O termo “cangaço” surgiu como designação do conjunto de vários objetos usados pelos escravos e camponeses pobres que habitavam o nordeste do Brasil – o que equivaleria a bagulhos ou troços. Posteriormente, o termo passou a ser utilizado para designar o conjunto de armas que os bandoleiros carregavam. Em razão dessa extensão de sentido, surgiram expressões como viver no cangaço ou tomar o cangaço, significando um estilo de vida relacionado às armas, seja por causa de desforra ou vingança pessoal, assaltos, serviços contratados de armas, dentre outros (CASCUDO, 1954). A partir de então, o termo cangaço passou a designar um movimento social e revolucionário, organizado por homens armados que vagavam pelas cidades em busca de justiça e vingança.
De modo geral, as origens do movimento estão nas próprias questões sociais e fundiárias do nordeste. Entretanto, conforme Alves Viana (2012), certos fatores foram determinantes para o surgimento do cangaço. Uma das principais razões é o fator latifundiário, ou seja, a relação do homem do campo com a terra. Para Cardoso (2003), o cangaço surgiu no nordeste brasileiro em razão da fragilidade agropecuária e do monopólio da terra por parte de alguns latifundiários – em sua maioria, coronéis. Na verdade, o cangaço no nordeste nasce no contexto do coronelismo, a princípio, com os capangas e cabras, homens de arma que eram usados para a segurança ou para atacar os inimigos, e, depois, com os bandos independentes, que prestavam serviço aos coronéis mediante pagamento.
Outro fator que contribui para o surgimento do cangaço foi a questão ambiental. O nordeste sofria com as questões em torno do latifúndio, da escassez de trabalho, da exploração de mão de obra, mas, principalmente, com o surgimento de períodos prolongados de seca.
O cangaço surgiu numa região pobre, o nordeste semiárido, cuja principal característica do quadro natural é a existência de períodos secos, que desestruturam a economia local, onde a concentração de terras nas mãos de poucos ainda se mantém rigidamente inflexível. Não encontrando soluções para a sobrevivência, ao homem nordestino restava a pouca espera, crescia a apatia de sentimentos ao observar a miséria à sua volta. Muitos levados ao desespero tendiam a enveredar pelos caminhos da violência para escapar da realidade em que o latifundiário – o patrão – lhe
tirara todo o suor, restando apenas revolta e por motivos inconscientes tornando-se muitas vezes cangaceiros (CARDOSO, 2003, p. 21).
Ao aspecto social e ambiental, acrescenta-se o isolamento da região em relação ao restante do país. De acordo com Mello (1985), o cangaço era uma espécie de banditismo do nordeste, desenvolvido e maturado em um contexto de isolamento nacional e de uma região de duras secas, na qual o desenvolvimento e seus recursos tardaram a chegar. O sertão nordestino, diferentemente das demais áreas desenvolvidas do país, era carente de investimentos e possuía uma economia debilitada, com base numa resistente e frágil pecuária. Tratava-se, pois, de um sertão favorável à marginalidade.
Fatores de outras ordens também favoreceram o surgimento do cangaço, como o ideal de vingança.
O fato é que os cangaceiros pareciam sentir necessidade de alinhar-se a uma moral nordestina que esperava e até exigia „olho por olho‟, e que valoriza a valentia. Assim todos os bandidos que falaram alguma coisa sobre sua entrada no cangaço fizeram um esforço para justifica-la em termos de injustiça contra eles ou contra seu povo (NARBER, 2003, p. 162).
Foi o que aconteceu com o mais famoso de todos os cangaceiros, Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. Filho de José Ferreira da Silva e Maria Sulena da Purificação, Virgulino entrou para o cangaço no início da década de vinte do século passado para vingar a morte do pai, morto em confronto com a volante em mil novecentos e dezenove. A família de Lampião vivia pacificamente em região rural do município de Serra Talhada, estado de Pernambuco. No entanto, por motivos não claramente conhecidos, envolveu-se em disputas com vizinhos e o patriarca, José Ferreira da Silva, foi morto pela volante em uma dessas disputas. Desde então, Lampião decidiu vingá-lo. Tornou-se bandido e entrou para o cangaço.
De início, Lampião formou seu bando com seus dois irmãos, alguns primos e uns poucos amigos, que somavam, aproximadamente, trinta homens. Juntos, passaram a atacar fazendas e pequenas cidades em cinco estados do Brasil (Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas e Sergipe), quase sempre a pé
e às vezes montados a cavalo. A partir de então, muitos outros revoltosos decidiram ingressar no cangaço e fazer parte do bando de Lampião (CARDOSO, 2003), de modo que, em pouco tempo, o bando passou a contar com mais de cinquenta homens.
Em pouco tempo, Lampião tornou-se conhecido e temido em todo nordeste brasileiro, recebendo, inclusive, a alcunha de Rei do cangaço. Seu grupo de cangaceiros promovia saques a fazendas, ataques a comboios e sequestravam, principalmente, fazendeiros, a fim de obter resgastes. Entretanto, aqueles que respeitavam e acatavam as ordens dos cangaceiros não sofriam, mas, pelo contrário, eram muitas vezes ajudados. Esta atitude, fez com que os cangaceiros fossem respeitados e até mesmo admirados por parte da população da época, especialmente a população mais carente. Por causa disso, Lampião foi comparado ao herói inglês Robin Hood, que roubava comerciantes e fazendeiros para distribuir parte do dinheiro com os mais pobres.
