O quinto e último eixo do ativismo é a execução da ação, a concretização de iniciativa que busca atingir determinado intuito, seja uma meta ou a própria realização de determinada causa. Ou seja, trata-se das atividades especificamente direcionadas para realizar objetivos previstos. A ação coletiva em si é o fenômeno resultante da combinação de vários elementos como interesse, organização, mobilização (TILLY, 1978) e também, a delineação da estratégia, quando esta ocorre. Vimos nos parágrafos anteriores o interesse (na configuração da causa), a organização (na estruturação), a mobilização (no engajamento) e a delineação da estratégia (no planejamento). Naturalmente todos esses itens convergem para a ação por que o agir está claramente vinculado aos objetivos que precedem a realização da própria causa. Mas o que caracterizaria a dinâmica da ação em si? O que determina a sua forma? A análise de três elementos é bastante útil neste sentido: (a) A ideia de oportunidade; (b) o conceito de repertório; (c) e a noção de recursos.
Diversos autores vêm reafirmando as oportunidades políticas como elemento importante na dinâmica das iniciativas de uma ação coletiva (TILLY, 1978; MELUCCI, 1989; OBERSCHALL, 1993; McADAM; McCARTHY; ZALD, 1996; TARROW, 1996; PORTA, 1996). O que podemos chamar de “oportunidade” pode ser sintetizado como as
janelas políticas – na forma de circunstâncias, conjunções, situações, eventos – que propiciam contextos adequados ou virtualmente profícuos para que uma ação seja executada e seus objetivos concretizados. Envolve diretamente a relação de um grupo, de uma causa, de um movimento com o seu entorno, isto é, o cenário político mais amplo.
Para Tarrow (2009) as oportunidades delineiam os horizontes possíveis para uma ação e a própria ação, ao ser executada, também pode repercutir em novas oportunidades, gerando assim um movimento potencialmente55 cíclico. Um outro elemento que deve ser levado em conta no surgimento de oportunidades para a ação é o contexto no qual o movimento está inserido, principalmente o tipo de regime político. Tilly e Tarrow (2007) veem tal contexto na forma de estruturas de oportunidade política e apontam seis aspectos de um regime político que afetam as oportunidades de ação, bem como as ameaças que um movimento está submetido:
General features of a regime affect the opportunities and threats impinging on any potential maker of claims, and changes in those features produce changes in the character of contention. We can sum up crucial features of regimes as political opportunity structure. Political opportunity structure includes six properties of a regime: 1. The multiplicity of independent centers of power within it; 2. Its openness to new actors; 3. The instability of current political alignments; 4. The availability of influential allies or supporters for challengers; 5. The extent to which the regime represses or facilitates collective claim making; 6. Decisive changes in items 1 to 5 (TILLY; TARROW, 2007, p. 57).
Isto implica em dizer, na prática, que o tipo de regime no qual um grupo está inserido, ou contra o qual um grupo ativista está em conflito pode influenciar o horizonte das oportunidades para a ação. Mas não significa dizer que o regime determina em stricto sensu ou fecha as oportunidades possíveis. Ou seja, nas entranhas de um regime autoritário não significa que seja impossível surgir ações de cunho democrático pelo fato deste contexto inibir oportunidades democratizantes. Ações democratizantes podem ocorrer em regimes autocratas justamente através de janelas de oportunidades suscitadas por uma ação autoritária que gerou, como efeito colateral, um contexto propício para uma ação (ou reação) de cunho revolucionário, por exemplo.
Simultaneamente, as oportunidades não são capazes por si só de suscitar e sustentar as ações do ativismo. Precisam reagir com outras variáveis que, ao serem combinadas, podem surtir ou não efeito prático, como ressalvam McAdam, McCarthy e Zald (1996, p. 5):
55 Frisa-se “potencialmente” porque nem sempre uma ação tem a capacidade de repercutir em novas
If the combination of political opportunities and mobilizing structures affords groups a certain structural potential for action, they remain, in the absence of one other factor, insufficient to account for collective action. Mediating between opportunity, organization, and action are the shared meanings and definitions that people bring to their situation. At a minimum people need to feel both aggrieved about some aspect of their lives and optimistic that, acting collectively, they can redress the problem. Lacking either one or both of these perceptions, it is highly unlikely that people will mobilize even when afforded the opportunity to do so.
