2.2.1 “The utterance is an exceptionally important node of problems”
2.4 Compatibility of approaches
No discurso dos trabalhadores pôde-se depreender conteúdos que se referiam ao nível de satisfação destes com o trabalho no CAPS. Na atualidade, há uma forte
condução da política de saúde mental no sentido de viabilizar as transformações necessárias nas práticas em saúde mental, para atingir a substituição do modelo hospitalocêntrico, baseando-se na construção de uma rede de cuidados na comunidade. Assim, os agentes da atenção, os trabalhadores de saúde mental, são os principais responsáveis pela mudança. Diante do trabalho a ser realizado, os trabalhadores do CAPS expressam sentimentos contraditórios de satisfação ou insatisfação pelo trabalho que desenvolvem.
Em um primeiro grupo de frases, extraídas do discurso dos trabalhadores, observa-se que há um reconhecimento do CAPS como um serviço, cuja proposta institucional possibilita a realização das expectativas de trabalho dos sujeitos- trabalhadores:
“(...) o CAPS possibilita porque como ele já tem uma visão dinâmica mesmo, aqui eu me senti mais à vontade e eu acho que produzo mais resultado, por mais que seja difícil quantificar isso (...).”
“Quando eu venho [para o CAPS] e vejo uma auxiliar de enfermagem, que no [outro] CAPS aonde eu trabalho, jamais teria uma postura dessa (...) me deu assim, muita tranqüilidade de estar chegando num lugar onde eu queria.”
“Eu faço o CAPS porque eu acredito nisso, senão eu tava num ambulatório atendendo trinta [usuários] em três horas.”
“(...) no CAPS eu tô, por exemplo, em vários situações (...) dá pra fazer tudo isso nos pedaços em que eu estou (...) estou inteira, estou respondendo como analista (...) como pessoa (...) eu me sinto mais tranqüila.”
“(...) [o CAPS] tem um programa superlegal, eu não tenho uma visão ruim daqui (...) eu tô aprendendo muito (...) eu acho que [o CAPS] é um serviço de excelência, quando eu vim pra cá eu fiquei encantada, porque aqui o pessoal faz mesmo, não é só uma teoria é uma prática.”
“(...) quem trabalha em CAPS também está num lugar privilegiado [na rede] (...) eu trabalho aqui há pouco tempo, mas eu me sinto muito mais satisfeita trabalhando aqui do que trabalhando em UBS (...) talvez com o tempo eu vá me deparando com algumas dificuldades, mas por enquanto eu tô feliz.”
Em outros trechos do discurso, pôde-se extrair frases que se contrapõe a esta idéia, e consideram o trabalho do CAPS, por sua natureza, como um projeto de difícil realização:
família, amor, um pouco de dinheiro no bolso, saúde, é extremamente difícil (...).” “E depois lá no trabalho, na lanchonete, no começo foi muito difícil pra mim porque houve uma certa resistência deles [usuários] (...).”
“Acho que [no CAPS] às vezes a gente tem que atender muita gente, que a gente não se aprofunda (...) a gente fica num superficial.”
“(...) talvez a gente critique muito o CAPS (...) porque como a gente está em contato com o desafio, a gente sempre acha que poderia fazer a mais (...) é mesmo angustiante (...).”
Outras expectativas dos trabalhadores parecem estar relacionadas à possibilidade de desenvolver ações no interior do projeto institucional do CAPS, que contemplem algumas necessidades e desejos do próprio trabalhador:
“(...) eu gosto de trabalhar com grupos (...) quando o P [trabalhador] entrou [no CAPS] a gente começou a conversar, eu falei do meu desejo, ele também falou de um desejo dele de formar grupo, na época a gente estava na mesma miniequipe (...).” “(...) eu gosto muito dessa área [Previdência Social] porque pra mim é assim, tem que ter um começo, um meio e um fim (...) essa questão da resposta (...) nessa situação [de atenção] virá, ou do juizado especial ou da própria previdência (...) mesmo que seja uma resposta negativa (...) você tem uma resposta, não fica algo no meio do caminho, que pra mim, profissionalmente, isso é terrível.”
