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O papel atribuído por Wittgenstein à memória como fonte da identidade poderá ser compreendido como uma consequência semântica do papel ontológico da memória como fonte do tempo. Aqui não será a memória diretamente nosso objeto de estudo,

103 Os objetos físicos serão construções a partir dos fenômenos; como veremos no capítulo 3.

104 A bipolaridade da memória só será possível ao ser concebida como a representação de um evento

físico passado, cuja positividade ontológica no passado (no modo de apresentação fisicalista do tempo) garante a distinção entre a memória e o evento rememorado - veremos isso em detalhe ao longo deste capítulo.

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mas o reconhecimento ("Wiedererkennen").106 O ponto em questão é que, se, no mundo primário, "ser passado" significa "ser dado pela memória", a determinação, de se um fenômeno já dado é ou não o mesmo que um fenômeno presente, ocorrerá tendo exclusivamente a memória como critério. Ou seja, visto que não há nenhum outro passado que o passado da memória, a memória será a única "corte de apelação" e, desse modo, aquilo que determina o critério de identidade dos fenômenos.107 Assim, um

fenômeno será o mesmo que um fenômeno anteriormente dado se e somente se eu o reconhecer como o mesmo.

O modo como o autor concebe a memória como a fonte da identidade é explicitado no MS 107 (e a importância desse trecho reside no fato de que será o antípoda da seção 258 da PU – do experimento do diário da sensação “S”):

Como eu sei que a cor deste papel, que chamo de “branco”, é a mesma que vi aqui ontem? Porque a reconheço; e esse reconhecimento é minha única fonte desse conhecimento [Quelle für dieses Wissen]. Nesse caso, ‘que é a mesma’ significa que eu a reconheço! / Então também não se pode questionar se ela é realmente a mesma ou se eu poderia estar enganado; (se é a mesma e não apenas

parece ser).108

Em um primeiro momento, a resposta de Wittgenstein à indagação que abre o parágrafo parece perder de vista o problema em questão. Ele responde que é possível saber que a cor vista hoje é a mesma de ontem “reconhecendo-a” – como se negligenciasse o fato de que o problema em questão poderia ser glosado da seguinte forma: como posso saber que realmente reconheço essa cor, de tal modo que possa saber que ela é a mesma que vi ontem? É no adendo à resposta que a relação entre a identidade dos objetos fenomênicos e o colapso entre passado e memória transparece: “esse reconhecimento é minha única fonte de conhecimento aqui”. Em outros termos, não há nenhum outro passado que os dados da memória primária, de tal modo que o reconhecimento será critério de si mesmo (assim como a rememoração será critério de si mesma – como veremos adiante). Portanto (e de uma maneira completamente antagônica ao que encontraremos nas PU), dado que inexiste aqui uma distinção entre

106 Cf. MS 107, p. 242 / PB, §19.

107 Essa caracterização é exatamente o posto do que encontraremos nas PU, §56 (em que Wittgenstein afirma: "[i]sto mostra que nem sempre recorremos ao que a memória nos diz como veredicto da última corte de apelação").

108 MS 107, p. 236 / PB, §16 (de 14 de janeiro de 1930). (Grifos do autor). (“Wie weiß ich daß die Farbe

dieses Papiers die ich „weiß” nenne dieselbe ist wie die die ich gestern hier gesehen habe? Dadurch daß ich sie wiedererkenne und dieses Wiedererkennen ist meine einzige Quelle für dieses Wissen. Dann bedeutet „daß sie dieselbe ist” daß ich sie wiedererkenne! / Man kann dann auch nicht fragen ob sie wohl die gleiche ist und ich mich nicht vielleicht täusche; ob sie die gleiche ist und nicht etwa nur scheint”).

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ser e parecer ser, as afirmações “é a mesma” e “eu a reconheço” se sobrepõem e, para Wittgenstein, garantem a identidade da cor ao longo do tempo. A conclusão que poderemos extrair desse trecho citado é que não faz sentido duvidar da identidade dos fenômenos, pois não faz sentido duvidar do que nos é dado pela memória – seja na forma de rememoração, seja na forma de reconhecimento.

