Visual Art and Corporate Collections
2 The Flâneur Perspective on Visual Art
2.2.6 Comparing the included art collections
A questão da agressividade assume um peso maior no interior da teoria kleiniana do que em outros autores, sendo-lhe um elemento essencial. A psicanalista austríaca é, longe de qualquer discordância, uma teórica do sofrimento humano, demonstrando uma sensibilidade clínica que, neste terreno, se revela insuperável. Não restam dúvidas em relação à fertilidade, à singularidade e à sua lucidez teórica, e se, outrora, Freud nos deixou sedentos de outras possibilidades de lidar com a agressividade (que não pela via do recalque57), Klein bate o martelo na questão da simbolização.
Klein nos oferece um legado de contribuições inigualáveis sobre a agressividade - legado que fundamentou a clínica psicanalítica com crianças e que teve um alcance ainda maior porque permitiu ao psicanalista iluminar aspectos da mente que permaneciam obscuros, à sombra da teoria freudiana, pois não encontravam expressão direta naquela teoria. Logicamente, a riqueza das contribuições kleinianas não se fez apenas como instrumental para a compreensão da clínica psicanalítica infantil, mas estendeu-se à psicanálise como um todo.
Ao longo de toda sua obra, podemos ouvi-la falar com freqüência das questões em torno do sadismo, cuja elaboração será de fundamental importância para o desenvolvimento emocional e intelectual. Em A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego, texto escrito em 1930, a autora sugere que certa quota de sadismo se revela fundamental para o desenvolvimento psíquico, para que se possa proceder à exploração do mundo externo e à formação de símbolos. Se o ego lida com as ansiedades que o assalta desde o início, expulsando para fora de si todo o seu sadismo ou reprimindo-o muito precocemente, então teríamos algo parecido ao quadro de inibição discutido por Klein através do caso Dick. Isto porque Klein compartilha da ideia freudiana, anunciada em 1905 (Três ensaios sobre a teoria da sexualidade), de
57 Freud admitia a possibilidade da sublimação da pulsão, inventada ainda à época do seu primeiro
dualismo pulsional, conceito até hoje fundamental à psicanálise. Embora os pormenores pelos quais a sublimação se daria não houvessem sido explorados por este autor, podemos nos questionar se é realmente possível sublimar agressividade ou a pulsão de morte. O questionamento se justifica uma vez que, para haver sublimação, é preciso que o aparelho psíquico seja capaz de tolerar certa medida de tempo e de trabalho que um desdobramento pulsional como este (sublimação) exige. Estas medidas de tempo e de trabalho, por sua vez, só poderiam ser sustentadas se houvesse um predomínio das pulsões de vida. Acredito que este fato não inviabilize a sublimação de pulsões destrutivas na medida em que se manifestam fusionadas com as pulsões de vida, mas devemos pensar que, onde quer que haja predomínio das pulsões de morte, o caminho para a sublimação fica, indubitavelmente, atrapalhado.
que a pulsão de domínio, que está na base do sadismo oral e anal, pode ser sublimada e transformar-se em curiosidade, em desejo de conhecer e de saber58.
A ideia que está por trás destas considerações, como exporemos adiante, é a de que o sadismo é sentido como uma ameaça para ego e a forma como este último lida com este perigo terá conseqüências para o desenvolvimento, seja inibindo-o, seja impulsionando-o.
Entretanto, de imediato, cabe-me fazer uma ressalva. O uso do termo ‘sadismo’ por Freud, em outro contexto, pode pegar o leitor desprevenido, causando-lhe certa confusão. Isto porque a psicanalista austríaca utiliza o termo numa acepção diferente da freudiana. O ‘sadismo’ é entendido por Melanie Klein como sinônimo de agressividade, de ódio e destrutividade e, em sua concepção, o termo adquire um sentido muito distante daquele atribuído por Freud ao longo de sua obra. A autora entende a agressividade como uma expressão direta da pulsão de morte, e não como um componente resultado da fusão entre a pulsão de morte e a pulsão de vida ou tampouco como atividade perversa da libido, como outrora poderíamos localizar num primeiro momento da obra do nosso autor. O leitor logo perceberá a equivalência kleiniana entre sadismo, agressividade e destrutividade.
Porém, é interessante notar que, para Melanie Klein, permanece estreita a relação mantida entre sadismo e prazer libidinal. É desta forma que a autora abre o texto de 1930, ao qual nos referimos anteriormente: “A argumentação que desenvolvo neste artigo está baseada na suposição de que há um estágio inicial do desenvolvimento mental em que o sadismo se tona ativo em todas as fontes do prazer libidinal59”. Em
sua concepção, o sadismo atinge seu auge nesta etapa no desenvolvimento e se encerra no estágio anal. E por que se encerra no estágio anal? Porque, neste momento, os impulsos libidinais já se tornaram mais ativos, contrabalanceando as ameaças do sadismo. Retomaremos mais adiante estas ideias.
