12 Economic Results
13.2 Comparison of each case in each scenario
Com as limitações trazidas pela crise de sobreacumulação, bem como pelas formas rígidas de produção clássicas do fordismo, o capitalismo procurou formas de produção e gerenciais mais flexíveis que criassem e a atendessem novas demandas sociais. Segundo Sardinha (2006), a partir de um determinado momento, percebeu-se que conceitos e procedimentos que até então eram operativos, como por exemplo, “a possibilidade de quantificação e cristalização do tempo de trabalho socialmente necessário na produção de mercadorias, a conversão dos trabalhos concretos em trabalho abstrato e os mecanismos de controle e subordinação do trabalho vivo no chão-de-fábrica” (Idem, p. 23), passaram a não dar mais conta das necessidades do próprio sistema. Dessa forma, buscou-se novos modos de gerenciamento, uma nova forma de subsunção do trabalho e um novo panorama conceitual, alterando a natureza das formas de realização da acumulação.
De acordo com Bolaño (2002), o que se passa a viver a partir de então é um processo duplo de subsunção do trabalho intelectual e de intelectualização dos procedimentos tradicionais de trabalho. O foco passa a ser na extração das energias mentais do trabalhador e não mais necessariamente na física. A chamada Terceira Revolução Industrial, assentada no desenvolvimento das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), das redes telemáticas e das biotecnologias, tem levado ao apagamento das fronteiras entre trabalho manual e intelectual.
O modelo de produção flexível exige um trabalhador intelectualizado, capaz de gerir e coordenar os processos e de produzir conhecimento. A questão econômica que se coloca a partir de então, como destaca Bolaño (1997; 2002; 2004), é a de como transformar conhecimento tácito em conhecimento codificado, transformando aquele em mensagem que possa ser utilizada como informação agregada, pois a nova dinâmica concorrencial depende da existência de um espaço de diálogo no interior do qual um código é essencial. A flexibilidade do modelo reside na capacidade de entrosamento e comunicação dos trabalhadores e, portanto, na aptidão para dar respostas rápidas e “eficientes” às demandas do mercado.
[…] pode-se definir a codificação como a operação que consiste em plasmar o conhecimento sobre um suporte, liberando-o da sua ligação a uma pessoa, o que permite reduzir custos e aumentar a confiabilidade das operações de estocagem, memorização, transporte, transferência, reprodução, acesso e pesquisa, ao tornar o conhecimento reprodutível, o que, por outro lado, faz com que ‘um conhecimento codificado se aproxime das características de uma mercadoria’ (BOLAÑO, 2004, p.13).
desenvolvimento de produtos, vão buscar o conceito de Ba para explicar a importância e a possibilidade do gerenciamento do conhecimento tácito nas novas formas de produção. Ba é entendido então como um espaço compartilhado próprio para o florescimentos de relações, ele pode ser físico, virtual ou mental ou ainda integrado por estes três aspectos. Contudo, Ba é caracterizado justamente pela sua dimensão intangível, sem a qual torna-se apenas informação codificada em algum aparato tecnológico. Ou seja, Ba é o espaço compartilhado que permite a criação e do desenvolvimento do conhecimento tácito. Os autores então desenvolvem um modelo que permita às empresas gerenciar e absorver o conhecimento gerado pelos trabalhadores. Deve-se criar um ambiente em que seja possível a Socialização, a Externalização, a Combinação e a Internalização (SECI Model) do conhecimento. A ideia é transformar o conhecimento explícito desenvolvido nesse processo em conhecimento tácito da própria organização empresarial.
Takeuchi e Nonaka (1986), em artigo que analisa os métodos de gerenciamento de desenvolvimento de produtos em importantes empresas dos Estados Unidos e do Japão20, salientam que as regras para a criação de novos produtos mudaram e que, para além da alta qualidade, do baixo custo e da diferenciação, exige-se rapidez e flexibilidade. Segundo os autores, o antigo modelo de produção é como uma corrida de revezamento, onde um grupo de trabalhadores vai passando o bastão para o outro, em um processo fracionado e especializado. Já um modelo flexível e ágil é como jogo de rúgbi. O produto emerge da constante interação do grupo em um processo em que uma equipe multidisciplinar trabalha junto do começo ao fim. “A energia, a motivação e o esforço podem se espalhar por toda a grande empresa e começar a quebrar algumas rigidezes que se estabeleceram ao longo do tempo” (TAKEUCHI & NONAKA, 1986, p. 3 – Tradução livre).21
A partir do análise do desenvolvimento de alguns produtos das empresas selecionadas, Takeuchi e Nonaka (1986) identificaram seis características no processo. A primeira, “Built in instability”, trata de estabelecer objetivos e desafios para que uma equipe multidisciplinar apresente uma solução. Assim, a direção cria um elemento de tensão confiando a equipe um projeto de grande importância para a organização e forçando que os trabalhadores trabalhem em conjunto. O segundo aspecto identificado foi o “Self-organizing Project Teams”, que possui três elementos: autonomia (autonomy), transcendência-própria (self-transcendence) e a fertilização cruzada (cross-fertilization). De modo geral, isso !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
20 Foram estudadas, na época, empresas que adotaram a nova perspectiva de produção, são elas Fuji-Xerox, Canon, Honda, NEC, Epson, Brother, 3M, Xerox e Hewlett-Packard.