O outro elemento útil para analisar a ação é o conceito de repertório, principalmente a partir das contribuições de Tilly (1978, 1995, 2006, 2008). O autor tratou do tema em diversas obras ao longo de sua trajetória acadêmica e o tema sofreu algumas mutações neste percurso (ALONSO, 2012). Inicialmente, a ideia de repertório surgiu como o cardápio de rotinas assimiladas e compartilhadas que são colocadas em ação por grupos ativistas no confronto político. Em suas obras mais maduras, Tilly vinculou tal conceito à ideia de performance, usando a metáfora do palco teatral:
We can capture some of the recurrent, historically embedded character of contentious politics by means of two related theatrical metaphors: performances and repertoires. Once we look closely at collective claim- making, we can see that particular instances improvise on shared scripts. Presenting a petition, taking a hostage, or mounting a demonstration constitutes a performance linking at least two actors, a claimant and an object of claims. Innovation occurs incessantly on the small scale, but effective claims depend on a recognizable relation to their setting, to relations between the parties, and to previous uses of the claim-making form. Performances clump into repertoires of claim-making routines that apply to the same claimant-object pairs: bosses and workers, peasants and landlords, rival nationalist factions, and many more (TILLY, 2006, p. 34-35).
Este conceito é importante pois demonstra que o ativismo se utiliza de um leque de performances pré-configuradas a partir do qual lança mão e faz adaptações a depender do contexto político no qual está inserido, visando também o objetivo que busca alcançar. De forma complementar, paralelamente à concepção de repertórios, Snow e colegas (1986) também introduzem o conceito de framing como um elemento importante na orientação da ação. Nesta perspectiva analítica, a execução de uma ação coletiva também está inserida em um enquadramento maior no qual os atores estão inseridos. Isso envolveria o
compartilhamento de sentidos, significados, crenças, pressuposições que influenciam o tipo e a forma que a ação tomará56.
Ao mesmo tempo que há um repertório comum com significados compartilhados e frames, também devemos lembrar que este não é imutável ou fixo: É adaptado e reinventado com o tempo, não devendo ser compreendido como algo estático e sim como algo dinâmico e vivo. Inovações nos processos de comunicação podem ampliar esse leque de performances, como veremos na próxima seção. Para o autor esta capacidade de reinvenção e flexibilidade no repertório é mais comum em grupos ativistas, isto é, grupos desafiantes. Estados ou outras instituições que concentram poder tendem a replicar performances, principalmente aquelas que tiveram sucesso em manter determinado status quo, por isso, tendem a manter repertórios menos inovadores, mais fixos no tempo.
Da mesma forma como ocorre com as oportunidades, como vimos, os repertórios também são influenciados pelos contextos políticos. A baixa ou alta capacidade57 de um governo, o fato de ser um regime democrático ou um regime não democrático, são variáveis que, ao serem cruzadas, podem limitar ou expandir as possibilidades de repertórios disponíveis para ativistas (TILLY, 2006).
Paralelamente à existência de oportunidades e repertórios, um terceiro elemento que compõe a execução da ação é a existência de recursos. A ação em si só pode ser exequível se levar em conta os recursos que os ativistas têm em mãos para torná-la efetiva no plano real. Devemos entender por recursos os elementos materiais (tangentes) e imateriais (intangentes) que o ativismo detém (ou precisa se apoderar) para efetivar uma ação tais como dinheiro, logística, legitimidade, força de trabalho, tecnologia, capital social etc. (McCARTHY; ZALD, 1977). Uma das principais características dos recursos é a sua escassez. Por isso, há disputas não apenas contra adversários centrais (como Estados, autoridades, corporações), mas também entre ativistas de grupos diferentes para a obtenção de recursos considerados valiosos (McCARTHY; ZALD, 1977). Assim, muitas estratégias e ações que precedem as finalidades de um movimento podem ser voltadas para a obtenção de recursos estratégicos necessários para serem utilizados no plano maior do movimento.
Por fim, do ponto de vista mais amplo, vale ressaltar que, embora a ação seja um fenômeno prático que geralmente visa um objetivo específico, isso não significa que seja algo
56 O debate trazido por esses autores é inspirando nos trabalhos de Erving Goffman (2006).
57 Como explica o autor: "Governmental capacity (degree to which governmental actions affect distributions of
populations, activities, and resources within the government’s jurisdiction, relative to some standard of quality and efficiency): low (0) to high (1)" (TILLY, 2006, p. 21).
que está sob o pleno controle dos ativistas e nem que tenha real efetividade, dado que podem tomar rumos inesperados:
O curso da ação não é uniforme. Ele é semeado de arapucas, interrompido por peripécias e giros imprevisíveis, é exposto a maquinações e armadilhas, é relançado por manobras e projetos. Com frequência toma direções imprevistas, sai do rumo das expectativas de seus agentes, bifurca-se em várias possibilidades, impõe que se pesem prós e contras (CEFAÏ, 2009, p. 34).
Assim, as estratégias tentam justamente minimizar os riscos e esta perda de controle, de modo que os recursos disponíveis (dinheiro, legitimidade, logística, tecnologia etc.) é que tornam os repertórios possíveis de serem executados na prática. Vale lembrar que nem toda a ação é precedida de um plano e nem sempre o planejamento consegue ser totalmente executado, como vimos anteriormente.