrita das cartas na Antiguidade. “τs Romanos escrevião com um ponteiro de ferro em taboinhas encerradas. Veja-se a carta de S. Jeronimo" (ROQUETTE, s/d, p. 26).
Em algumas notas de rodapé ocorre a escrita de fragmentos de textos, tanto em seu idioma original quanto a tradução de alguma passagem em que o autor preferiu colocar no corpo do texto na sua língua primária, como na seguinte passagem: “Qualis meus sermoesset si uma sederemusaut ambularemos, illaboratusetfacilis; tales volo esse epistolas meas”, cuja tradução encontra-se no corpo do texto principal da seguinte forma “Qual seria a minha conversação se estivessemos sentados ou passeassemos juntos, facil e sem artificio; assim quero que sejão as minhas cartas” (RτQUETTE, s/d, p. 21).
Observa-se também nas notas de rodapé do manual da escrita de cartas sobre referências a autores clássicos, pois para o autor são pessoas de reconhecida notoriedade e que precisam, de certa forma, estar presentes em seu livro para que apresente e coloque para o público, como um autor de saberes abrangentes e cultos, “por exemplo nas cartas de repreensão e de ameaça, como adiante se verá. Cícero usa d‟este estylo nalgumas das familiares, mas não são as melhores” (RτQUETTE, s/d, p. 23).
Porém, vale destacar que na mesma página ele faz outra nota de rodapé, também, utilizando-se de autor clássico para justificar a escolha de determinada carta ou simplesmente para explicar o porquê daquele autor clássico ter colocado determinada carta como referência: “Symmaco escrevia a seu amigo Ausonio: „υedes-me cartas mais compridas. Isto é entre nós um signal de verdadeiro amor. Petis a me litteraslongiores. Est id in nosveriamoris
indicium‟(O. A. SymmachiEpist., lib I, epist 8.)” (ROQUETTE, s/d, p. 23, grifos do autor).
A nota de rodapé é utilizada por Roquette para dar significado a determinadas palavras, que talvez para a época fossem pouco utilizadas ou pouco conhecidas pela população, utilizando-se desse elemento da perigrafia com o sentido de dicionário, o que é bastante comum nos livros em geral. Como por exemplo: “Casci, palavra da língua dos Sabinos que significa velho, antigo. S. Jeronimo alude ao verso seguinte: Quam primum
cascipopulicaruerelatini.” e “Tabellarii de tabulae (taboinhas); librarii de liber (entrecasca d‟arvore) (RτQUETTE, s/d, p. 26).
Nota-se ainda a presença de notas com o intuito de levar os leitores a buscarem outras fontes literárias ou didáticas para complementarem a leitura e os conhecimentos que envolvem a boa escrita epistolar, como exemplo pode-se extrair a seguinte passagem: “Veja- se a Grammatica para os Portuguezes e Brasileiros que desejão aprender a língua franceza sem esquecerem a propriedade e giro da sua” (RτQUETTE, s/d, p. 44).
E, por fim, observou-se a presença de anedotas com a finalidade de ensinar, passar uma mensagem ou simplesmente instruir de forma severa, porém com um toque de humor e
sarcasmo certos hábitos de pessoas que escrevem dando conselhos aos demais. Assim foi encontrado:
A seguir anecdotapóde servir de lição aos que se mettem a dar conselhos intempestivamente e sem as devidas formalidades.
Um sacristão da capella real de Berlim escreveo a Frederico II° a seguinte carta:
„Senhor,
Advirto a V. M., 1° que ha falta de livros de cânticos para a família real; advirto a V. M., 2° que não ha lenha para aquecer a tribuna real; advirto a V. M. 3° que a balaüstrada que dá para o rio, por detraz da igreja, ameaça ruina...
“SCHMIDT, sacristão.” El- Rei de Prussia rio muito com esta carta e mandou-lhe responder o seguinte.
„Advirto ao Snr sacristão Schmidt, 1° que quem quizer cantar compre o livro; advirto ao Snr sacristão Schmidt, 2° que quem quizer aquecer-se póde comprar lenha; advirto ao Snr sacristão Schmidt, 3° que a balaüstrada que dá para o rio não é da sua conta; em fim advirto ao Snr sacristão Schmidt, 4° que não quero ter correspondencia com ele.‟ (RτQUETE, s/d, p. 28, grifos do autor).
Portanto, é perceptível que Roquette soube utilizar-se muito bem do elemento perigráfico nota de rodapé, fazendo uso em diversos momentos e para variados fins, complementando seus pensamentos, facilitando a leitura dos leitores e influenciando de forma didática o aprendizado daqueles que buscavam escrever determinadas cartas.