3.3 Politics of Identity/political Ethnicity
3.3.2 The Conception of Minority and Indigenous People, their Claims and African
O conceito de identidade na modernidade é visto como móvel, múltiplo, pessoal, auto-reflexivo, sujeito a mudanças, não podendo ser interpretado como um processo acabado, mas em construção e cheio de tensões (HALL, 2002). Para Ciampa (1987), a identidade é entendida como um processo de construção, de representação de si, considerando o contexto social e a historicidade, pois não existem identidades que não passaram por mudanças ao longo dos anos e, quando isso ocorre, elas mudam influenciadas pela forma como se é visto e interpretado pelos outros. Assim, a construção da identidade é um fenômeno social, relacional, uma vez que é no contexto das relações sociais que se configura e se metamorfoseia.
Nessa perspectiva, visualiza-se o jovem do Assentamento Poções inserido em diversas dimensões: o substantivo próprio que nomeia o ser; a posição social e da família; o ser membro de uma comunidade; a perspectiva geográfica e histórica e as relações de poder em uma sociedade e as expectativas de futuro de um grupo. Essas predições são compreendidas, inclusive, como negação do ser e uma forma de determiná-lo (CIAMPA,1987).
Assim, esse jovem é membro de uma coletividade relacionando-se com os demais sujeitos em diferentes contextos, assimilando o que é produzido e ao mesmo tempo produzindo. Embora a identidade seja representada pelo nome e outras predicações - símbolos que nos representam e que nos dão a ilusão de
substância, de algo imediato e imutável - ela não é um objeto dado, idêntico a si próprio e reconhecido como uma característica do psiquismo do indivíduo estático, ela é um processo (CIAMPA,1987).
Nesta perspectiva, o indivíduo, ao nascer e ao ingressar no grupo social é associado com um conjunto de expectativas, representações prévias que, internalizadas, constituem a identidade pressuposta. Quando mantidas pelo grupo e repetidas pelo sujeito, ocorre o processo de reposição. No entanto, o sujeito pode se contrapor a esse processo construindo uma história diferente, podendo ocorrer a superação. O grupo social e os significados atribuídos por este às circunstâncias ou aos momentos da vida apresentam grande importância para a sua construção. A identidade envolve a identificação (igualdade) em relação ao grupo social, mas passa também pela diferenciação do indivíduo singular em relação ao grupo.
Castells (2000, pp. 22, 23) relata que a identidade é:
(...)um processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, os quais prevalecem sobre outras fontes de significados. (...) As identidades constituem fontes de significado para os próprios atores, por eles originadas, e constituídas por meio de um processo de individuação.
Isso torna toda e qualquer identidade resultante de uma construção, que tem como objetivo organizar significados que se mantenham ao longo do tempo, em um determinado espaço e em um contexto social e político fortemente marcado por relações de poder.
Sendo assim, Castells propõe uma distinção entre três formas e origens de construção de identidades:
Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais; Identidade de resistência: criada por atores que se encontram em posições/ condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos; Identidade de
cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social. (CASTELLS, 2000, p. 24).
Para o autor a identidade legitimadora está em crise estrutural. Sendo assim, a identidade de projeto traz consigo a expectativa de que seja capaz de reconstruir a sociedade ou partes dela. Seguindo esta tendência de ampliação da identidade
de projeto no mundo globalizado, poderia esperar que o jovem do Assentamento
Poções pudesse empenhar-se em conquistar posições sócio-ocupacionais e políticas no espaço social, que o levasse a uma redefinição de sua relação com os demais segmentos sociais presentes na sociedade como um todo, criando novas perspectivas de possibilidades de inserção social. Como enfatiza Velho (2003, p.44),
nas sociedades complexas modernas a multiplicação e a fragmentação de domínios associadas às variáveis econômicas, políticas, sociológicas e simbólicas, constituem um mundo de indivíduos cuja identidade é colocada permanentemente em xeque e sujeita a alterações drásticas. (...) O trânsito intenso e freqüente entre domínios diferenciados implica adaptações constantes dos atores (VELHO, 2003, p.44).
No caso dos jovens do Assentamento Poções, novos desafios são colocados para aqueles que estão cada vez mais inseridos num mundo globalizado, onde suas experiências falam ao mesmo tempo de uma identidade local, mas que recebe influências de lugares diferentes e distantes da sua realidade.
Influências essas que se dão, principalmente, pelo acesso dos jovens do Assentamento Poções ao mundo e ao significado do que é “ser jovem” no mundo atual, por meio da televisão, do rádio e, até mesmo, pela Internet, que veicula imagens, apresenta novas regras sociais, cria e marca padrões de comportamento, moda, estilo de vida, inclusive direcionando para a própria juventude programas específicos. Portanto, na trajetória do jovem do Assentamento Poções verifica-se o surgimento de interesses e valores diversos e conflitantes que expressam a conformação de uma diferenciação social e econômica interna e a presença de grupos sociais heterogêneos, redefinindo os padrões culturais e o modo de vida desses jovens.
Entende-se, também, que a identidade é um processo e não um produto acabado. Um processo contínuo que nunca se completa, subjetivando-se em seu espaço e tempo. Assim, o jovem do Poções é membro de uma coletividade relacionando- se com os demais sujeitos e diferentes contextos, assimilando o que é produzido e ao mesmo tempo produzindo. Nesta perspectiva, faz-se necessário a análise de seus espaços de trabalho, de socialização e alternativas de lazer que fazem parte do seu cotidiano, mesmo que essas práticas sejam limitadas pela falta de recursos.