8 Porter`s Five Forces
8.5 Competitive Rivalry
Embora a aposentadoria envolva perdas relativas à ruptura com o trabalho, dentre as quais podemos citar a perda de uma fonte de identidade, dos relacionamentos estabelecidos no ambiente laboral ou mesmo perdas financeiras, também envolve ganhos. Dentre os ganhos, a aposentadoria é vista como um tempo livre, período de dedicar-se ao lazer e outras esferas de vida, investindo principalmente nos relacionamentos familiares (França & Vaughan, 2008). Teriam esses ganhos perdido sua atratividade?
Várias pesquisas indicam que os trabalhadores atuais esperam, cada vez mais, continuar trabalhando durante a velhice. Por exemplo, França e Carneiro (2009) validando uma escala de fatores chaves para o planejamento da aposentadoria com 121 trabalhadores brasileiros acima dos 45 anos, observaram que 92% deles tinham interesse de continuar em atividade, a grande maioria no mercado formal.
Embora existam razões financeiras para este vínculo com o trabalho, por vezes elas se apresentam como razões secundárias (Carlos et al., 1999). Khoury et al. (2010) apontaram que, para 217 aposentados investigados, a principal razão de retorno ao trabalho se devia à necessidade de se sentir produtivo, seguida da necessidade de aumento da renda familiar, de conviver com outras pessoas, e de se sentir atualizado, sendo a diferença entre a primeira e segunda razão estatisticamente significativa.
Similarmente, em uma pesquisa qualitativa com 06 professores universitários aposentados que se mantinham em atividade, Moreira (2011) observou que a continuidade do trabalho não se devia a problemas econômicos, mas sim à satisfação pessoal, crescimento e aprendizagem, além do sentimento de liberdade, inserção, e contribuição social proporcionado pelo trabalho. Por sua vez, Cintra et al. (2010), em uma pesquisa qualitativa com 05 aposentados que trabalhavam de modo informal com a costura manual de sapatos em suas residências, observaram que a aposentadoria era vista
como uma maneira de ampliar os vínculos sociais, e vivenciar o trabalho de maneira mais leve, com autonomia e flexibilidade, e não apenas como uma oportunidade de complementar a renda.
Alguns estudos específicos sobre a temática do adiamento da aposentadoria foram desenvolvidos com servidores públicos. Romanini, Xavier, e Kovaleski (2005), em uma pesquisa mista com 35 funcionários de uma instituição pública brasileira, observaram que a dificuldade em deixar a vida profissional estava relacionada com o status social proporcionado pelo trabalho, e não com problemas financeiros. Já Cruz (2011), desenvolveu um estudo de caso quantitativo e descritivo com 104 servidores públicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de quatro regiões do país, que já tinham adquirido direito à aposentadoria sobre os motivos do adiamento. Os resultados sugeriram que o adiamento era motivado pela possibilidade de manutenção ou melhoria do salário, e pelo fato dos servidores ainda se sentirem produtivos. O autor ainda apontou que mais da metade dos servidores não se sentiam preparados para aposentadoria.
Menezes (2011) realizou um estudo quantitativo sobre os preditores que influenciavam a decisão de aposentadoria, com 148 servidores acima de 45 anos que pertenciam a um órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Os resultados evidenciaram que um terço dos participantes pretendia postergar a aposentadoria e continuar trabalhando. Regressões logísticas múltiplas indicaram que: a) a idade, a percepção do trabalho, a flexibilidade de horário e o controle do trabalho predizem a decisão de postergar a aposentadoria; b) a percepção do trabalho e a flexibilidade de horário predizem o bridge employment; e, c) a saúde percebida foi o preditor encontrado para a aposentadoria definitiva. O autor referiu que não encontrou relevância do fator financeiro sobre a decisão de aposentadoria dessa amostra.