O uso que fez do termo ‘sadismo’ e a forma muito particular como expôs as questões em torno da agressividade do bebê pequeno renderam à Melanie Klein o codinome de ‘tripeira (açougueira) inspirada’ por parte de Jacques Lacan – reconhecendo a fertilidade de suas contribuições, mas também seu estilo ‘Quentin
58 Todo conhecimento, toda investigação intelectual e todo desejo de saber corresponde, em algum nível,
a certo ‘domínio’ sobre o objeto do conhecimento.
59 M. Klein. (1930). A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. Rio de Janeiro:
Tarantino’, “nu e cru”, no sentido de que, nos seus escritos, ela não atenuava as intensidades daquilo que observava.
Klein não negava a natureza pulsional da agressividade. Vale considerar que a autora desenvolve todo seu trabalho teórico a partir do segundo dualismo pulsional formulado por Freud em 1920, em que o conflito pulsional mais basal do psiquismo se reorganiza em torno das pulsões de vida (pólo que condensa as pulsões do ego e as pulsões sexuais) e das pulsões de morte. Em diversas passagens de sua obra, podemos observá-la explicando a origem da agressividade como uma manifestação direta da pulsão de morte.
Melanie Klein desenvolve uma teoria própria, embora ela justificasse que estava apenas à esteira de Freud (alegação com a qual o próprio Freud não concordava), seguindo a trilha dos seus desenvolvimentos60, o que é verdadeiro apenas durante os primeiros anos de sua estréia na cena psicanalítica. Pouco a pouco, seus desenvolvimentos ganham relevância e autonomia.
Klein introduziu um novo paradigma no cenário psicanalítico ao propor a ideia de posições61 (a posição esquizo-paranóide em 1946 e em 1935, a depressiva), avançando e dialetizando a compreensão de como se organiza e se dá sentido à experiência vivida pela criança. A sua concepção sobre a agressividade está intimamente arraigada nesta idéia. Portanto, para que possamos atingir nosso objetivo – qual seja, o de uma leitura da agressividade na teoria kleiniana –, faz-se necessário compreender melhor a dinâmica em que se inserem cada uma das posições por ela propostas.
Antes de continuarmos, porém, cabe assinalarmos algumas questões ainda sobre o texto de 1930. Assim, aprofundamo-nos um pouco mais na sua perspectiva sobre o sadismo. Klein parte da ideia de que o sadismo, expressão da pulsão de morte, se constitui em uma ameaça para um psiquismo tão pouco organizado como o do bebê. Por esta razão, o psiquismo lança mão de mecanismos de defesa (tão mais violentos quanto maior for o perigo sentido) com vistas a expulsar este sadismo para fora, ensejando uma série de fantasias de ataques violentos direcionados ao objeto. Entretanto e se, por um
60 Este fato adquire maior relevância se levarmos em conta os debates acirrados entre Melanie Klein e
Anna Freud, entre as décadas de 1920 e 1930, marcadamente nos últimos anos.
61 Estas posições coexistem lado a lado ao longo do desenvolvimento, oscilando a todo momento, mesmo
quando ocorre um relativo sucesso na elaboração de cada uma delas. Coube à Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979), um dos seguidores mais brilhantes de Melanie Klein, desenvolver este tema e postular a existência de uma oscilação normal e constitutiva do desenvolvimento emocional entre as posições esquizo-paranóide e depressiva.
lado, este direcionamento da pulsão de morte para o exterior sob a forma fantasiada de ataques ao objeto confere certo alívio a este psiquismo muito precário, por outro lado, este mecanismo gera novas ansiedades em torno das ameaças de retaliação do objeto. Muitos autores, inclusive a própria Klein, foram perspicazes em identificar aí um funcionamento primitivo para o qual a lei de Talião, que se baseia na reciprocidade do crime, serviria como metáfora.
Outro aspecto importante deste texto é a observação kleiniana de que os ataques dirigidos inicialmente ao corpo da mãe também incluem o pai, concebido como objeto parcial. Isto ocorre porque, para esta autora, a criança combina as imagens parciais dos pais. Klein afirma que: “De acordo com as fantasias (ou “teoria sexuais”) mais iniciais da criança a respeito do coito entre os pais, o pênis do pai (ou seu corpo inteiro) se incorpora à mãe durante o ato sexual62”. Penso que a ideia que sustenta esta citação é a de que existe uma concepção dos pais como figuras combinadas e onipotentes, auto- suficientes, formando uma unidade, como ela desenvolverá mais adiante.
