4. Estudio de campo
4.3. Las condiciones semánticas del uso de ser y estar: un experimento
4.3.1. Oraciones que deberían ir con ser
4.3.1.2. Con adjetivos donde ser es posible, pero no obligatorio
Como vimos, há na filosofia de Husserl uma nova tentativa de se equilibrar os anseios empiristas com as descobertas idealistas. O empirismo, por mais criticas que caibam a seu método, deseja um contato direto com as coisas, por isto seu foco na experiência, quando que o idealismo já havia descoberto o quanto estas experiências apenas relatam aquilo que nossa subjetividade havia produzido. Porém o conhecimento não pode por um lado se prender a ingenuidade de ter o objeto como ele é, da coisa em si, e nem pode abster de contato com a realidade, encerrando-se apenas em sua subjetividade.
2
“Toda interpretación que pretenda darles por bases vaguedades empíricas, que pretenda hacer dependiente su validez de <circunstancias> vagas, alterará de raíz su verdadero sentido.” (Husserl 1929: 77)
A filosofia transcendental de Kant há alguns séculos já havia proposto a união destas duas correntes, uma união critica de ambas, influenciando diretamente a filosofia de Husserl. Embora o termo transcendental não tenha surgido na filosofia Kantiana, esta deu a este termo sua significação mais consagrada a partir da modernidade.
O termo Transcendental possui uma história que vem desde a filosofia da idade média, onde este termo ainda coincidia com o termo transcendente, Kant, fazendo parte desta tradição que lentamente mudaria o significado do termo, faz criticas pontuais ao antigo conceito de Transcendental. Kant não concorda com o uso do termo transcendental como indicativo de propriedades pertencentes às coisas em si, como vinham fazendo as filosofias que o precederam, para Kant transcendental não são as propriedades do objeto, como enumerou Tomás de Aquino: ens, res, unum, aliquid, bonum, verumi. Kant considera transcendental justamente o conhecimento daquilo que é condição de percepção de uma coisa e não as propriedades desta coisa, ou seja, é transcendental o conhecimento de conceitos a priori, ou de categorias, pertencentes apenas a nossa subjetividade.
Immanuel Kant, em sua principal obra, Crítica da Razão Pura, define sua filosofia como Transcendental: “Chamo transcendental a todo o conhecimento que em geral se ocupa menos dos objetos, que do nosso modo de os conhecer, na medida em que este deve ser possível a priori.” (Kant 1985: 53). Uma filosofia transcendental deve se importar com o nosso modo de conhecer e com o modo que leva em consideração apenas aqueles conteúdos ditos a priori, excluindo aqueles que não forem a priori, ou seja, os conteúdos a
posteriori. A distinção entre o conhecimento a priori e a posteriori já caracteriza
suficientemente a filosofia transcendental. É considerado um conhecimento a priori aquele conhecimento que independe de toda a experiência sensível, quer dizer, é um conhecimento inerente à natureza do ser humano, por exemplo, o conhecimento de que para todo efeito existe uma causa. Ao contrário, a posteriori é todo conhecimento adquirido a partir da experiência sensível, empírica, como por exemplo, o conhecimento de que o fogo queima.
Transcendente é tudo aquilo “que está além de determinado limite” (Abbagnano 1999: 973). Dentro da filosofia podemos localizar este limite em nossa própria faculdade de conhecer, assim, transcendente é tudo aquilo que está além do limite de nossas faculdades intelectivas. Kant nos exemplifica como uma idéia transcendente, como a idéia de Deus, ultrapassa tanto nossa experiência quanto nossa compreensão: “Porém, é totalmente
impossível sair por si mesmo de um conceito e, sem seguir o encadeamento empírico (pelo qual apenas são dados fenômenos), chegar à descoberta de novos objectos e seres transcendentes.” (Kant 1985: 530). Os objetos são percebidos a partir dos dados que nos chegam pelos sentidos (tato, paladar, audição, visão e olfato) e exclusivamente a partir destes dados que nos chegam. Não sendo possível perceber um ser transcendente, existente fora de nossa subjetividade, apenas estando de posse de um conceito que o postule existente. Por exemplo, se eu digo: “existe um unicórnio vivo”, mas não possuo qualquer dado sensível que fundamente meu postulado, logo este unicórnio nunca se tornará uma presença transcendente a mim. Na verdade o ser transcendente já configura uma impossibilidade dentro da filosofia de Kant, pois o termo transcendente implica exatamente aquilo que se encontra fora da experiência possível. Transcendentes acabam sendo aquelas filosofias às quais Kant se opõe, como a teologia, a metafísica e o empirismo, que propõem um conhecimento objetivo dos objetos transcendentes. Como conclusão, em seu Apêndice à
dialética transcendental Kant diz:
O resultado de todas as tentativas dialéticas da razão pura não só confirma o que provamos na analítica transcendental, a saber, que todos os nossos raciocínios que pretendem levár-nos para além do campo da experiência possível são ilusórios e destituídos de fundamento, mas também nos esclarece esta particularidade, que a razão humana tem um pendor natural para transpor esta fronteira... (Kant 1985: 533)
Husserl acata as descobertas de Kant, porém segue por outras trilhas, mesmo que ainda transcendentais. Na fenomenologia podemos contar com três modos de existência na consciência: o transcendental, que se assemelha com o que vimos em Kant; o transcendente, que difere do conceito Kantiano exatamente pelas diferenças pertinentes a estas duas filosofias; e um terceiro modo, o imanente.
