Chapter 4: Result
4.5 Household Activities
4.5.5 Comparison on different activities time
Na tarde de 30 de outubro de 1919, no Rio de Janeiro, Everardo Dias e 22 companheiros de prisão foram postos em viaturas policiais para serem transportados às docas. Centenas de curiosos se juntaram para observar a partida, enquanto os prisioneiros, com a voz recuperada, cantavam a “Internacional”. 126
127
O tema das deportações em 1919, levantando pela leitura dos postais de Manuel Gama a João Penteado, também pode ser verificado através da Imprensa Operária. As expulsões e deportações em 1919 são reflexos da intensa movimentação dos trabalhadores nos anos de 1917 a 1919. Em 1917 explode em São Paulo uma grande greve, conhecida como Greve Geral de 1917, a qual se espalhou por todo o Estado de São Paulo e repercutiu em outros estados brasileiros, como Rio de Janeiro e Pernambuco. Em 1918 há
126 Dulles, J. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. Editora Nova Fronteiro, Rio de Janeiro, 1977. P. 103.
140 uma Insurreição anarquista no Rio de Janeiro, com um saldo de três operários assassinados, e muitos anarquistas presos e deportados. Em 1919 eclode uma nova Greve Geral em São Paulo. Desta forma, Epitácio Pessoa tratando a questão social como caso de polícia, promove uma grande deportação de anarquistas estrangeiros, entre eles está Manuel Gama.
O governo de Epitácio Pessoa (28/07/1919 - 15/11/1922) caracterizou-se pela instabilidade política. A nomeação de civis para as Pastas militares provocou a reação de setores do Exército, exemplificada pelo movimento tenentista. A essa insatisfação logo se somariam a das oligarquias dissidentes e a dos novos atores sociais urbanos, principalmente os operários. Intelectuais de distintas procedências e alinhados por correntes diversas de pensamento manifestaram-se por meio da Semana de Arte Moderna, da fundação do Partido Comunista, da fundação do Centro Dom Vital e da revista A Ordem.128 Em 1921, o Presidente Epitácio Pessoa promulga a Lei de Repressão ao Anarquismo. As deportações de 1919 e a Lei de Repressão ao Anarquismo de 1921 visavam eliminar a influência das idéias anarquistas no meio sindical.
128
http://www.republicaonline.org.br/RepOnlineNAV/navegacao/presidencias/presidencias.asp?op=busca&co d=11&secao=pres
141 Ressalta Boris Fausto que a violência do Estado como instrumento
perpetuador das relações sociais de dominação na área industrial, ao longo da Primeira República, é um dado conhecido. (Fausto. P. 233)
A greve era concebida não como um produto das contradições entre as forças sociais mas como manobra conspirativa, levado a cabo por indivíduos capazes de manobrar um agregado destituído de vontade própria. (Fausto. 1986: 233 e 234).
Sob os trabalhadores estrangeiros pairava as ameaças das leis de expulsão.
Como resposta aos surtos grevistas de 1905-1906, surgiu a lei prevendo a medida para os que atentassem contra a tranqüilidade pública ou a segurança nacional. (P. 234). A partir de 1917, as medidas repressivas multiplicam-se, segundo Boris Fausto.
Entre 1917 e meados de 1919, o Estado aumenta o grau de repressão, recorre a atos arbitrários, mas atua em resposta aos movimentos grevistas; de meados de 1919 em diante, o aparelho estatal toma a iniciativa e adota medidas sistemáticas para liquidar a vaga reivindicatória. Essa prática se antecipa a uma nova legislação e acaba
142 sendo referendada por duas leis aprovadas em 1921. (P. 235)
A seletiva expulsão de militantes operários cresceu nos anos 1919-1920. Partiriam para sempre do país, Gigi Damiani; Alexandre Zanella; Silvio Antonelli; Antonio Fernandes, secretário da Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro cuja deportação provocou uma greve parcial de solidariedade; Alberto de Castro, antigo secretário da União Geral de Ferroviários de São Paulo; Joaquim de Moraes, ex-secretário da UOFT carioca etc. (P. 239 – 240).
Edgar Rodrigues ressalta que as deportações se configuraram como prática de violência abraçada por governantes que tinham por objetivo impedir a divulgação de ideias ou frustrar movimentos contrários aos sistemas vigentes. Destaca as deportações ocorridas nos governos de Rodrigues Alves e Epitácio Pessoa.
Expulsaram militantes anarquistas como Manuel Peres, José Romero, Manuel Campos, Gigi Damiani, Florentino de Carvalho. (Rodrigues. P. 104).