Vale salientar que, para Klein, “as fantasias sádicas contra o interior desse corpo [materno] constituem a primeira e mais básica relação com o mundo externo e com a realidade63”. Isto significa dizer que é por meio do sadismo que o bebê entra em contato com o mundo exterior, ideia que será explorada por Winnicott alguns anos mais tarde. Atentemos para o fato de que esse modo de relação expulsiva exige do ego uma contrapartida: é preciso que ele tolere minimamente os produtos (ansiedades) deste processo, as ansiedades necessárias à formação de símbolos e fantasias. Se o ego é incapaz de tolerá-las, ele aciona excessivamente seus mecanismos de defesa projetivos e introjetivos e, assim, perde a possibilidade de um contato mais real com o mundo externo e de uma relação simbólica com os objetos que representam o corpo da mãe.
No primeiro momento, é preciso pensarmos em um bebê que, precocemente, tem que se haver com a violência de uma soma de intensidades pulsionais e de outras intensidades de origem externa que lhe assaltam a tranquilidade e o equilíbrio psíquico derivados das experiências de satisfação. Ainda com um precário repertório psíquico para lidar com estas intensidades – o que inclui tolerá-las –, o bebê lança mão de uma série de mecanismos de defesa que irão mediar a forma específica de relação com os objetos.
62 M. Klein, op. cit., p. 251. 63 M. Klein, op. cit., p. 253.
Desde o início, Klein admite a existência de rudimentos do ego ou de qualquer núcleo que se ocupe das funções egóicas que permite o estabelecimento de relações de objeto. Desta forma, não podemos localizar em sua obra algo correspondente a uma fase de narcisismo primário como foi proposta por Freud em 1914. Para Melanie Klein, “o narcisismo secundário é apenas uma forma visível de uma relação com um objeto escondido no interior do sujeito, de seu corpo ou identificado com sua imagem (um objeto interno)64”. Contudo, um estado de indiferenciação entre o ego e o objeto é concebido a partir da idéia de identificação projetiva, assunto que exploraremos no próximo capítulo.
A forma de atribuir sentido às experiências vividas e de se relacionar com os objetos irão compor as diferentes posições kleinanas. No início, porém, o Eu carece de integração e o padrão de defesas acionados nesta etapa é marcado pela radicalidade.
Neste campo, o encontro com o outro se torna fundamental para que seja possível modular e representar esta soma de intensidades inicial porque é a partir do que se produz neste encontro que o bebê poderá ir transformando, pouco a pouco, a sua urgência pulsional, promovendo uma ligação ali onde havia apenas pura agitação caótica e desorganizante.
Este encontro com o outro estará, em partes, influenciado por alguns fatores constitucionais desde a perspectiva kleiniana. É desta forma que, a princípio, ela entende o sadismo. O sadismo, junto com o ódio e a inveja da qual são manifestações, aparece como expressão da pulsão de morte, pela qual o bebê já nasce atravessado desde o início e o quantum de sua presença no indivíduo tanto pode 1) criar condições que conduzam ao fortalecimento das tendências genitais do desenvolvimento, isto é, do amor pelos objetos (que será uma das formas pelas quais o sadismo poderá ser modulado – ideia já presente em Freud), propiciando vínculos saudáveis, 2) quanto pode servir para inibir o desenvolvimento destas tendências e, correlativamente, propiciar a construção de vínculos extremamente destrutivos, inibindo a construção de vínculos mais saudáveis.
Hinshelwood, em seu dicionário sobre o pensamento kleiniano, afirma que “(...) uma das maneiras pelas quais os impulsos agressivos influenciam o desenvolvimento é promoverem eles um movimento para frente, por parte do ego, na direção dos impulsos
(estimulações) genitais; a fim de mobilizar os sentimentos amorosos65”. Contudo, se os impulsos odiosos e invejosos forem muito intensos, então, de saída, torna-se mais difícil a introjeção das experiências sentidas como boas pelo bebê, pois estas terão que fazer face ao peso das intensidades sádicas deste último. Se também o ego não tem capacidade para tolerar as ansiedades geradas pelo seu sadismo, então, ficará aprisionado pelos próprios mecanismos de defesa, incapaz de desenvolvimento e integração e de um contato verdadeiro com a realidade.
Procedamos então à discussão das posições kleinanas.
A. A posição esquizo-paranóide: a vida psíquica dominada pelas intensidades