Durante a implantação de Brasília, uma nova fase da história local se iniciou, com a vinda em massa de pessoas que se dedicariam a construir a cidade. Do ponto de vista ambiental, o impacto foi grande: a terraplanagem e a remoção da vegetação nativa foram duas das primeiras medidas tomadas para a construção da capital. Somando ao acréscimo de poeira em suspensão no ar, o clima quente e seco do sítio, temos uma cidade a princípio inabitável. Foi por causa deste início que Bernardino Jardim de Oliveira (apud ALENCAR 2004, p. 5), um dos primeiros chefes da Novacap, disse que “o verde foi o mais importante fator de fixação do homem nesta cidade.”
Em decorrência da retirada abrupta de grande quantidade de vegetação, o sítio da construção de Brasília ficou extremamente seco, ameaçando mesmo a sobrevivência de outras espécies e a qualidade de vida, como nos conta ALENCAR (2004, p. 5):
As condições inóspitas que essa cidade tinha a tornavam quase inabitável; havia poeira na época de seca, com redemoinhos (...) a umidade do ar era baixíssima. Isso aqui não tinha nem vida microbiana, morria um cachorro na beira da estrada, e ele quase mumificava, porque não tinha mosca, não tinha vida microbiana. Aquela luminosidade excessiva, não havia pássaros, a cidade era muda... Quem corrigiu tudo isso? Foi o verde.
A primeira tentativa de arborizar a cidade foi infrutífera; o desconhecimento sobre o meio ambiente local – segundo ALENCAR (2004, p. 7), “cerrado nessa época parecia uma coisa pejorativa, uma barbaridade” – levou a Novacap a trazer espécies de outros climas e tentar implantar aqui. Novamente segundo ALENCAR (2004, p. 5):
Tudo que foi plantado antes de 1970 desapareceu. Morreram tantas árvores entre 1975 e 1976, que um deputado foi para a tribuna da Câmara Federal propor a volta da capital para o Rio de Janeiro... Como uma cidade em que nem as árvores viviam poderia ser a capital do país?! A repercussão política diso para Brasília foi extremamente negativa.
Para SALLES (2006, passim)110, havia, na época da construção de Brasília, um desconhecimento acerca da vegetação da região, bem como de sua importância para o clima local; a diretora do Jardim Botânico afirma que hoje se sabe que a vegetação típica do cerrado, com suas raízes profundas, é responsável por bombear água dos lençóis freáticos subterrâneos e lançá-la na atmosfera, amenizando a seca da região.
QUEIROZ (2006, p. 15)111 acredita que a paisagem natural não foi mantida porque havia necessidade de correr com as estruturas físicas, de modo que a vegetação foi retirada antes mesmo de ser estudada. Segundo QUEIROZ (2006, passim), a pressa – Brasília começou a ser construída em 1957, com a previsão de estar concluída em 1960, prazo extremamente apertado – teria sido um dos motivos que levaram a equipe responsável pela construção da cidade a desmatar amplamente a região. Somaram-se a esta pressa o desconhecimento de então sobre a fauna e flora locais, apontado tanto por SALLES (2006, passim) quanto por QUEIROZ (2006, passim), e o desconhecimento geral sobre o papel do meio ambiente, em especial na realidade do cerrado.
Ao começar a construção da cidade, portanto, uma das primeiras medidas foi o desmatamento da região, a retirada de toda camada superficial dos terrenos que seriam ocupados pelas vias principais das cidades, para que pudesse ser feito o nivelamento do terreno. As primeiras quadras que então começavam a ser construídas passaram pelo mesmo processo. Após o desmatamento, foram traçados no chão da cidade seus dois eixos principais. Seguiram-se os prédios centrais e o começo da construção da Asa Sul.
Cabe ressaltar que, embora toda a cidade estivesse ainda por construir, a prioridade dos construtores era a de determinar o caráter da cidade em suas formas gerais, mais do que construir cada um dos edifícios. Naturalmente, com o pouco tempo disponível para a construção, e considerando que Brasília incluiria diversos conceitos diferentes dos das outras cidades, a prioridade deveria ficar com a estrutura urbana e a definição dos códigos que norteariam o desenvolvimento arquitetônico, segundo QUEIROZ (2006, p. 7). Dentre estes conceitos, QUEIROZ (2006, p. 8) cita que:
quando começaram a fazer Brasília acho que havia uma tendência de preencher, isso que na verdade era compreendido (...) como os vazios urbanos, quando na verdade, Brasília inverte
110 SALLES, A. Entrevista concedida pela diretora do Jardim Botânico de Brasília. Brasília, 20 fev.
2006. A íntegra da mesma se encontra no Anexo II.
111 QUEIROZ, C. Entrevista concedida pelo professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de Brasília e ex-superintendente do IPHAN. Brasília, 01 fev. 2006. A íntegra da mesma se encontra no Anexo I.
um monte de coisa. Eu quero dizer que no rol das fundamentais, essa questão era a que contava, era inverter a característica de que o espaço entre um prédio e outro fosse um vazio urbano, mas o espaço entre um prédio e outro contava em Brasília como espaço urbano. Para QUEIROZ (2006, p. 12), a escala bucólica, a escala do verde, era fundamental para o caráter de cidade-parque de Brasília; no entanto, não havia, na época, “reflexão intelectual pra pensar na preservação das espécies nativas, da natureza do cerrado”. De fato, há um consenso de que o conhecimento necessário para a valorização da natureza local ainda não existia na época da construção da cidade; este desconhecimento, aliado à pressa da construção, causou a remoção exagerada da vegetação local, alterando assim parte do ciclo natural local.
Para reverter esse quadro, segundo SALLES (2006, p. 1), a cidade contou com a vinda de um grande número de instituições científicas, o que fez com que o conhecimento gerado sobre esse espaço aumentasse rapidamente. Assim a transferência da capital para Brasília, seguida por suas instituições de pesquisa, serviu para amenizar o desconhecimento sobre o bioma cerrado.
Com o passar do tempo e o acúmulo de conhecimentos, a Novacap passou a introduzir espécies nativas na arborização urbana. Segundo ALENCAR (2006, p. 7) 80% do que se planta hoje no DF é de espécies nativas. De acordo com atualmente. De acordo com ela, 90% da área do DF estaria protegida sob alguma legislação ambiental, mais ou menos restritiva.
O DF já passou pela situação de desconhecimento total sobre seu ecossistema, pela devastação de espécimes nativos, pela rearborização com espécimes exóticos, pela proteção da maior parte de seu território e pelo replantio de espécimes nativos, mas para SALLES (2006, p. 1), “não houve um trabalho de conscientização da população ao mesmo nível que existe um trabalho de preocupação com a proteção”. Ela cita que embora atualmente a população esteja ciente da importância da preservação ecológica, e embora o tema conte com a simpatia de muitos, para ela “há uma diferença entre ter a informação e se conscientizar de que precisa de uma mudança de hábito. Essa consciência não existe. Existe o conhecimento, existe a informação” (SALLES, 2006, p. 4). A observação da diretora do Jardim Botânico de Brasília se alinha à opinião de SPIRN (1995, p. 78) de que “esses processos [naturais] são mais conhecidos do que nunca, mas este conhecimento raramente é aplicado”.Tornar essa conscientização presente é a próxima esperança de mudança nas visões de natureza em Brasília.