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Miguel Stedile1

O cinema mais próximo das famílias assentadas em Candiota (RS) fica a 45 quilômetros de distância da cidade. Situação não muito diferente dos moradores de Igarapé do Meio (MA), distantes mais de 200 quilômetros da capital, São Luís. As duas localidades estão entre os 98% de pequenos mu- nicípios sem acesso a salas de cinema. Mas, desde 2005, estas comunidades passaram a fazer parte de outra lista, aquelas que receberam exibições cinematográficas do Cinema na Terra.

Enquanto no país existem menos de duas mil salas de cinema, concentradas em 10% dos municípios, o Cinema na Terra foi organizado pelos setores de Comunicação e Cultura do Movimento Sem Terra para levar filmes justamente aonde eles são menos acessíveis, as áreas rurais.

Em seu primeiro ano, entre 2005 e 2006, o Cinema na Terra realizou sessões para 75 mil pessoas em 126 municípios,

1 Coordenador do Instituto de Educação Josué de Castro, em Veranópolis

(RS), e integrante do grupo de pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais (MPAS). Mestre em História pela UFRGS.

um número superior ao público formal de filmes nacionais, na mesma época, como Cidade Baixa ou Cinema, Aspirinas e

Urubus. Nascido, inicialmente, com patrocínio, o que permitiu

a aquisição de equipamentos e a formação de monitores em dez estados, suas exibições se tornaram práticas e ganharam vida própria.

Na origem, os Setores de Comunicação e Cultura do MST providenciaram a aquisição de equipamentos de som e vídeo acoplados em uma caixa com rodas, o que permitia seu deslocamento. No primeiro momento, os filmes utilizados ainda eram em VHS. Agora, com a difusão e a popularização dos DVDs e das versões digitalizadas, as exibições podem ser feitas a partir de notebooks e outras mídias, como pen drives.

Porém, a tecnologia do Cinema na Terra não reside em seus equipamentos, mas na forma de organização das exibições. A intenção é não transformar o público em mero espectador. Para isso, a tarefa dos organizadores é vista como a de educa- dores populares. Não basta chegar na comunidade e exibir os filmes. A escolha das projeções passa pelos temas de interesse e de relação dos assentamentos e acampamentos, como no caso do documentário O veneno está na mesa, sobre o uso de agrotóxicos e a agroecologia.

A preparação para exibição inclui desde a checagem do material e do equipamento – se as fitas ou DVDs estão em boas condições de imagem e som, se a voltagem local é com- patível com os equipamentos, se não haverá interferências de vento e luz etc. A preferência é por locais fechados (salas, salões comunitários etc.), porém, diante desta impossibilida- de, os responsáveis buscam alternativas para que não tenha interrupção de trânsito ou ruídos. Os espaços abertos só são utilizados para projeções noturnas. As atividades são organi-

zadas em conjunto com a coordenação do assentamento ou acampamento, considerando o melhor horário para garantir maior participação. Se possível, as sessões combinam outras atividades locais, como mística, teatro ou poesia.

As sessões podem ser dirigidas, restritas a um grupo espe- cífico, como estudantes de um curso, ou abertas a todos, o que exige uma divulgação anterior que atinja toda a comunidade, pelos meios possíveis, desde cartazes em locais visíveis e de maior circulação de pessoas até a divulgação em reuniões ou através das rádios locais.

Antes de cada filme, o responsável apresenta a obra e após a exibição procura organizar um debate com os participantes. Segundo Cosme de Jesus, organizador do Cinema na Terra no Maranhão, os resultados são percebidos rapidamente. “Muitas comunidades têm se juntado e discutido seus problemas nas atividades com cinema”, explica. “Isso tem contribuído com novas ideias e melhorado a relação entre as comunidades, as pessoas estão se tornando mais participativas”, afirma.

