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O cordel em questão traz uma grande aventura vivida por um corajoso jovem denominada Valentão, que fez uma épica viagem, enfrentou monstro e outros adversários para conseguir ser recompensado com o amor da princesa que vivia presa. O enunciador constrói seu discurso, mantendo-se afastado do enunciado, mas, fornecendo fala aos actantes do enunciado, estabelece uma debreagem enunciva. O enunciador não aparece manifestado, apenas implícito, dessa forma, a zona antrópica que prevalece é a de distanciamento e o objeto de transação é o amor da princesa, algo distante de ser atingido, em um percurso cheio de obstáculos, que o leva a alcançar o amor da princesa quando a salva e casa-se com ela.

“Valentão do mundo é

Conhecido na história Venceu e não foi vencido

Teve consigo esta glória Em toda luta trazia

O triunfo da vitória”

“O índio disse: – Se renda

Que para você não há brecha Valentão do mundo disse: Fale pouco e pegue a flecha Feche o corpo, trinque o dente

Firme a mão e lá vai mecha”

No texto, expressões que demarcam o tempo estão muito presentes. Visto ser uma história cercada de muitas aventuras, essas demarcações são importantes para dar a ideia do tempo cronológico dos acontecimentos. São eles: muitos dias, que se refere à duração da viagem de Valentão; no outro dia aparece para informar que, ao se deparar com a vista de um monte, decide descansar e entrar no bosque no dia seguinte; meio-dia foi a hora exata em que Valentão estava descansando em uma fonte quando descobre a existência de uma princesa prisioneira e quem a salvasse seria recompensado com felicidade; 15 anos é a idade da princesa que estava sendo informada no letreiro lido pelo sujeito principal; um ano é o intervalo de tempo durante o qual, constantemente, a princesa vai se banhar na fonte, em forma de garça; 22 dias correspondia ao tempo que faltava para a princesa aparecer na fonte e, assim, Valentão tentar findar com o seu encantamento. O horário em que o dia amanheceu, na fonte, no dia da chegada da princesa, é informado, com precisão, como sendo 4 da madrugada. Depois de conseguir acabar com o feitiço sobre a jovem, Valentão é surpreendido com o príncipe, que queria impedi- lo de levar a princesa. Travaram, então, uma luta, que durou mais de uma hora. 15 dias

corresponde ao intervalo de tempo entre o salvamento da princesa e seu casamento com Valentão.

“Muitos dias viajou

Quando chegou numa fonte Sentou-se para descansar

Contemplou o horizonte Sorriu em ver as belezas

Do panorama do monte”

“Na fonte ele descansando

Na hora do meio-dia Viu um desenho na pedra

De uma fotografia Na pedra tinha um letreiro

Por esta forma dizia:”

“Com 15 dias casou-se

A princesa com Valentão Ela linda como a lua Nas sendas da amplidão Se ele não fosse valente

Tinha perdido o ‘peixão’”

Os espaços também aparecem de forma detalhada para informar os lugares por onde passou o sujeito principal do texto em sua viagem cheia de aventuras. Os espaços genéricos são representados pelo bosque, ponto de partida da viagem cheia de aventuras de Valentão; fonte corresponde ao local em que Valentão iria findar o encanto sobre a bela princesa; caverna era o local em que Valentão enfrentou um monstro e ficou preso; quarto da princesa foi onde Valentão foi parar após ser salvo da caverna.

“No outro dia ele entrou

Naquele bosque elevado O panorama era belo

O horizonte azulado Tudo dava indício De um grande reino

encantado”

“Quando Valentão do

Mundo

Viu o perigo instantâneo Era uma caverna escura De um abismo simultâneo

Uma mão misteriosa

Trancou o subterrâneo”

“Esse aposento era o quarto

Onde a princesa pousava Quando o sol pela manhã No horizonte espalhava

Suas palhetas em ouro

Pela janela escoava”

