4 Encompassing tests for forecasts made by Statistics Norway
4.1 Comparison with random walk
Para Heidegger, a determinação da identidade da filosofia ocorre mediante a sua diferenciação com a ciência. O pressuposto que equipara filosofia e ciência provém do fato de podermos fixar elementos que são comuns a ambas. Muitos aspectos do saber são encontrados tanto na filosofia quanto na ciência, o que resulta na habitual afirmação de que, de modo semelhante à ciência, a filosofia é comportamento racional e investigativo, disciplina científica entre outras etc. Essa equiparação tem arrastado a existência filosófica por séculos. De acordo com Heidegger, todos os grandes filósofos procuraram elevar a filosofia à categoria de ciência, de uma ciência absoluta, admitindo, assim, a carência da filosofia de não ser precisamente ciência.
A afirmação de que a filosofia é ciência diz respeito a uma característica tipicamente do pensamento moderno. No período grego, nos primórdios da filosofia ocidental, observa Heidegger, o intuito era justamente oposto. A filosofia não recai no gênero das ciências. As ciências é que se mostram como “filosofias” de um tipo determinado201. Diante delas, a filosofia simplesmente foi designada por Aristóteles a pr t philosophia, a “filosofia primeira”.
A expressão “primeira” deve ser entendida, aqui, em sentido essencialmente originário. Normalmente “prima philosophia” é interpretada para designar a primeira disciplina em meio ao conjunto das disciplinas filosóficas, a disciplina que vem antes da ética e da estética. Para Heidegger, trata-se de compreensão equivocada, sobretudo quando a expressão é reinterpretada em sentido moderno, como “primeira ciência”, ciência originária. O autor desse erro fundamental é Descartes, que requisitou o antigo conceito de pr t
philosophia para fundamentar a filosofia como ciência, segundo o ideal da certitudo matemática, como a ciência propriamente dita do ser dos entes, e denominou expressamente
201 Os gregos dispõem do termo philosophiai, plural de filosofia. A matemática e a medicina, que já gozavam de
destacado florescimento no mundo antigo e de elevada autonomia, foram consequentemente denominadas de “filosofias” (Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 20).
sua obra capital de Meditationes de prima philosophia202. Em sua segunda obra principal, os
Principia philosophiae, Descartes tenta sistematizar de forma nova o conteúdo global da filosofia tradicional, associando, assim, a metafísica tradicional com a idéia peculiar, de filosofia primeira como ciência fundamental. Outros pensadores, como Kant e Hegel, também se empenharam no sentido de elevar a filosofia à categoria de ciência. Kant realizou o esforço velado em suspender essa conexão, com o intuito “não tanto de fundamentar nova metafísica em relação à tradicional, mas de romper a unificação cartesiana do ideal matemático de conhecimento com a metafísica tradicional”203. Seu propósito, porém, não foi mais reconhecido pelos sucessores. Mais recentemente, encontra-se também a tentativa de Husserl, para quem a filosofia é ciência, a única que funda a si mesma. Para Husserl, a tarefa da filosofia é oferecer fundamentação às demais ciências. Em sua reconhecida obra Philosophie
als strenge Wissenschaft, esforçou-se intensamente para transformar e fundamentar “a filosofia como ciência rigorosa”204. Ele pretendia construir uma filosofia nos moldes mais rigorosos da ciência, e que representasse o conhecimento puro e absoluto, com método radical apropriado e fecundo.
Assim, enquanto na Antiguidade procurava-se determinar as ciências como filosofias, na época moderna procurou-se determinar a filosofia a partir da ciência. Poderíamos simplesmente indagar: a filosofia ela mesma é uma ciência entre outras? É a ciência que
reúne as demais, que fundamenta todas as outras, ou é a ciência fundamental? Essas questões, para Heidegger, ainda se movem a partir do pressuposto geral de que, em todos os sentidos utilizados, a filosofia é ciência. E sua tese fundamental é a de que “a filosofia não é ciência”205. Não se trata, inicialmente, de “hipótese científica” que necessita ser comprovada cientificamente, mas de tese a ser demonstrada ao longo das considerações. Ela carece de esclarecimentos. O que isso significa?