21 “The energy and motivation the effort produces can spread throughout the big company and begin to break down some of rigidities that have set in over time” (TAKEUCHI & NONAKA, 1986, p. 3).
significa que a equipe ganha autonomia de atuação, podendo inclusive ampliar os objetivos sem limitações quando avaliar necessário. O último elemento deste aspecto diz respeito ao caráter multidisciplinar do grupo. A terceira característica, “Overlapping Development Phases”, concerne ao sentimento holístico que deve emergir no grupo no estabelecimento de um ritmo e de uma unidade de trabalho, surgindo assim um pulso que passa a ser a força diretiva da equipe. O quarto aspecto, “Multilearnig”, refere-se ao processo contínuo de aprendizagem que deve se estabelecer no grupo; assim, são valorizadas práticas de tentativa e erro, e o estímulo a aquisição de experiência em outras áreas. O “subtle control” é o controle que a direção e os supervisores tem sobre a equipe. Se, por um lado, é estimulado a autonomia, por outro, a direção estabelece limites para que o processo não se torne um caos. Contudo, são evitadas formas rígidas de controle. “Em vez disso, a ênfase é sobre o auto- controle’, ‘controle através de pressão dos pares’ e ‘controle por amor’”22 (Idem, p. 8 – Tradução livre). A última característica, “Transfer of Learning”, diz respeito à difusão e à transferência para os outros grupos do conhecimento adquirido durante o processo de desenvolvimento do produto. Desse modo, a companhia consolida um ambiente de conhecimento agora de propriedade da empresa e não do trabalhador.
A partir da análise das contribuições de Takeuchi e Nonaka, Bolaño e Mattos (2004) destacam que a ênfase no sentimento de coletividade dada pelas novas formas de gestão do conhecimento visam criar as condições para a organização do trabalho intelectual coletivo, de modo a aumentar a produtividade. Esse aspecto, em certa medida, possui semelhanças com a organização científica do trabalho característica do fordismo/taylorismo. Além disso, afirmam os autores:
Estamos precisamente nos aproximando do que caracteriza a dominação capitalista do trabalho intelectual, a qual não pode operar através de formas de coerção puramente físicas. A ideia foucaultiana da passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle encontra aqui a sua expressão mais adequada, referida à mudança fundamental do capitalismo da segunda para o da terceira revolução industrial […] O ‘controle pelo amor’, na verdade, não é outra coisa senão a forma de garantir a exploração capitalista do trabalho intelectual, pois a mais valia já não advém prioritariamente da extração das energias físicas, mas mentais do trabalhador. A subsunção do trabalho intelectual é, portanto, a explicação marxista, no concernente ao processo de trabalho sob o capitalismo avançado, da passagem para a sociedade de controle, o que exige a atividade intelectual constante dos trabalhadores e a recorrente conversão do conhecimento tácito em codificado (BOLAÑO & MATTOS, 2004, p. 15 e 16).
O novo paradigma produtivo está assentado na transformação de conhecimento tácito !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
22 “Instead, the emphasis is on the ‘self-control’, ‘control trough peer pressure’, and ‘control by love’” (Idem, p. 8) .
em conhecimento codificado, possibilitando a exploração da subjetividade do trabalhador e das suas pontencialidades criativas em uma escala jamais alcançada. Como salienta Sardinha (2006), o valor do trabalho vivo passa a ser medido pela capacidade de introduzir informações no processo de produção e não mais pelo emprego de energia física. Trata-se de um modelo essencialmente comunicacional, no qual informação e conhecimento são os principais insumos e tem, assim, seus valores redefinidos. Essa dimensão da informação e do conhecimento está associada ao papel central que a inovação desempenha no regime de acumulação sob dominância financeira. A ênfase no processo de inovação tecnológica permite a rápida atualização das formas de gestão organizacional e produtiva, tornando-as cada vez mais flexíveis; o encurtamento do tempo de giro do capital por meio da compressão do espaço e do tempo; impulsiona a obsolescência planejada dos equipamentos (destruição criativa); criam-se mecanismos de comunicação que agilizam e facilitam o acompanhamento dos mercados financeiros. Além disso, esses processos representam a valorização no mercado financeiro dos “papéis” vinculados à produtos e patentes de um determinado grupo ou empresa, sendo portanto centrais no caráter rentista e patrimonial do capital financeiro. “Sob condições de recessão e elevada competição, o direcionamento para explorar tais possibilidades tornou-se fundamental para a sobrevivência” (HARVEY, 2007, p. 156). Portanto, o domínio da informação e do conhecimento, principais insumos da inovação tecnológica, passaram a ocupar um lugar central na concorrência.