4.4 Implemented algorithm
4.4.6 Comparison of the SensorBoard to MetaWear
Segundo Nelson e Winter (2006), a crítica à ortodoxia econômica necessária a postulação de novas teorias deve iniciar, necessariamente, pelo conceito de racionalidade. Baseamos nossa análise neste conceito e nas formulações de Simom (1980). Partindo da crítica à racionalidade maximizadora da teoria ortodoxa – que o indivíduo possui capacidade absoluta de maximizar seus objetivos –, o autor delimita o conceito de racionalidade como sendo limitada.
Simon (1980), por seu turno trata a racionalidade imputada ao agente pela ortodoxia como maximizadora e substantiva, pois confere ao indivíduo a capacidade irrestrita de maximizar e atingir seus objetivos da melhor maneira possível, não levando em consideração o processo pelo qual serão alcançados. Para o autor, este conceito remete a “oniciência” do indivíduo, impedindo assim qualquer explicação da forma pela qual o processo de tomada de
decisão ocorre. Desta maneira, o referido autor propõe a substituição da noção de racionalidade substantiva pelo de racionalidade limitada, de modo que a visão do comportamento dos agentes sociais e econômicos pode ser considerada como escolha ótima com base num conjunto claramente definido de capacitações.
A idéia de racionalidade absoluta – maximizadora – reporta à capacidade “oniciência” dos agentes sociais e econômicos, tendo em vista a possibilidade de escolher a melhor alternativa de acordo com os objetivos estabelecidos e a estabilidade e consciência de suas preferências (SBICCA, 2007). Para Simon (1980), a adoção do conceito de racionalidade, nesta perspectiva, como onisciência, impede qualquer explicação de racionalidade absoluta de como o processo de tomada de decisões ocorre. Pois, na racionalidade, o que opera nesse processo é uma racionalidade limitada, uma vez que:
a racionalidade é limitada quando lhe falta onisciência. E a falta de onisciência é fruto, principalmente, de falhas no conhecimento das alternativas, incertezas a respeito de eventos exógenos relevantes e inabilidade no cálculo de suas consequências (SIMON, 1980. p. 42).
O conceito de racionalidade, conforme descrito anteriormente, descreve o processo de tomada de decisão dos agentes sociais e econômicos, baseado em regularidades de comportamento, tanto quanto observa a dinâmica e incertezas do ambiente em que estão envolvidos. Com base nesta relação podemos descrever os principais postulados da teoria evolucionária, pois esta, assim como a teoria ortodoxa, se organiza a partir das regras de decisões dos agentes sociais e econômicos às firmas. Contrapondo as limitações da teoria ortodoxa no que diz respeito à simplificação do processo de tomada de decisão dos agentes, procura entender o comportamento como um conjunto regular de rotinas. “Há um reconhecimento de que a abordagem evolucionária propõe pressupostos de análise fundamentais substancialmente diferentes da abordagem tradicional, inclusive a racionalidade, com perspectivas de desenvolvimento de um corpo teórico
Nosso termo geral para todos os padrões comportamentais regulares e previsíveis da firma é “rotina”. Utilizamos este termo para incluir características das firmas que variam de rotinas técnicas bem especificadas para a produção de coisas, procedimentos para contratações e demissões, encomendas de novos estoques, ou aumentar a produção de itens de alta demanda, até políticas relativas ao investimento, à pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou publicidade, e estratégias empresariais relativas à diversificação da produção e ao investimento no exterior (NELSON; WINTER, 2005, p. 33).
As rotinas seriam, desta maneira, “procedimentos organizacionais repetitivos capazes de lidar tanto com o funcionamento interno da firma na sua atividade contínua de produção, quanto com o grande afluxo e diversidade de informação do ambiente do qual a mesma está inserida” (SBICCA, 2008 p. 6).
As rotinas se afirmam, mesmo quando não resultam em maximização. Desta maneira a teoria evolucionária rompe com a noção de comportamento maximizador da teoria ortodoxa, estabelecendo, ademais, que as rotinas tenham a mesma função que os genes apresentam na teoria evolucionária biológica. Para os autores citados acima, “as rotinas empresariais são características persistentes do organismo e determinam seu comportamento possível; elas são hereditárias no sentido de que os organismos de amanhã gerados pelo de hoje têm muitas das mesmas características” (NELSON; WINTET, 2005, p. 33). Assim, para os teóricos da teoria evolucionária sua preocupação central reside nos processos dinâmicos que determinam conjuntamente os padrões de comportamento dos agentes sociais e econômicos.
Ao contrário da teoria ortodoxa, em que o comportamento otimizador determina as combinações de insumos e níveis de produto, na teoria evolucionária este processo se dá através das características operacionais do volume de capital em conjunto com as demais variáveis estruturais, além disto, ao invés do comportamento linear e estático, os agentes sociais e econômicos evoluem ao longo do tempo através do constante processo de busca e seleção, num meio diverso e repleto de incertezas.
Entendendo deste modo o comportamento dos agentes sociais e econômicos, a teoria evolucionária trata o processo tecnológico como reflexo do processo histórico das rotinas que governam os agentes. Embora representem um dado momento no processo decisão, as características das rotinas vigentes expressam o processo evolucionário que as originou.