Em princípio, Heidegger não pretende afirmar que, por natureza, a filosofia é não- científica, ou seja, que não pertence ao conjunto do saber acadêmico, que são em vão todos os esforços dos grandes filósofos, ao longo dos tempos, para elevá-la à categoria de ciência, que é absurdo o título “filosofia científica”, que é desprezível o empenho da fenomenologia (Husserl) para fundamentar a “filosofia como ciência rigorosa”. Não pretende dizer que falta
202
Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 21. Cf. também: HEIDEGGER, M. Que é isso – a filosofia? p. 31.
203 Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 22.
204 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 10. Essa intenção aparece na sua
obra que tem por título: Philosophie als strenge Wissenschaft, inicialmente publicada como artigo na revista Logos I, 1910. Tradução portuguesa: HUSSERL, E. Filosofia como ciência de rigor. Tradução: Albin Beau. Coimbra: Atlântida, 1965.
cientificidade à filosofia: “Se algo não pode e não deve ser ciência, então a falta de cientificidade não lhe pode ser imputada como uma falha grave”206.
A afirmação de que filosofia não é ciência ainda não esclarece o que ela é propriamente, apenas sustenta que não pode ser submetida ao conceito de ciência, e mesmo como “ciência de um gênero superior”, conforme usualmente dizemos: a física é uma ciência, a filologia é uma ciência, a química é uma ciência. A determinação da filosofia não parte de “proposições em geral” (Sätzes überhaupt), de “conceitos em geral” (Begriffs überhaupt), pois essa forma de interpretação não está isenta de conceitos prévios. Escreve Heidegger:
Não se deve introduzir na filosofia a idéia de conhecimento e conceitos científicos, recorrendo ao conceito de proposição em geral, como se os complexos racionais fossem os mesmos na filosofia e nas ciências (ob die rationalen Zusammenhängen in Wissenschaft und Philosophie dieselben wären)207.
Caso partíssemos de uma “proposição em geral”, incorreríamos em uma concepção niveladora (nivelliertes Auffassung) dos conceitos e proposições filosóficos e científicos, uma vez que são simplesmente retirados da experiência fática da vida, com o significado e a compreensão mais acessíveis, fornecidos pela representação e pelo uso linguístico convencional. Por isso, a compreensão nivelada deve ser examinada e, consequentemente, suprimida.
A tese heideggeriana de que a “filosofia não é ciência” também não pretende afirmar que ela é acientífica, no sentido de que se choca com as normas e o rigor dos métodos científicos. Ela não é acientífica pelo mesmo motivo que não é científica. Ou seja, em sentido primário, os predicados “científica e acientífica” não lhe convêm, pois, se referem a uma atribuição que ela já possui em sentido originário.
O mesmo vale para a noção de rigor. Seria ele um conceito supracientífico? Para Heidegger,
O conceito e o sentido de rigor são originariamente filosóficos, e não científicos; só a filosofia é originariamente rigorosa (nur die Philosophie ist ursprünglich streng), por ter um rigor frente ao qual o rigor da ciência é meramente derivado208.
Outro pressuposto discutido por Heidegger é a afirmação de que a filosofia é mais
originária do que a ciência, pelo fato de que toda ciência encontra-se, de alguma forma,
206 Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 17.
207 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 4. 208 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 10.
enraizada na filosofia, e emerge dela primeiramente209. A partir da perspectiva histórica, costuma-se dizer que a ciência surge da filosofia. Para Heidegger, isso só é possível em sentido bem determinado. Entende-se, habitualmente, haver uma ciência em geral, que se cindiu em ciências particulares, específicas e independentes. Essa compreensão metodológica do “surgir” interpreta o aparecimento histórico da ciência como adotar um método independente e um setor material próprio, anteriormente elaborados pela filosofia como uma ciência em geral.
Escreve Heidegger:
Conceber o surgimento das ciências da filosofia, entendida como labuta cognitiva com o mundo, no qual as ciências estão pré-figuradas em estado embrionário (embryonal), é um juízo prévio que a concepção atual de filosofia projetou retrospectivamente na história (in die Geschichte zurückprojiziert hat). [...] Só uma modificação concreta e conformadora (bestimmte ausformende Modifikation) de um movimento incluído da filosofia que, sem dúvida, esteja em sua forma originária, isto é, que subjaz nele sem modificação alguma, faz da ciência uma ciência em seu surgir da filosofia, à mercê de um modo específico do surgir mesmo (bestimmte Eigenart des Entspringens selbst)210.
