• No results found

Comparison of noun vehicles in the English like a/an N and the Norwegian som

3.2 Contrastive analysis of the English as ADJ as N simile

3.2.10 Comparison of noun vehicles in the English like a/an N and the Norwegian som

Na cidade noctívaga reverberam momentos e lugares heterotopianos que se esgueiram à programação hegemónica e rompem com a linearidade quotidiana amplificando, desta forma, a diversidade, a diferença e a resiliência urbanas. Para além de lugar de potencialidade transgressiva da ordem diurna, a noite acolhe lugares de alternativa social, política e artística, instigando, assim, a mudança e emancipação sociais.

A vivência e experiência noctívaga da cidade constitui, desde logo, uma heterotopia e uma heterocronia, uma contraversão quer do quotidiano linear, quer do ritmo circadiano. Estar ativo à noite é viver contracorrente, num tempo que contraria os ritmos biológicos e inverte o ciclo do sono. Aliás, as heterotopias são frequentemente relacionadas com descontinuidades temporais, com heterocronias (Foucault, 1984).

Por outro lado, grande parte das heterotopias baseia-se na ideia de sociedade no seu sentido original de clube, de associação com interesses comuns; os espaços heterotopianos são necessariamente partilhados, comunitários e coletivos (De Cauter & Dehaene, 2008). As heterotopias são oportunidades de confronto, contestação e negociação entre grupos que flutuam entre a aceitação e contradição manifestando-se fisicamente na flutuação entre a invisibilidade e o reconhecimento (Cenzatti, 2008). Neste sentido, a cidade noctívaga, os seus lugares e momentos possuem, desde logo, uma qualidade e potenciais heterotopianos.

O Porto noctívago, é, por si só, uma heterocronia e heterotopia da própria cidade e é ritmado por uma constelação de lugares heterotopianos e de heterocronias. Na ritmografia deambula-se por vários momentos e espaços de diferença. Lugares noctívagos improváveis e inesperados, mais ou menos temporários facilitam e promovem contestações e emancipações sociais/urbanas. A noite revela diversos momentos e espaços-tempos com qualidades heterotopianas – festivos, públicos e contestatários.

Porém, reforce-se que, também neste contexto a cidade noctívaga, na sua dialética, é lugar tanto da linearidade, conformismo e resignação, como da novidade, contracultura e inconformismo. À noite vive-se ao contrário do dia, desafiam-se os ritmos laborais, económicos e biológicos. A cidade noctívaga contraria o tempo diurno, lugar do trabalho e do tempo linear. O tempo normativo do trabalho que o quotidiano contempla é invertido (embora seja igualmente reproduzido) na saída noturna.

…E tem a ver com isso, as pessoas querem-se libertar, querem conversar, querem, tipo, ter uma conversa interessante, que não têm durante o dia de trabalho. Não podem conversar, se calhar, não falam com ninguém, não é?!... E à noite, procuram conversar, beber uns copos e libertarem-se um pouco… E a noite, na noite, quando o sol se põe, é isso que potencia, quase já está dentro de nós, não é?!… <Miguel Seabra>

Vive-se, de noite, um tempo mais pessoal e impreciso do que o dia (Nahoum-Grappe & Tsikounas, 1997): “le jour est (encore) le plus souvent marque par le travail social, et la nuit gommée par le sommeil” (idem, ibidem, p. 6).

... é um tempo diferente, não é?! O tempo da vida noturna é um outro tempo... temos outra disponibilidade, principalmente... A noite tem esse lado que tem piada, tem até alguma magia…O tempo da vida noturna é um outro tempo, em que nos vestimos doutra forma e temos outra disponibilidade, não é?! depois ainda há os ingredientes todos que, que potenciam esse passanço, essa ida para o lado de lá, e isso é muito giro... <Pedro Aparício>

Pode dizer-se que a cidade noctívaga viabiliza sociabilidades heterogéneas, intersubjetividade e contato com a diferença, o que, como Ben Highmore (2002) afirma ao abordar a festividade rabelesiana, o festival popular, cria um momento de possibilidade heteropiana numa realidade distopiana.

Os espaços heterotópicos são efémeros, desaparecem quando as relações sociais que os produzem acabam (Cenzatti, 2008), podendo considerar-se que a própria cidade noctívaga desaparece, suspende-se se e quando as relações sociais que a produzem acabam.

Na cidade noctívaga geram-se lugares e momentos de diferença, de alteridade em que se rompem dicotomias entre o sagrado e o profano, entre o normativo e o desviante, entre o económico e o comunitário, entre o dia e a noite, entre o trabalho e o lúdico.

Espaços normativos transformam-se em heterotopia na produção da cidade noctívaga, desconstroem-se usos de espaços e tempos: um mosteiro que acolhe uma festa de música eletrónica, uma papelaria que se transforma em bar, uma estação de metro que é lugar de clubbing, umas galerias comerciais que se transformam em discoteca, um coreto que acolhe concertos de rock…

‘4 minis e 4 sandes de presunto’ ou Heterotopia na Mercearia Abril, +- 03.00 horas

-‘vamos às Galerias (Paris) comer qualquer coisa e depois vemos onde vamos…há lá um café que agora abre de noite e tem rissóis e assim…’

-‘e a multidão?’

-‘é logo no início, não temos que atravessar a multidão’… - Xii…

O tal café-confeitaria com comida tem à entrada grupos de pessoas compactos, assim como todos os estabelecimentos até ao fim da rua, preenchendo-a, constelações de pessoas, constelações de grupos desenham e densificam o uso da rua.

Afinal o café do outro lado da rua também já abre de noite… mas também tem muita gente…

- ‘já sei! Vamos ali à mercearia que tem umas boas sandes de presunto e minis - ‘a esta hora?!’

Durante o dia é a mercearia tradicional portuguesa com uma montra adornada pelos garrafões de 5 litros, pelos bacalhaus pendurados, as caixas de fruta e legumes no passeio… Lá dentro, um espaço exíguo com prateleiras que exibem uma panóplia de produtos…

Um senhor bem-disposto atende no balcão improvisado de noite e que serve de barreira para o interior da mercearia onde um outro senhor fatia presunto diretamente da perna, embala em pequenos sacos plásticos e agrafa, repete a tarefa e vai trocando palavras com o senhor que atende… ambiente de boa disposição…e trabalho… e diversão… convívio ameno…

- São 4 sandes de presunto e 4 minis - Com ou sem queijo? Quantas minis? <Nota de Terreno>

Por sua vez, e entrando já na rua, os elementos morfológicos da cidade e do edificado (ruas, praças, soleiras, escadas, etc.), assim como o seu mobiliário e estatuária, são apropriados de uma forma alternativa e inesperada que não se verifica durante o dia.

Em síntese, na cidade noctívaga instigam-se usos inesperados de espaços e de tempos, dinamizam-se de espaços esquecidos, reavivam-se usos sociais, comunais e grupais, estabelecem-se contactos e partilhas entre diferentes personagens urbanas. Por via da heterotopia, o espaço urbano torna-se mais urbano...