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Comparison of predictions with measurements

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No entanto, segundo Bakhtin, esse caráter orgânico de tempo/espaço, embora caracterize o texto literário, não se dá da mesma maneira ao longo da história do romance e o modo como o elemento temporal é associado aos demais elementos, no que diz respeito ao aspecto composicional da obra, determina as variantes do gênero romanesco. O cronotopo é o centro organizador dos principais acontecimentos no romance, a partir dele pode-se analisar qual a temática, o elemento fundamental que orienta o desenvolvimento do romance, caracterizando as diversas variantes desse gênero. E, nessa perspectiva, qualquer análise na esfera dos significados só é possibilitada a partir dos cronotopos.

Analisando o romance grego, Bakhtin afirma que as particularidades do espaço não interferem no acontecimento de maneira constitutiva do romance de modo que “[...] todas as aventuras do romance grego possuem poder de transferência: o que ocorre na Babilônia poderia ocorrer no Egito ou em Bizâncio e vice-versa”(2002, p. 224). Dessa maneira, certas aventuras podem ser transferidas no tempo e no espaço. A relação do herói com o tempo e o espaço é estranha:

Tudo nele é indeterminado, desconhecido, alheio; os heróis estão aí pela primeira vez, eles não tem quaisquer relações ou ligações substanciais com esse mundo, as convenções sócio-políticas, de costumes ou outras, lhe são estranhas, eles não as conhecem; [...] (2002, p. 225).

O tempo/espaço (cronotopo) no romance grego, segundo Bakhtin, não promove traços distintivos nem no mundo nem nas pessoas. Ao final do romance, após todos os acontecimentos, tudo volta a seus lugares. O herói e todos os objetos passam por ações que não os modificam, há que ocorrer uma provação da identidade do herói, que tem em si muito do ser idealizado, o indivíduo isolado e privado. “O martelo dos acontecimentos não fragmenta nem forja nada, ele apenas prova a solidez do produto já fabricado. E o produto suporta a prova. Esse é o sentido artístico-

ideológico do romance grego” (BAKHTIN, 2002, p. 230). No cronotopo do romance grego, o mundo e o homem estão prontos e acabados38.

Após analisar o cronotopo no romance grego, Bakhtin faz um grande percurso avaliando como essa categoria está representada na história do romance, tomando como referência, no conceito de cronotopo, o elemento do tempo, analisando como a linha temporal está relacionada ao que orienta o desenvolvimento da obra, como o cronotopo é desenhado, caracterizando os diversos “gêneros” de romance. Bakhtin faz uma historiografia e apresenta como o elemento tempo é empregado nas obras ao longo da história do romance, esclarecendo que a categoria temporal nem sempre está indissociável da categoria espacial e dos demais elementos que constituem a obra, tal como no romance grego em que o tempo é um elemento alheio, sem vestígios, sem traços, característica desse tipo de romance. Sua análise sugere uma “evolução” do romance nesse sentido, demonstrando que ao longo do desenvolvimento da historia do romance, há uma transformação iniciada no romance grego em que o tempo é estável, alheio, sem traços até chegar a Rabelais em que o tempo é coletivo, compartilhado e tomado em seu aspecto transformador, o que caracteriza o devir. A respeito desse tempo coletivo analisado por Bakhtin em Rabelais, afirma Amorim:

Tempo que se define como grande temporalidade, pois projeta a humanidade e o mundo para um além do contexto conhecido e representado. As hierarquias e os poderes estabelecidos são contingentes e serão transformados. Esse tempo é maior do que todos porque é utópico da abertura de novas possibilidades. Renovação dos sentidos do passado e criação de sentidos futuros (2006, p. 104).