Semelhantemente, Ribeiro (2012) desenvolveu um estudo com 73 servidores da FIOCRUZ pesquisando os motivos de permanência na instituição após a aquisição do direito à aposentadoria. Como resultado observou que 93% dos servidores pretendiam postergar a aposentadoria, sendo que 31,9% até a idade limite da aposentadoria compulsória (70 anos). Os principais motivos apontados pelos servidores foram: se considerarem produtivos (42,7%), as perdas financeiras (26,6%), sentirem prazer de trabalhar na instituição (18,5%), e receio de isolamento (6,5%).
Pires et al. (2013) desenvolveram uma pesquisa qualitativa por meio de entrevista semiestruturada com 17 profissionais de enfermagem, servidores de uma universidade do Rio de Janeiro, sobre os motivos de permanência nas atividades laborais apesar da possibilidade de aposentadoria. Após análise de conteúdo temática, os resultados revelaram que a principal influência dessa decisão era a questão econômica, seguida da apreciação do ambiente laboral e das atividades do trabalho. Os autores também apreenderam que a ocupação laboral era utilizada pelos participantes como estratégia contra a ociosidade e a monotonia do espaço doméstico, e que a aposentadoria não era desejada devido à percepção negativa dos sujeitos sobre a mesma.
Outros estudos encontrados abordam a temática do adiamento da aposentadoria de forma indireta, ou seja, não sendo o principal objeto de estudo apresentam algumas considerações sobre o assunto. Por exemplo, Bogoni (2009) em uma pesquisa qualitativa investigando os projetos de futuro de 15 sujeitos que participavam de um PPA, observou que a ideia de desistir da aposentadoria e permanecer trabalhando aparecia na fala de metade dos entrevistados. Observando que a permanência no trabalho não era justificada por razões financeiras ou por expectativas negativas a respeito da aposentadoria, atribuiu este comportamento à centralidade do trabalho e a influência do significado do trabalho na constituição da identidade do sujeito. Além disso, a dificuldade de elaborar alternativas
novas além do trabalho contribuía para que a fuga da aposentadoria fosse a alternativa para a manutenção da trajetória identitária.
Também Tolfo (2002), que se propôs em um artigo teórico a rever concepções de carreira profissional e formas de gestão adotadas em um contexto de mudanças, tratou de forma indireta sobre o adiamento da aposentadoria ao discorrer sobre o ambiente complexo do mundo do trabalho. Referindo-se às principais fases de carreira identificadas por Schein (1996), ela apontou que a aposentadoria tinha impactos diversos de pessoa para pessoa por ser a última fase da carreira, podendo se constituir em uma experiência traumática, assumindo conotações de incapacidade para produzir e, consequentemente, morte social. Concordantemente com Cruz (2011), Ribeiro (2012), e Pires et al. (2013), Tolfo (2002) afirma que o adiamento estaria associado a perspectivas negativas da aposentadoria, relativa à perda de status e de poder aquisitivo. Entretanto, argumenta também que os significados de cada etapa da carreira sofrem alterações refletindo o contexto atual do mercado de trabalho.
Sob o mesmo ponto de vista, Fonseca (2009), em um estudo sobre o significado do trabalho realizado com 12 servidores públicos federais acima de 50 anos, observou que o adiamento da aposentadoria estava relacionado a uma visão negativa da aposentadoria, e motivado por expectativas de perda financeira e pelo recebimento do abono de permanência. A decisão de aposentadoria era envolta por incertezas pela sua irreversibilidade
Em linhas gerais, esses estudos denotam a complexidade do relacionamento do homem com o trabalho, e das questões que são suscitadas ao se deparar com a decisão de aposentadoria. A divergência de alguns resultados apresentados não se deve apenas às diferenças metodológicas, e sim retratam a diversidade dos padrões que são encontrados. O prenúncio da aposentadoria nem sempre é visto pelo trabalhador como algo oportuno
no seu atual momento de vida. O trabalhar pode estar associado ao convívio com as pessoas, ao sentir-se produtivo, ao status, e não apenas à contrapartida financeira. Assim, podemos ver que a percepção de uma configuração atrativa para o exercício da atividade de trabalho estimula a permanência, e se tornou uma estratégia do trabalhador para evitar a monotonia de outros espaços.