5. Model II – Horizontal and vertical differentiation
6.1 Comparison of models and empirical research
Para auxiliar na caracterização familiar dos alunos com deficiência e melhor compreensão de seu perfil socioeconômico, utilizou-se algumas informações estatísticas, disponibilizadas pela Fundação Vunesp43, coletadas no Questionário Socioeconômico do vestibular da UNESP, que contém informações desde o ano de 1996.
Busca-se, desta forma, verificar a condição socioeconômica dos alunos com deficiência em relação aos seus pares, ou seja, os demais alunos de sua sala de aula.
Alguns indicadores, a exemplo da renda e o nível de escolaridade dos pais, podem ser utilizados para que se tenha uma noção da condição de vida material das pessoas.
Não obstante, as informações inseridas nesta seção objetivam somente apresentar ao leitor traços do perfil socioeconômico dos participantes com deficiência, sem, contudo, ter a pretensão de efetuar comparações de ordem estatística. Faculta-se, entretanto, ao leitor, a possibilidade de efetuar eventuais comparações, a título de contextualização do perfil apresentado.
A tabela abaixo apresenta a renda mensal familiar dos alunos com deficiência, relacionando-a com os seus pares, por ocasião de seu ingresso na instituição.
Tabela 08: Renda mensal familiar (RMF) em salários mínimos dos alunos com deficiência e respectivos pares
Curso RMF alunos
com deficiência
RMF alunos da sala de aula
Faixa salarial em salários mínimos (quantidade e porcentagem)
Até 1,9 2,0 a 4,9 5,0 a 9,9 10 a 14,9 15 a 19,9 20 ou mais 3º Ciência da Computação 8 3 – 8,57 22 – 62,86 7 – 20,00 3 – 8,57 0 - 0 0 – 0 3º Educação Física 3 13 – 28,89 27 – 60,0 5 – 11,11 0 - 0 0 - 0 0 – 0 1º Geografia 3 08 – 20,0 21 – 52,5 09 – 22,5 2 – 5,0 0 - 0 0 – 0 1º Pedagogia 3 14 – 40,00 42,86 15 – 5 – 14,29 0 – 0 1 - 2,86 0 – 0 Observa-se que somente o aluno João (3º Ciência da computação) apresentou renda mensal familiar superior aos demais alunos com deficiência, representando quase o triplo da renda. João encontrava-se então entre os 20% (sete alunos) da turma que possuíam renda mensal familiar entre 5,0 a 9,9 salários mínimos. A maioria dos alunos daquela turma, por volta de 71,43% percebia renda mensal familiar de até 4,9 salários mínimos.
Os demais alunos com deficiência, Lucas (3º Educação Física), Marcos (1º Geografia) e Mateus (1º Pedagogia) percebiam renda mensal familiar de três salários mínimos, próximo da renda mensal familiar da grande maioria de seus pares, pois, respectivamente, 88,89%, 72,5% e 82,86% daquele alunado percebiam renda mensal familiar de até 4,9 salários mínimos.
A questão da presença inexpressiva de alunos pobres nas instituições de Ensino Superior públicas vem sendo discutida pela sociedade, em especial os militantes de movimentos sociais, há muitas décadas, pois defendem que,
paradoxalmente, as pessoas que mais necessitam do ensino público, ou seja, os economicamente desfavorecidos, são as que menos possuem possibilidade de inserção naquelas instituições.
Prova disso, é a recente aprovação pelo Senado Federal do sistema de cotas raciais e sociais, que reserva 25% das vagas nas instituições públicas federais para negros, pardos e indígenas (ou de acordo com a proporção dessas populações em cada Estado) e outros 25% para alunos que tenham cursado o Ensino Médio em escolas públicas, cuja família receba renda per capta de até 1,5 salários mínimos (ou seja, alunos pobres).
Na perspectiva educacional entendem-se, neste estudo, as ações afirmativas como importantes mecanismos de democratização de ensino, com vistas a tornar equânime a possibilidade de acesso nas instituições de ensino. Todavia, tal instrumento não deve se pretender perpétuo, devendo haver uma revisão periódica sistematizada, em conformidade com a demanda, até que o sistema de discriminação positiva possa ser, enfim, suprimido.
O que se observa, em relação às quatro salas de aula onde estudam os alunos com deficiência, é que a grande maioria recebe uma renda mensal familiar modesta, de até 4,9 salários mínimos, chegando a quase 90% para o 3° ano de Educação Física.