As rotinas que os agentes desenvolvem, no seu processo produtivo, podem ser caracterizadas da seguinte maneira: primeiramente as rotinas de curto prazo ou operacionais que modelam o comportamento dos mesmos no dia a dia de suas atividades, em função dos fatores de produção que não podem ser alterados no curto prazo; a segunda característica diz respeito às rotinas que modelam as decisões sobre a ampliação dos ativos fixos e da capacidade produtiva, a tomada de decisão sobre o investimento varia particularmente conforme as características de cada agente, a regra de decisão se daria pela lucratividade determinando o crescimento ou desaparecimento de certos empreendimentos. Desta forma
o mecanismo de seleção aqui utilizado é claramente análogo à seleção natural de genótipos com taxas de reprodução líquida diferenciadas da teoria evolucionária da biologia. E, tal como na teoria biológica, em nossa teoria
evolucionaria, a sensibilidade da taxa de crescimento de uma firma à prosperidade ou à adversidade constitui em si mesma um reflexo de seus genes (NELSON; WINTER, 2005, p. 37).
E, ainda, os agentes possuem rotinas que determinam sua mudança ao longo do tempo, neste caso a “firma” evolucionária ideal seria aquela que possui um competente setor de P&D e análise de mercado. No caso de não possuir uma organização interna que seja possível realizar estas rotinas, ela, regularmente envia seus funcionários para mecanismos de reciclagem organizados fora de seus limites.
Os processos de rotinas e mudança é, de acordo o pensamento evolucionário um processo sistemático de busca e seleção, cujo resultado tem sentido análogo ao da evolução na teoria biológica, influenciado por sua composição genética. Desta maneira, “as firmas evoluem ao longo do tempo através da ação conjunta de busca e seleção, e a situação do ramo de atividades em cada período carrega sementes de sua situação no período seguinte” (NELSON; WINTER, 2005, p. 40).
Ao invés da proposição de comportamento otimizador, a teoria evolucionária trata de comportamento rotinizador, dada a importância das rotinas para a estruturação da racionalidade dos agentes sociais e econômicos. Este modelo de comportamento permite uma visão mais coerente da forma com que as estruturas organizacionais se relacionam interna e externamente.
Acresce que as rotinas representam para as organizações a forma mais importante de estocagem do seu conhecimento específico. A tal ponto que “a idéia de que uma organização lembra a rotina exercitando é paralela com a idéia de que um indivíduo lembra as habilidades exercitando-as” (NELSON; WINTER, 2005, p.154).
Neste sentido, o comportamento organizacional pode ser visto como uma extensão do comportamento dos indivíduos que participam do seu processo interno, as habilidades individuais representando, assim, um aspecto importante para o comportamento “rotinizador” das organizações. Além disto, são as regularidades das pessoas desenvolvidas no processo produtivo que determinam a eficiência dos resultados da organização como um todo. Enquanto na teoria ortodoxa as habilidades individuais representam aptidões num conjunto de escolhas, para o pensamento evolucionário representam capacidades individuais com sequências ordenadas e regulares de comportamentos que, em geral, são eficientes em relação aos seus objetivos.
As rotinas desenvolvidas pelas organizações são eficientes na medida em que os indivíduos que participam do processo de produção interno conheçam perfeitamente seus
ofícios e desenvolvam suas habilidades com regularidade. A estreita relação entre o comportamento dos indivíduos e das organizações – firmas – permite, ainda, a aplicação eficiente do conhecimento tácito e a memorização das rotinas, por parte das organizações.
Neste sentido, o comportamento “rotinizador” é responsável pela estocagem do conhecimento inerente a cada agente social e econômico e às organizações onde atuam.
Na medida em que compreendemos o comportamento individual, as habilidades com que os indivíduos desempenham suas funções nas organizações, podemos entender o comportamento organizacional como um todo e o comportamento rotinizador das firmas. Primeiramente, porque os indivíduos são parte das organizações e as mesmas dependem de suas ações para desenvolver suas rotinas operacionais; os indivíduos são habilidosos porque desempenham funções, assim como exercem algumas atividades nas organizações. Desta maneira, se as habilidades são pré-condições para a realização de tarefas individuais nas organizações, podemos, também, entender as rotinas como habilidades das organizações.
O comportamento dos agentes sociais e econômicos é determinado, por sua vez, pelo conjunto de rotinas desempenhadas em ambiente repleto de incertezas. Podemos afirmar que o aspecto fundamental da teoria evolucionária é o processo de tomada de decisão dos agentes – firmas e indivíduos –, baseados em rotinas e hábitos num processo de busca e seleção de possibilidades produtivas e reprodutivas, no ambiente natural e institucional onde tem lugar uma perspectiva de mudança de longo prazo e progressiva.
O processo de mudança evolucionário reporta ao conceito de path dependence, a idéia de que o desenvolvimento dos agentes sociais e econômicos guarda estreita relação com o processo histórico, ou seja, de sua trajetória tecnológica, conforme será tratado no próximo capítulo deste trabalho.
Assim sendo, torna-se relevante abordar como ultimo item referente à discussão sobre racionalidade dos agentes sociais e econômicos, a questão concernente às instituições e o pensamento evolucionário, a seguir.