Nesse percurso, Bakhtin analisa também o romance antigo de aventuras e de costumes e, ainda, a biografia e autobiografia antigas. Avalia a inversão temporal nos textos mitológicos e o cronotopo no romance de cavalaria e em Rabelais, evidenciando em sua análise que há uma progressão, se assim se pode dizer, da maneira como o cronotopo é representado, promovendo obras mais cronotópicas que outras, ou seja, obras capazes de revelar mais ou menos a indissolubilidade entre os espaços e o tempo histórico. Não se trata de estabelecer parâmetros de

38 Arrigucci (1995), citando essa teoria de Bakhtin, afirma que a estória central de Grande sertão:

veredas faz eco às antigas tradições das narrativas conforme vistas no romance grego. Nossa

leitura caminha em direção oposta a essa, negando-a. Procuramos demonstrar que a narrativa de Rosa não tem a cronotopia do romance grego como o concebe Bakhtin.

valoração, situando uma escala de valor das obras em relação à orientação do cronotopo que ali se coloca, mas de analisar a característica das variantes do gênero romanesco tendo em vista o modo como o tempo e o espaço são indissociáveis, apresentam uma realidade coesa ou não. E nesse sentido, como já brevemente mencionado, Grande Sertão: Veredas se apresenta como um romance com grande cronotopia, trazendo tempo e espaço necessariamente associados e amalgamados na estrutura composicional do romance, como se demonstra, mais à frente, ao analisar a voz materna em relação à orientação dada pelo narrador ao enredo.

Na historiografia apresentada, tendo em vista o romance antigo de aventuras e de costumes e, ainda, a biografia e autobiografia antigas e, ainda, em relação à obra de Dante, Bakhtin observa que, de modo geral, essas obras apresentam uma cronotopia em que a associação entre tempo/espaço não está perfeitamente coadunada, “Pode-se dizer que o tempo está totalmente excluído da própria ação da obra” (BAKHTIN, 2002, p. 272).

Em Rabelais, Bakhtin analisa minuciosamente o tempo apresentando um novo cronotopo que apresenta uma ligação entre o homem e todas as suas ações e peripécias associadas ao mundo espacial e temporal, expressando uma concepção de tempo/espaço forjada a partir da experiência, numa perspectiva fenomenológica. Rabelais traz um cronotopo que desconstrói as estruturas antigas atemporais, demonstrando, desde o início de suas personagens, uma unidade tempo/espaço indissolúvel.

Partindo dessa perspectiva bakhtiniana, podemos afirmar que ocorre em Grande sertão:veredas um cronotopo orgânico. Isto é, o tempo/espaço é uma categoria orientadora, necessariamente vinculada a todos os outros elementos do romance. O tempo/espaço de Riobaldo a ele pertence e a ninguém mais, nada é alheio a esse herói, tudo se coaduna, os elementos são indissociáveis e seria impossível fazer alguma transferência. E o que podemos observar é que o herói aqui (Grande sertão: Veredas) atravessa e é atravessado num processo profundo de transformação ao longo do tempo/espaço num eterno vir-a-ser.

A respeito do cronotopo, citamos uma afirmação de Wall (1997) que, trazendo a lembrança de sua casa na infância, analisa esse conceito em relação ao conceito de carnavalização, assegurando que, ao contrário do que afirmam alguns teóricos, o cronotopo, tanto quanto a carnavalização, está necessariamente associado à vida, à experiência do sujeito. O cronotopo está associado à constituição da consciência, isto é, ela é forjada a partir de um tempo/espaço; não de tempo e espaço como categorias apriorísticas, mas como categorias que se constroem a partir da experiência, se fazem no ato, no passo dado, revelando uma posição assumida, um tom, um modo único e irrepetível de o sujeito se colocar no mundo.

Seguindo Bakhtin, vou dizer aqui que o conceito de domicílio da criança é já um conceito cronotópico; se queremos ter em conta a diferença entre uma casinha qualquer e o domicílio específico que era “minha casa” durante seis anos de minha vida, devemos compreender um vasto grupo de fatores legais e psicológicos que transformam edifícios em casas. “Minha casa” é sempre um cronotopo social, um conceito que tem um significado importante que implica no que a criança pode dizer “minha casa” a outras pessoas. Essas palavras constituem para cada pessoa que tem um domicílio familiar um cronotopo de um tempo e espaço sociais de quando era criança (1997, p. 434).39

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