Epitácio Pessoa (1919-1922) logo no início de seu governo expulsou 23
operários sindicalistas e anarquistas enfiados a força nos porões do vapor Benevente129. Os trabalhadores, sendo que grande parte deles era imigrante, lutavam por melhores condições de trabalho, por melhorias salariais e redução da jornada diária. A Revolução Russa, além de despertar esperanças nos trabalhadores quanto aos rumos da luta contra a exploração capitalista,
apavorou a nova burguesia que cobrava dos governantes providências concretas contra os libertários grevistas. 130
129 Citação de Edgar Rodrigues, em Os Companheiros. Ver referência 124. 130 RODRIGUES, Edgar.
http://recollectionbooks.com/bleed/ArchiveMirror/ArquivoDeHist%F3riaSocialEdgarRodrigues/Os%20Com panheiros%20-%20Letra%20M.htm
143 As grandes greves operárias que vinham eclodindo desde 1917 são duramente reprimidas, com grande parte de seus líderes sendo presos ou deportados. Epitácio Pessoa chega a decretar estado de sítio, controla os focos rebeldes e então passa a presidência a Arthur Bernardes, vitorioso nas eleições de março de 1922.
Decidido a impedir o “triunfo do mal”, o governo do Estado fechou as “escolas modernas” de João Penteado e Adelino de Pinho, deportou os “agitadores” nacionais para o Rio Grande do Sul e convenceu facilmente o Ministro da Justiça de que as “recentes agitações” justificavam a expulsão do território nacional de dezenas de “estrangeiros”. 131
O documento acima “Ao povo brasileiro e ao mundo”, é publicado em A
Plebe de 29 de novembro de 1919. É um texto de acusação. Nele os
anarquistas, ferozmente atingidos pela repressão denunciam as atitudes antidemocráticas e anticonstitucionais do governo brasileiro. Reclamam da falta de liberdade de imprensa, citam as deportações, inclusive de brasileiros, ou estrangeiros já naturalizados e enfim, criticam Adolfo Gordo “burguês, capitalista e senador da República”, o qual forjava a lei de repressão ao anarquismo.
131 DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. 1900-1935. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1977. Pág. 101.
144 O mesmo número do Jornal A Plebe, publica ainda nota perguntando
Porque e como foram feitas as deportações? – O que o governo não quis informar. A nota, dirigida aos operários e principalmente aos familiares dos
deportados, informa que o governo não respondeu a nenhuma pergunta, não prestou nenhum esclarecimento sobre as deportações de 1919.
Manuel Gama é citado também nos artigos publicados na imprensa operária sobre as deportações.
De bordo do “Benevente”, datado de Bahia, chega-nos agora um postal de Manuel Gama, o ativo camarada, bastante conhecido nos meios proletários de S. Paulo e do Rio, onde militou ativamente.
Ei-lo:
“Camaradas d’ A Plebe: Saudades... saudades.... Involuntariamente, sigo a caminho das luzas plagas. Em minha companhia seguem 24 irmãos esperançosos, entre os quais o Everardo, que, triste e pensativo, vai arrastando o seu madeiro ao Calvário da Vida.
Esperamos que a nossa falta não cause transtornos. A viagem no mar tem sido boa.
Não há que desanimar. Avante pela grande causa. 132 Sobre esse episódio, que envolve a reação contra o movimento anarquista no Brasil Edgard Leuenroth relata:
As atividades dos anarquistas no Brasil, embora exercidas dentro do quadro da chamada democracia republicana, bem raras vezes puderam decorrer normalmente. Verificaram-se violências de toda ordem contra os militantes libertários, as suas iniciativas, a sua imprensa,
145 as suas organizações, moveram-se contra eles campanhas de injúrias e calúnias; foram vítimas de perseguições, maus tratos, espancamentos em presídios e solitárias; sofreram assaltos em seus domicílios, com apreensão de bibliotecas, coleções de revistas e jornais, além de violências contra suas famílias, deportações para ilhas e regiões insalubres, expulsões para o estrangeiro, e também assasínios. (Leuenroth. 1963: P. 134)
Ele continua destacando que muitos militantes estrangeiros que aqui haviam fixado domicílio, desenvolviam atividades artísticas ou profissionais de
alta significação, foram expulsos do país. Além de Manuel Gama, entre os
deportados que não voltaram mais ao Brasil estavam Neno Vasco e Gigi Damiani.
133
146
3.5. Resistência – práticas libertárias do Educador João Penteado