Outra característica importante no desenvolvimento do Cinema na Terra está na sua vinculação com as outras ativi- dades e demandas da organização. Desta forma, para a pre- paração do VI Congresso do MST (2014) foram produzidos quatro pequenos vídeos para o trabalho de base, que eram utilizados como preparação para as reuniões nos acampamen- tos e assentamentos, em que se debatiam tanto os temas do encontro, quanto a forma de participação das famílias.

Muitas vezes o trabalho é realizado em conjunto com os centros de formação dos assentamentos, transformando o cine- ma em ferramenta pedagógica. Na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP), foram organizados ciclos de cinemas latino-americano e operários. Além disso, a

presença de estudantes de outros países permite o intercâmbio de produções e de experiências.

Desta maneira, o Cinema na Terra se converteu também em instrumento para aproximar os trabalhadores sem terras de outros setores sociais. Em Brasília, foram organizadas sessões em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados e com o Movimento Passe Livre. No Mara- nhão, a experiência estimulou a participação dos Pontos de Cultura na Rede Audiovisual Nordeste, buscando difundir a produção regional. No Rio Grande do Sul, uma das experiên- cias foi desenvolvida com os povos indígenas. “O vídeo A

Lenda das Queixadas foi produzido pelos próprios indígenas

que tiveram oportunidade de o assistir através do Cinema na Terra”, relata Tiago Sotilli. Na ocasião, mais de mil indígenas participaram da sessão durante as homenagens a Sepé Tiarajú, em São Gabriel.

Em Veranópolis (RS), as sessões ocorriam na praça da cidade, a menos de uma quadra onde o antigo cinema jazia, transformado em igreja pentecostal. Depois de uma inter- rupção por alguns anos, o projeto foi retomado, a pedido da Secretaria Municipal de Educação, nas áreas rurais do muni- cípio caracterizadas pela pequena agricultura.

Para ampliar a difusão dos vídeos e contribuir nos debates, os Setores de Comunicação e Cultura do MST montaram um

kit com 25 DVDs, reunindo 80 filmes, com temas amplos

desde a luta pela terra até a democratização da comunicação. As possibilidades tecnológicas têm permitido que os trabalha- dores não sejam meramente espectadores, apenas no sentido de debaterem as obras. A partir da formação de uma Brigada Nacional de Audiovisual, em parceria com a Via Campesina, o Movimento Sem Terra iniciou sua própria produção. Ví-

deos como “Lutar Sempre” (2007), sobre o V Congresso do Movimento, ou “Nem um minuto de silêncio” (2008), sobre o assassinato do agricultor Valmir Motta, o Keno – por seguran- ças da empresa Syngenta –, foram difundidos massivamente nas áreas de reforma agrária.

A disponibilidade destes kits supre uma demanda anterior. Nas primeiras experiências de projeções, o número de filmes disponibilizados era pequeno e dependia da iniciativa de cada Estado. Além disso, a fragilidade das fitas VHS, em especial, em relação à umidade, fazia com que se danificassem e se per- desse muitas produções de movimentos populares, mais difíceis de serem repostas. Além do acesso, a organização dos kits em DVDs temáticos permite a organização de ciclos específicos (luta pela terra, indígenas) ou a combinação deles, e a possibilidade de oferecer um mosaico maior de temas a serem trabalhados.

Desta forma, o Cinema na Terra contribui efetivamente para reduzir a divisão entre espectadores e produtores, estimu- lando a alfabetização estética e crítica, para que no audiovisual, como na reforma agrária popular, não haja distinções entre produtores e consumidores.

Para isso, o importante neste processo, ainda, é superar o fetiche pela tecnologia e a ideia de que ela por si só – no caso, a exibição dos filmes – é capaz de produzir mudanças de cons- ciência. A experiência do Cinema na Terra demonstra que isso só é possível com a junção de trabalho organizativo anterior – novamente, desde a escolha dos filmes, da divulgação na comunidade, da checagem dos equipamentos – e o trabalho pedagógico seguinte – identificando as questões-chave para aquela comunidade, preparando-se para incentivar o debate e ajudar a conduzi-lo para um objetivo de interesse daquele público participante.