Figura 07: Cabeças decepadas de Lampião e de alguns cangaceiros de seu bando Fonte: Nonato 2012.
Por causa dos crimes cometidos, que infligiam as leis estabelecidas pelo governo, o grupo era constantemente perseguido pelos policiais. Na verdade, àquela época, foram criadas volantes19 para tentar combater e capturar os cangaceiros, que os apelidaram de “macacos” pelo jeito como fugiam da represália dos cangaceiros, como que pulando de forma apressada e se escondendo na mata (ALVES VIANA, 2012). Foi, inclusive, em uma emboscada organizada por uma volante que Lampião e parte de seu bando foram assassinados, em julho de mil novecentos e trinta e oito. As cabeças dos cangaceiros foram de decepadas e expostas em locais públicos, pois o governo queria assustar e desestimular esta prática na região.
4.3.1 Sobre o assalto à cidade de Mossoró
Não era do interesse de Lampião, ao menos inicialmente, assaltar Mossoró20:
era uma cidade grande, já bastante desenvolvida, com ares de capital, uma das cidades mais próspera do estado do Rio Grande do Norte. Assaltá-la não seria tarefa fácil e, portanto, Lampião não atribuía nenhuma fidelidade a esta missão. Mas, instigado, principalmente, pelos cangaceiros Antônio Massilon Leite (Massilon ou Benevides) e José Leite de Santana (Jararaca), dois importantes membros do seu grupo, Lampião reuniu mais de cinquenta homens, todos bem armados e municiados, e se embrenhou no interior do estado e percorreu quase quatrocentos quilômetros, visando alcançar Mossoró e tomá-la de assalto.
Lampião chegou aos arredores da cidade na madrugada do dia treze de junho de mil novecentos e vinte e sete. Foram quase cinco dias de peregrinação. Entretanto, ao contrário do que esperavam, Lampião e seu bando de cangaceiros encontraram em Mossoró resistência: a cidade estava armada e preparada para enfrentar o bando. O prefeito, Coronel Rodolfo Fernandes, organizou trincheiras em diversos pontos estratégicos e municiou policiais e civis para defender a cidade do ataque. Pouco tempo depois da invasão do bando, alguns cangaceiros já se
19 Grupos de soldados ou contratados que percorriam as caatingas em busca de grupos cangaceiros. Alguns ficaram famosos por sua perversidade contra civis.
20 Município brasileiro no interior do estado do Rio Grande do Norte, situado na mesorregião do Oeste Potiguar e microrregião homônima, Região Nordeste do país. Ocupa uma área de 2 099,333 km², sendo o maior município do estado em área, estando distante 281 quilômetros da capital do estado, Natal (IBGE, 2012).
encontravam mortos e outros feridos. Diante deste cenário, Lampião e seu bando saíram em retirada e Mossoró locupletou vitoriosa.
Figura 08: Itinerário de Lampião e seu bando no Rio Grande do Norte Fonte: Nonato (2012).
Este episódio compreende um dos principais acontecimentos da história de Mossoró e do estado do Rio Grande do Norte. Desde então, Mossoró ficou conhecida como a única cidade do Nordeste a expulsar Lampião e seu bando de cangaceiros sem a ajuda das forças militares e unicamente com a participação do povo da cidade e, por isso, recebeu o título de terra da resistência. Um dos principais museus da cidade, o Memorial da Resistência, apresenta várias exposições que destacam o tema do cangaço e a resistência da cidade de Mossoró ao bando de Lampião. Além disso, durante o mês de junho, é montado um
cenário em frente à Igreja de São Vicente, ao lado da antiga casa do Coronel Rodolfo Fernandes, onde se apresenta o espetáculo teatral “Chuva de balas no país de Mossoró”, apresentação artística referente à tentativa de assalto do bando à cidade.
Àquela época, vários jornais do estado do Rio Grande do Norte e de outros estados vizinhos fizeram a cobertura do ousado acontecimento. Em Mossoró, muitos números dos jornais O Nordeste, Correio do Povo e O Mossoroense foram dedicados com exclusividade à tentativa de assalto do bando de Lampião à cidade de Mossoró – conforme mostramos no terceiro capítulo desta tese. Os números destes jornais tornaram-se documentos de valor histórico imensurável, porque descrevem com riqueza de detalhes o acontecimento de treze de junho na cidade de Mossoró.
Convém esclarecer que as posições ideológicas, sociais e políticas assumidas naqueles jornais não representavam, necessariamente, os interesses dos governos estaduais e municipais, mas, por tratar-se de jornais ditos liberais, eram voltados aos interesses do povo. Claro que autoridades ou indivíduos de maior prestígio social, tais como industriais, comerciantes, empresários, grandes fazendeiros, dentre outros, também exerciam certas influências sob estes jornais, especialmente pelo fato de muitos deles serem parcialmente financiados por esses sujeitos. Desse modo, mesmo que indiretamente, os discursos veiculados pela imprensa daquela época eram controlados pelas figuras mais expoentes da cidade de Mossoró, o que justifica, em razão do contexto histórico em que as notícias foram escritas, a construção de certas representações discursivas para Lampião e seu bando de cangaceiros.