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Conceptual model for Papers 1-4

Papai fazia todo o possível para curar meu espírito rebelde, mas não adiantava. Eu me curei observando meu comportamento e olhando o que eu fiz de errado. Por que será que papai não apoiou minha luta? Por que falhou quando tentou me oferecer auxílio? A resposta é: ele usou os métodos errados. Ele sempre falou comigo como se eu fosse uma criança passando por uma fase difícil.

(O diário de Anne Frank – FRANK, 2015, p.396) Para alguns adultos, a adolescência é vista como uma fase difícil que vai passar. Porém, pensar dessa maneira é desconsiderar a realidade que a constitui como um momento singular, com as suas especificidades e como uma realidade que salta aos olhos e se exibe, querendo ser vista. Cada vez mais a adolescência se afasta da ideia de uma fase passageira e se alonga indeterminadamente, se tornando um estar quase permanente na sociedade contemporânea.

A ideia de fase, contudo, não surge por acaso. Para além de uma lógica biológica, ela se relaciona socialmente à finalidade que passa a ser dada à adolescência na sociedade moderna, adiando a entrada na vida adulta e criando um limbo em que não é permitido ser criança e, muito menos, ser adulto. Contardo Calligaris (2013) é um dos principais autores que aborda a adolescência considerando esse aspecto social, segundo ele, um adolescente assimilou os valores sociais compartilhados pela comunidade onde vive; possui um corpo amadurecido para que possa efetivar e praticar o que esses valores propõem. Porém, a comunidade irá impor a eles uma moratória, não os autorizando a realizar tais valores e a competir de igual para igual com um adulto.

Em outras palavras, “ele se torna um adolescente quando, apesar de seu corpo e espírito estarem prontos para a competição, não é reconhecido como adulto” (CALLIGARIS, 2013, p.15). Maria Rita Kehl (2005, p.91) compartilha desse posicionamento afirmando que:

A adolescência na modernidade tem o sentido de uma moratória, período dilatado de espera vivido pelos que já não são crianças, mas ainda não se incorporaram à vida adulta. O conceito de adolescência é tributário da incompatibilidade entre a maturidade sexual e o despreparo para o casamento. Ou também, do hiato entre a plena aquisição da capacidade física do adulto – força, destreza, habilidade, coordenação etc. – e a falta de maturidade intelectual e emocional, necessária para o ingresso no mercado de trabalho. Ainda nesse sentido das condições atuais da sociedade que levam a esse adiamento da vida adulta, Luciana Coutinho (2009, p.81) acrescenta:

Pede-se a eles um tempo de espera, de adiamento da entrada no mundo social justamente porque não há um lugar predeterminado para eles, tendo em vista a complexificação do processo de formação profissional aliada ao declínio da ética do trabalho e da produção, bem como dos ideais ligados ao casamento e à família.

Para esses autores, os adolescentes vivem a contradição imposta pelo desejado ideal de autonomia e a continuação de sua dependência, levando-os a reagir a isso que acreditam ser uma injustiça.

Importa ressaltar que essa é uma realidade da classe média e superior, entre a população mais pobre a ideia da adolescência como uma moratória não se delineia de maneira tão visível. Segundo o censo de 201411, por exemplo, 17,4% dos jovens entre 15 e 17 anos estavam fora da escola, desses, cerca de 60% dos homens trabalhavam ou estavam à procura de emprego e um terço das mulheres havia engravidado durante o período escolar. Considerando que a noção na qual a sociedade impõe uma moratória aos jovens, justifica-se, principalmente, pelo não acesso

11Disponível em: <http://www.institutounibanco.org.br/aprendizagem-em-foco/5/>. Acesso em: 18 de janeiro de 2017.

a empregos e adiamento na constituição de família, entre as classes menos favorecidas esses fatores muitas vezes não são uma realidade.

Diante desse contexto, não significa que a maternidade e o trabalho determinem a esses sujeitos uma condição de adultos. É preciso considerar que, nesses casos, a adolescência é perpassada por outras questões que se sobressaem, não sendo essa abordagem relativa à moratória a mais adequada. Nesse contexto, dos autores apresentados, Maria Rita Kehl (2008) consegue se aproximar desse recorte social, possuindo um estudo voltado para a questão da maternidade e de outros que abordam culturas periféricas.