Os espaços específicos, por sua vez, são representados por localidades que fazem referência à mitologia grega, caracterizada por conter aventuras épicas, denotando que a aventura de Valentão era semelhante às aventuras vividas pelos grandes heróis da mitologia grega. Os espaços manifestados correspondem ao percurso que o sujeito principal teria que percorrer até chegar, enfim, à princesa. O Reino do Monte Pindo seria o destino seguinte de Valentão, após sair da caverna e chegar ao quarto da princesa, no entanto, para chegar no citado reino, ele teria, ainda, um longo caminho, passando pelo Erídano, um dos rios míticos que cortavam o Hades, na mitologia grega; teria que passar pela casa da deusa Juno, onde receberia novas diretrizes, após isso, passaria pelas colunas de Hércules, caminho criado pelo herói

grego, quando desempenhava um de seus doze trabalhos, que ligava o mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico; passaria, também, pelas terras de Bradamonte, chegando nas cavernas de Idra, alcançando o rio de Queronte, rio mitológico por onde passava o barqueiro Caronte, responsável para conduzir os mortos ao Hades. A fonte da Aretusa era o ponto de chegada de Valentão, local onde se encontraria com a princesa e desfaria o encantamento, libertando a amada.

“Nesse aposento ele viu

O retrato dela sorrindo E um letreiro de ouro Que dizia: - Amante lindo

Tu hás de me ver agora No Reino do Monte Pindo”

“Passa as colunas de Hércules

E as terras de Bradamonte Chega as cavernas Idra

Passa na barca Caronte Para Plutão dar-lhe um banho

Lá no rio de Queronte” “Essa fonte disse o índio

Chama-se fonte Aretusa Onde as ninfas nebulosas Vêm dos campos de Ampelusa

Banhar-se nas águas dela

Embalando o som da musa”

Os atores, assim como os espaços, aparecem nomeados ou não. Os nomeados são representados por Edileusa, a princesa, pelos deuses Netuno e Plutão, entidades religiosas da mitologia romana, correspondentes, na mitologia grega, a Poseidon, deus dos mares, e por Hades, deus dos mortos, respectivamente, que aparecem durante o percurso de Valentão para auxliá-lo. Edileusa é um sujeito de um querer ser livre, mantida prisioneira por vários anos e sob um encantamento que transformava em garça, esperava que alguém viesse salvá-la. O ator principal, Valentão, é um sujeito de um querer salvar a princesa, recebendo a adjuvância de sua valentia e força, consegue trilhar os difíceis caminhos para chegar à princesa e, ainda, enfrentar lutas com monstros e o príncipe, que não deixou que levasse a princesa, saindo exitoso de todos os embates, é recompensado com o amor de Edileusa.

“Eu a Princesa Edileusa

Com quinze anos de idade Junto com duas irmãs Sofrendo sem piedade Mas quem nos desencantar

Tem grande felicidade” “Valentão do Mundo é

Conhecido na história Venceu e não foi vencido

Em toda luta trazia O triunfo da vitória”

Os atores não nomeados ou genéricos representam, uma parte, oponentes e outra, adjuvantes, no percurso de Valentão. O primeiro deles vem a ser o monstro esquisito, que prendia a jovem e tornou-se o primeiro adversário do rapaz. O índio apareceu como mais um adversário, lutando com Valentão. Vendo-se prestes a perder o embate, promete, em troca de sua vida, ajudar o rapaz a encontrar a princesa Edileusa. Foi ele quem explicou a forma como Valentão acabaria com o encantamento da princesa e onde ele a encontraria. O príncipe configura mais um oponente do sujeito principal. Após acabar com o feitiço, pensando ter finalmente conseguido a princesa, surge o príncipe para impedi-lo de levar Edileusa com ele. O rei e a rainha aparecem para agradecer o jovem valente por ter libertado a filha deles e, como prêmio, o rei oferece o reino a Valentão.

“Na entrada encontra logo

A estátua de uma deusa No meio encontra uma fada

Nos pés de uma semideusa Adiante um monstro esquisito

Este é quem prende Edileusa” “O índio viu que perdia

Que a luta estava renhida Disse o Valentão do Mundo:

Minha flecha está partida Pelo amor de Edileusa

Tu polpas a minha vida” “Ele sacudiu-lhe a flecha

Que quase se desmantela Partiu a bola ao meio Desceu uma moça bela Um príncipe com uma espada

Desceu pegado com ela”

Dessa forma, na categorização tímica, os agonistas são caracterizados, respectivamente: valente, forte e determinado (eufóricos) para Valentão; injustiçado (disfórico), para a princesa; agradecido (eufórico), para o rei e a rainha; mau (disfórico), para o monstro e o índio.