Transcendental, como vimos, se refere ao caráter a priori da consciência, aos conteúdos que determinam nosso modo de conhecer. Na fenomenologia caracterizamos o nível transcendental como pólo ativo de nossa consciência. Por transcendente vamos caracterizar um certo produto desta consciência transcendental ativa, que são os objetos transcendentes, objetos pertencentes ao mundo exterior, possuem peso, dimensões e etc. A diferença em relação ao conceito Kantiano é salutar. Isto é explicado pela atitude fenomenológica, que atrela seus conceitos ao modo como a vivência se apresenta, pois se os objetos nos afiguram distantes e desatrelados de nosso corpo, estão portanto
ultrapassando, em um sentido, a realidade imanente de nossa consciência, a consciência projeta estes objetos para além dela, portanto, transcendentemente. Transcendentes são:
... todos los actos dirigidos a essências o a vivencias intencionales de otros yos, de yos con otras corrientes de vivencias; asimismo todos los actos dirigidos a cosas, a realidades en sentido estricto, pero en general, como se mostrará aún. (Husserl 1949: 86) Lo transcendente no es aquello de lo cual no se puede tener ninguna experiencia sino aquello de lo cual no hay experiencia inmediata. (Szilasi 1973: 151)
Ao invés de uma impossibilidade, como vimos na filosofia de Kant, a transcendência passa a ser, na fenomenologia, um modo de aparecer de certos objetos, pois, do que nos é impossível averiguar, como a idéia de Deus, ou os fenômenos em si, não há ciência, mas pode haver ciência de tudo aquilo que nos afigura de tal e qual maneira, e para a fenomenologia interessa o modo particular da constituição desta realidade. Assim na fenomenologia os objetos transcendentes são aqueles constituídos a partir dos sentidos, durante uma vivência atual, como o doce, o guarda-chuva, o som do trem, etc. possuem um modo transcendente, em contraposição à lembrança destes mesmos objetos pois a lembrança não se exterioriza, não se confirma no mundo exterior. Como a constituição de todo e qualquer tipo de conteúdo, objetal, emocional, racional, se dá transcendentalmente, o transcendente não pode se formar imediatamente, ele deve se constituir transcendentalmente para depois poder participar da modalidade transcendente, caso se trate de um objeto desta vivência atual. Quer dizer, o objeto transcendente é transcendental, porém, é um transcendental projetado para além de sua esfera. O que classifica o objeto transcendente não é apenas o fato dele se encontrar em uma vivência atual, mas o fato de estar em uma vivência atual e também possuir características espaciais e uma marca que caracteriza sua existência como externa ao nosso fluxo imanente, mesmo que em última instância este fenômeno pertença ao fluxo imanente total. São transcendentes todos estes objetos que lidamos no dia-a-dia, em vivências por assim dizer, concretas.
Imanência diz respeito ao “eu", acontece que, em última instância, todos os modos, transcendental, transcendente e imanente, de uma maneira ou de outra se relacionam ao “eu”, entendido como unidade do fluxo de consciência. A imanência pode tanto ter este significado mais abrangente da referência ao eu quanto um significado mais restrito, como quando tratamos de objetos intencionais específicos: “Al cogito mismo es inherente, como
inmanente a él, un ‘mirar a’ el objeto, que, por otra parte, brota del ‘yo’, el cual no puede, pues, faltar nunca.” (Husserl 1949: 83). Husserl define a modalidade imanente, ou como ele denomina, as vivências intencionais de referência imanente: “...aquellas a cuya esencia es inherente que sus objetos intencionales, se es que existen, pertenecen a la propia corriente de vivencias que ellas mismas.” (Husserl 1949: 86). O objeto imanente está atrelado essencialmente ao fluxo de vivências, como a imagem do lembrado, ela começa e se encerra no interior da consciência, não há projeção da imagem memorada no campo transcendente, ela não se mistura ao mundo, e quando estão fundadas a partir de objetividades, como no caso das volições ou ajuizamentos, eles mesmos, os sentimentos e ajuizamentos, todos permanecem no nível imanente.