Não se busca, neste estudo, uma relação de causalidade entre renda mensal familiar recebida pelos alunos com deficiência e sentimento de acolhimento na Universidade. Mas, apenas para situar o leitor, em relação ao rendimento mensal familiar, os alunos com deficiência se encontram na faixa salarial da maioria dos seus pares. Conforme será descrito em seção posterior, os quatro alunos com deficiência referiram se sentir acolhidos na instituição. Nesse sentido, renda mensal familiar equivalente à renda de seus pares não representaria um motivo para que os alunos com deficiência eventualmente se sentissem “inferiorizados” no aspecto financeiro.
Outro quesito considerado neste contexto diz respeito à escolarização dos pais dos alunos com deficiência. O quadro a seguir transcrito demonstra a escolarização dos pais dos alunos com deficiência matriculados no campus.
Quadro 3: escolarização dos pais dos alunos com deficiência.
Aluno Curso Escolarização
Pai Mãe
João 3º Ciência da Computação Superior completo Médio completo
Lucas 3º Educação Física Superior completo Superior incompleto
Marcos 1º Geografia Fundamental incompleto Fundamental incompleto
Mateus 1º Pedagogia Fundamental incompleto Fundamental incompleto
Os pais do aluno Lucas são os que apresentam melhor escolarização, seguidos pelos pais de João. Os pais de Marcos e Mateus apresentaram as escolarizações mais modestas, ou seja, Ensino Fundamental incompleto.
No próximo quadro, será apresentada a escolarização dos pais dos alunos da sala de aula onde estão matriculados os alunos com deficiência.
Quadro 4: Escolarização em porcentagem dos pais dos alunos nas salas
onde estão matriculados alunos com deficiência
Em relação à escolaridade dos pais do aluno Lucas (Educação Física), sua genitora, que possui Ensino Superior incompleto, encontra-se na mesma faixa dos quase 9% das mães dos alunos de sua sala de aula, sendo que a grande maioria das mães, mais de 64%, possui até o Ensino Médio completo. Quanto ao pai, esse também se encontra entre os 31,11% dos que possuem Ensino Superior completo e, da mesma forma que as mães, mais de 64% dos pais concluíram até o Ensino Médio.
A mãe de João (Ciência da Computação), com Ensino Médio completo, encontra-se na mesma faixa educacional da maioria das mães dos alunos de sua sala, com mais de 51% e o pai, com Ensino Superior completo, encontra-se ainda na faixa dos 31,43% com aquela formação.
Escolarização Ciência da Computação Educ. Física Geografia Pedagogia
Pai Mãe Pai Mãe Pai Mãe Pai Mãe
Analfabeto 0 0 0 0 5 0 2,86 2,86 Fundamental incomp. 11,43 8,57 24,44 24,44 32,50 32,50 22,86 25,71 Fundamental compl. 5,71 2,86 4,44 8,89 12,50 12,50 20,00 14,29 Médio completo 34,29 51,43 35,56 31,11 32,50 27,50 31,43 34,29 Superior incompleto 17,14 5,71 2,22 8,89 2,50 2,50 2,86 5,71 Superior completo 31,43 31,43 31,11 26,67 15,00 25,00 20,00 17,14 Não respondida 0 0 2,22 0 0 0 0 0 Total 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
Em relação aos alunos Marcos (Geografia) e Mateus (Pedagogia), os pais se encontram na faixa educacional da minoria que possuem o Ensino Fundamental incompleto (entre 17,07 e 19,51%), sendo que a grande maioria dos pais (pai e mãe) possui entre 65,71 e 91,43% de Ensino Médio completo ao Ensino Superior completo.
Não foi possível localizar, na literatura especializada, estudos que contemplassem a temática escolarização dos pais de alunos com deficiência, no Ensino Superior.
Mas, de forma geral, de acordo com Cardoso e Sampaio (1994), ao analisarem o grau de instrução dos pais de universitários, embora com o foco na relação do trabalho, sugerem uma “supervalorização” por parte desses pais que possuem curso superior, de uma formação universitária, como estratégia recorrente para acesso a uma forma de “herança” cultural e econômica.
O que é possível constatar, neste estudo, é que os alunos com deficiência, cujos pais tiveram a possibilidade de avançar mais nos estudos, como é o caso dos alunos João e Lucas, ingressaram na Universidade com menor idade que os demais colegas na mesma condição. É possível que a trajetória dos alunos João e Lucas tenha reflexos do nível de escolaridade dos próprios pais e a natural valorização da formação em nível superior, que hoje representa, sem sombra de dúvida, importante porta de acesso ao mundo do trabalho.