Especificamente nas frases citadas, essa possibilidade pode ser contemplada dentro da proposta institucional. Cabe salientar que, dependendo dos desejos dos trabalhadores, pode não haver coerência entre o que pretende o trabalhador e os objetivos do CAPS, gerando situações de conflitos institucionais.
Vimos que o trabalho humano é um processo no qual ocorre, simultaneamente, a transformação da natureza e do próprio homem, pois, ao realizar o processo de trabalho, o trabalhador realiza suas próprias necessidades e adquire saber, por meio da incorporação dos instrumentos de trabalho. Isto quer dizer que o trabalho pode produzir acréscimos aos sujeitos, como pode ser observado nos fragmentos do discurso dos trabalhadores do CAPS:
“Quando eu cheguei aqui [no CAPS] (...) eu disse: ‘Eu não vou ficar aqui só por conta do meu salário (...) se eu não sentir que eu quero ficar, que eu tô feliz, que eu faço qualquer diferença por mínima que seja’ (...) pra mim hoje eu sinto que já tá dando pra ficar.”
“(...) acabei entendendo outras coisas na minha vida estando aqui [no CAPS], esse contato com todos eles [usuários] (...) acabou me ajudando muito (...) talvez uma paciência que eu nem sabia que eu tinha, que acabei descobrindo aqui [no CAPS] (...).”
Em sentido contrário, identificou-se em outros trechos do discurso dos trabalhadores representações de sobrecarga acerca do trabalho no CAPS, implicando negativamente na vida pessoal e profissional dos trabalhadores e, dialeticamente, sofrendo influências destas:
“Trabalhar aqui [no CAPS] me desorganizou muito, porque eu tive que dar conta de muita coisa ao mesmo tempo (...) eu peguei como uma responsabilidade muito grande o consultório [odontológico] que a gente estava inaugurando um trabalho novo (...).” “(...) eu tô numa fase da minha vida que a clínica não tem me atraído muito (...) eu fico pensando, tanta coisa pra fazer, a minha disponibilidade interna tá muito pouca (...) é o trabalho que a gente precisa [no CAPS], do agenciamento, do corpo a corpo, de estar todo dia do lado (...) dependendo do momento da tua vida é muito difícil você entrar em contato [com a loucura] (...) a estrada que você tem que percorrer e o pique que você tem que ter, junto a essas pessoas, ele te desanima (...) eu estou completamente contaminada pelas minhas questões, pela minha vida, pelo meu desânimo (...).”
Percebe-se que o nível de insatisfação é diverso nas duas situações. No primeiro trecho, o trabalhador se sente desorganizado ao entrar em contato com uma situação desconhecida, que exige “dar conta de muita coisa” e angustia-se diante da nova prática a ser desenvolvida. A situação é diferente no segundo fragmento, pois, é diante da percepção de suas próprias limitações e do reconhecimento das necessidades da atenção, que o trabalhador “desanima”.
As duas situações apontam para necessidades de produzir sustentação ao trabalhador, seja no momento de entrada no serviço, quando ele se depara com uma nova realidade desconhecida, ou no acompanhamento cotidiano de um trabalho árduo, que pressupõe disponibilidade, responsabilidade e coloca o trabalhador diante de uma série de reformulações nos seus saberes e práticas.
Foi possível observar que, quanto ao nível de satisfação dos trabalhadores, há posições heterogêneas e contraditórias. A satisfação com o trabalho do CAPS esteve representada, principalmente, pela possibilidade dos trabalhadores desenvolverem suas práticas de acordo com o modo como vêem o projeto institucional. Outros indícios de satisfação estiveram relacionados às possibilidades do trabalho no CAPS contemplar desejos profissionais e proporcionar crescimento profissional e pessoal.
Em contrapartida, o mesmo projeto institucional é visto pelos trabalhadores como de difícil execução, além de exigir dos mesmos, níveis de disponibilidade, o que, eventualmente, geram muita insatisfação.