Os temas que permeiam a narrativa são as qualidades do sujeito principal, que o levaram a casar-se com a princesa: valentia e persistência, outros, na mesma situação, não teriam conseguido chegar até o final da aventura. A paixão pela princesa foi o sentimento que o impulsionou a seguir firme em seu difícil trajeto. A mitologia, em especial a grega, é utilizada para demonstrar que a aventura enfrentada por Valentão era semelhante às vividas pelos grandes heróis gregos. A recompensa vem a ser mais um tema presente, corresponde à coroação

de toda a valentia e empenho de Valentão, que conseguiu ter o amor da princesa e casar-se com ela, além de lhe ser oferecido o comando do reino.

“Era forte e musculoso

Tinha força igual Sansão Domesticava pantera

Pegava lobo de mão Matava cobra de murro

Botava cela em leão” “Ele leu todo letreiro

Ficou bastante vexado Disse: Eu vou entrar na

pedra

Embora fique trancado Ou desencanto a princesa

Ou fico nela, encantado” “E a princesa Edileusa

Naquela ocasião Abraçou Valentão do

Mundo E apertou sua mão Lhe entregou de uma vez

Alma, vida e coração”

Os conflitos que permeiam a narrativa podem ser resumidos em dois: tranquilidade versus aventura. Tal oposição reflete a escolha de Valentão, que abriu mão da vida tranquila que levava para viajar em busca de caça, quando descobre uma princesa aprisionada e decide enfrentar vários adversários e fazer um longo percurso para libertar a princesa.

“Valentão do Mundo um dia

Deixou a camaradagem Para caçar numa serra Arrumou sua bagagem Muniu-se de boas armas

E seguiu sua viagem”

O segundo conflito está na oposição entre valentia e medo. A fama de valente era tão bem conceituada que recebeu a alcunha de Valentão do Mundo, como era conhecido. O sentido contrário à valentia, o medo, era algo que Valentão jamais sentia: nada o causava espanto ou temor, enfrentava monstros, leões, fortes adversários e saia vitorioso das lutas. Não ter medo foi um fator de grande contributo para terminar sua viagem sancionado positivamente, porquanto se sentisse o mínimo de medo, na primeira batalha já desistiria e voltaria para sua vida pacata.

O cordel constrói positivamente a figura de Valentão do Mundo, é um rapaz corajoso, valente e destemido, que nada teme e, ainda, é justo, pois se compadece da situação da princesa, que vivia em uma caverna, presa e se propõe em salvá-la. As aventuras épicas vividas por

Valentão são muito comuns na Literatura Popular para retratar feitos heroicos, sempre fazendo referência à mitologia grega.

DADOS DE IDENTIFICAÇÃO

TÍTULO: O valentão do mundo AUTOR: Severino Milanez

DATA: S/D CLASSIFICAÇÃO

BIBLIOGRÁFICA: Bravura e Valentia

CATEGORIAS DESCRITIVAS DESCRIÇÃO Enunciação Debreagem: Enunciva Enunciador: Pressuposto Enunciatário: Pressuposto

Zona Antrópica: Distanciamento

Objeto Transacional: Amor da princesa

Situação espaço- temporal

Tempo: Específico: 15 dias; 15 anos de idade; um ano; 1 hora; 4 da madrugada; 22 dias

Genérico: Muitos dias; no outro dia

Espaço: Específico:

Casa de Juno; Bradamonte; Rio de Queronte; Fonte de Aretusa; Campos de Ampelusa; reino do Monte Pindo; Erídano; Colunas de Hércules; Cavernas da Idra

Genérico: Bosque; caverna; quarto da princesa; fonte

Atorialização

Específicos: Netuno; Plutão; Edileusa; Valentão

Genéricos: Monstro; índio velho; príncipe; rei; rainha

Natureza dos Agonistas:

Eufórico Disfórico

Valente; forte; determinado; habilidoso;

agradecido injustiçada; mal

Valores investidos Valentia; persistência; mitologia; recompensa; amor

3.4 Folheto 4: Descrição das cidades da Paraíba