Com relação à duração da adolescência, Calligaris (2013, p.19) afirma o seu início relacionado à puberdade e o seu fim como incerto. Reconhece que as transformações trazidas pela puberdade têm efeitos consideráveis sobre o sujeito, “mas essas mudanças só acabam constituindo um problema chamado adolescência na medida em que o olhar dos adultos não reconhece nelas os sinais da passagem para a idade adulta” (CALLIGARIS, 2013, p.20).

Para Calligaris (2013), a finalidade da adolescência para o jovem é poder se tornar adulto; ela é o caminho. Com as mudanças no corpo a partir da puberdade, a imagem do adolescente se transforma e ele acredita ter perdido, junto com a sua infância, o amor dos mais velhos. Na falta de um ritual bem demarcado de entrada na vida adulta, o adolescente busca no olhar dos adultos a resposta para a sua condição. Não sendo reconhecido como criança nem como um igual, passa a se perguntar o que os adultos querem e esperam dele (CALLIGARIS, 2013). Dessa forma, o adolescente busca essa entrada no mundo adulto, tentando interpretar o desejo dos adultos e atuar de acordo com esse desejo. No entanto, dessa tentativa deriva um embaraço que causa tantos conflitos entre as duas gerações:

Quanto mais a interpretação do desejo dos adultos for certeira, mais esse projeto fracassará. Nesse caso, a transgressão adolescente presenteia os adultos com uma imagem que justamente eles querem reprimir. O erro dos adolescentes (erro em relação à sua própria estratégia) é pensar que para os adultos possa ser agradável encontrar uma encenação de seu próprio recalque. (CALLIGARIS, 2013, p.41)

A partir do exposto, percebe-se que o lugar que o adolescente ocupa, exibe algo que o adulto quer esquecer, pois precisou reprimir esse desejo para tornar-se adulto. Nas palavras de Maria Rita Kehl (2008, p.7), “nós outros, adultos ou velhos, nos vemos neles como num espelho distorcido que reflete o que já deixamos de ser, o que seríamos se ainda nos sentíssemos capazes, e o que recusamos terminantemente a ser”. Incomodados, os adultos acabam por negar o reconhecimento desse desejo como algo deles próprios e, por consequência, tendem a reprimi- lo no adolescente.

Considerando a dimensão inconsciente, o desejo, na maioria das vezes, não estará explícito. Tentar captá-lo é pensar na história de cada um/a. Assim, haverá respostas e interpretações diferentes, na tentativa de se descobrir o que um adulto quer de um adolescente; “as condutas adolescentes, em suma, são tão variadas quanto os sonhos e os desejos reprimidos dos adultos” (CALLIGARIS, 2013, p.33).

Da mesma forma, a adolescência não será a mesma ao longo dos anos; os caminhos percorridos pelos adolescentes, a partir da interpretação do desejo dos adultos, mudam de acordo com a época e os ideais culturais valorizados nos diferentes lugares onde transitam. Calligaris (2013, p.67) reconhece a adolescência como um “derivado contemporâneo da infância moderna”. Segundo ele,

As visões de infância e adolescência se opõem como um erotismo alusivo se opõe à pornografia. Olhamos para a infância como promessa. Procuramos na visão da adolescência o clipe de nossos gozos.

[...]

O adolescente não é só um ideal comparativo, como as criancinhas. Ele é um ideal possivelmente identificatório. Os adultos podem querer ser adolescentes. (CALLIGARIS, 2013, p.69)

Ao interpretar o desejo dos adultos contemporâneos, o adolescente encontra a si mesmo como ideal. Na porta de entrada para a vida adulta, se depara com um espelho de sua própria vida intensamente idealizada. Essa é uma das principais questões que se apresentam na atualidade: há uma grande lacuna no lugar da transmissão que permitiria ao adolescente crescer. Na ânsia em rejuvenescer, a posição do adulto na sociedade pós-moderna tem sido constantemente desocupada. Tudo isso associado a uma cultura que contribui com uma idealização da juventude e vende esse modelo de vida a quem quiser e puder comprá-lo, como será exposto a seguir. As diversas consequências disso começaram a ser sentidas nas duas últimas décadas, configurando as discussões do próximo item.

2.4. O espelho na porta: a adolescência contemporânea como ideal cultural e sintoma