Em outros termos, as ciências não subjazem pré-figuradas na filosofia. Ao serem tomadas como problema filosófico, elas serão analisadas pela teoria da ciência, que geralmente leva em consideração seu complexo veritativo e proposicional deslocado da vida fática. Nesse caso, o histórico não possui nenhuma função. Para Heidegger, as ciências concretas devem ser captadas em seu exercício, tendo em vista que o processo científico é histórico, e deve ser considerado.
Nesse sentido, a razão pela qual a filosofia não é nenhuma ciência não é sua incapacidade de aproximar-se do ideal científico, nem a necessidade de permanecer abaixo dele, por faltar-lhe aquilo que determina a ciência como tal. Pelo contrário.
Ela não é nenhuma ciência porque o que a ciência só possui em sentido derivado lhe advém de maneira originária. A filosofia não é nenhuma ciência, e isso não por carência, mas por excesso, que é aqui primário, e não apenas quantitativo. [...] Uma vez que, em certa medida, a filosofia é ciência tal como a ciência nunca pode ser, como a filosofia é mais originária do que a ciência, e como a ciência tem sua origem na filosofia, pode-se designar a origem da ciência, a saber, a filosofia, ela mesma como ciência, sim, até mesmo como ciência originária e absoluta, determinando-a como tal211.
Portanto, a equiparação entre filosofia e ciência é deficiente, mesmo denominando a filosofia como ciência primeira, mais pura e rigorosa. A filosofia é origem da ciência, por
209 Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 19.
210 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 6. 211 Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 18.
isso, não é ciência. Deve-se, pois, resistir à tendência de equiparar, inopinadamente, filosofia e ciência determinada. Para Heidegger, “sempre que se dá um passo na direção da idéia de ciência, desconhece-se a essência da filosofia”212. A filosofia deve libertar-se ainda da “secularização” e da conversão em ciência e em doutrina científica sobre “concepções de mundo” (Weltanschauungen)213. Deve ser erradicada toda concepção que transforma tanto a filosofia quanto as ciências em configurações objetuais de sentido, proposições ou complexos proposicionais descolados.
A partir da explicitação da tese fundamental de que filosofia não é ciência, Heidegger pode concluir que não compreende a filosofia pela simples inserção em um complexo temático geral, objetualmente conformado, afirmando que ela se ocupa, de forma específica, com determinado objeto. É algo que não faz sentido, porque a filosofia não se atém a nenhuma objetividade. Por isso, a designação da filosofia como comportamento racional cognitivo simplesmente sucumbe ao ideal científico e aumenta a dificuldade de determinação da filosofia, pois os princípios do pensar e do conhecer permanecem sem esclarecimentos. Uma filosofia científica nunca poderá libertar-se da objeção de que persiste eternamente em reflexões gnosiológicas prévias. Em suma, não se obtém a compreensão própria da filosofia pelo caminho da dedução científica.
Assim, ficam excluídas todas as demonstrações e definições científicas do propósito de determinar a compreensão própria da filosofia. O que é filosofia só se determina mediante o filosofar mesmo. Afirma Heidegger: “Filosofia é filosofar”214. Não se trata de mera afirmação, semelhante à sentença: a mesa é mesa. Aqui não se diz apenas que filosofia é filosofia, mas “filosofia é filosofar”. É resposta positiva que significa que a filosofia não pode ser definida em consideração a algo diverso dela mesma, como a ideia de arte, idéia de religião, ideia de ciência. Ou seja, a expressão “filosofia é filosofar” que dizer: filosofia não pode ser jamais determinação objetiva de evidência científica, mas precisa ser determinada a partir de si mesma.
Conforme já mencionamos, o ponto de partida do filosofar é “a experiência fática da vida”. A vida fática é a origem da filosofia e ao mesmo tempo aquilo que impede a autodeterminação da filosofia. Escreve Heidegger: “Se tomarmos radicalmente o problema da autocompreensão da filosofia, deparamo-nos com o fato de que “a filosofia brota da
212 Cf. HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia, p. 20.
213 Referência à filosofia de K. Jaspers, criticada por Heidegger nessa época (Cf. HEIDEGGER, M.
Anmerkungen zu Karl Jaspers Psychologie der Weltanschauungen, p. 4).
214 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 8. HEIDEGGER, M. Introdução à
experiência fática da vida, e retorna novamente a ela”215. Enquanto ponto de partida e meta do filosofar, a noção peculiar de vida fática, torna-se agora inteiramente fundamental. Abre a possibilidade de acesso à filosofia, conforme observamos posteriormente em Sein und Zeit216. Cumpre, agora, esclarecer o significado dessa noção.