Com o intuito de explicitar o papel fundamental que a memória primária desempenha na filosofia de Wittgenstein, no período intermediário, é possível estender esse mesmo raciocínio (presente na citação acima, do MS 107) à totalidade do espaço visual – visto que é um contínuo de cores. A memória primária não só deveria garantir a identidade de uma cor ao longo do tempo, mas deveria garantir a identidade de todas as cores, que compõem o espaço visual (e não esqueçamos que “(...) uma imagem visual pode apenas existir no tempo”109). Além disso, não faria sentido, por exemplo, dizer que reconhecemos uma cor, mas que agora (no futuro) não nos lembramos de modo completamente exato a sua gradação (uma de suas dimensões de possibilidades); pois isso equivaleria a não saber que cor nos foi dada. Com isso, seria um absurdo para Wittgenstein (em 1929-1930) que uma cor nos fosse dada e que, posteriormente, não lembrássemos sua exata localização no espaço das cores (a sua forma lógica). Ou seja, a identidade dos objetos fenomênicos, dada pelo reconhecimento imediato, deve ser de tal maneira que aquilo que é rememorado traz consigo a sua forma lógica.110

Mas o tema em questão não é o problema epistemológico clássico da identidade ao longo do tempo. Aqui não está em questão o problema da garantia da identidade dos objetos, enquanto esses objetos não nos são dados em uma experiência imediata. O problema aqui é uma dificuldade lógica. Caso pensemos em uma notação que descreve o espaço das cores atribuindo a cada ponto três dimensões de possibilidades (luminosidade, tonalidade e saturação), a questão do trecho citado presente no MS 107 (p. 236) é: como sei que a cor que vejo agora é a mesma de outro momento, de tal modo que possa aplicar a essas duas cores a mesma tripla ordenada (determinando essas ocorrências em dois momentos do tempo como o mesmo lugar do espaço das cores)? A estratégia do autor parece ser mostrar que essa questão não tem sentido em termos fenomenológicos – pois o passado é aquilo que é dado de forma imediata pela memória

109 MS 106, p. 55 / PB, §88. (Grifo do autor). (“(...) ein Gesichtsbild kann nur in der Zeit existieren”) 110 Veremos posteriormente como Wittgenstein sustenta essa posição através da ideia de que, ao dizermos

que podemos reconhecer uma cor, estaríamos como que na posse de uma Urbild (um protótipo lógico), que poderia a qualquer momento ser comparada com a cor, determinando – de forma imediata – a sua identidade (cf. MS 108, p. 59 / PB, §11).

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(não podendo haver dúvida acerca dessa correção). Com isso, fica evidente por que não há espaço no período intermediário para algumas das questões centrais da filosofia tardia de Wittgenstein, subsumidas na forma da indagação acerca do que seja “seguir uma regra”. Diante da questão “o que garante que eu saberei aplicar no futuro o nome ‘vermelho’?”, o Wittgenstein intermediário responderia “reconhecendo a cor” – supondo haver uma relação interna entre a cor que é dada no presente e suas ocorrências no passado da memória (determinando a identidade da cor e fixando, de imediato, o seu lugar na gramática das cores).

Essa linha de raciocínio aplicada às cores pode ser estendida à identidade de todos os fenômenos. Tomemos um círculo vermelho sobre um fundo azul como exemplo. A sua localização, o raio e a cor são propriedades internas desse círculo, de tal modo que o círculo não poderia ter uma dessas variáveis alteradas sem deixar de ser o círculo que é.111 Do mesmo modo como não faria sentido duvidar se a cor que vejo

agora no círculo é ou não a mesma vista em outro momento, sequer também seria possível duvidar se o círculo ocupa ou não a mesma posição, ou se tem o mesmo raio.112

Visto que o reconhecimento é a fonte da identidade, ou bem a cor, a posição e raio são reconhecidos como o mesmo, ou não será o mesmo círculo (pois, não há nenhum outro critério para a identidade que a memória). E, dado o colapso entre passado e memória, sequer também seria possível indagar: “mas você realmente tem certeza?” O que é importante aos nossos propósitos é apenas notar que o mesmo caráter imediato, da relação entre o reconhecimento da cor (no trecho do MS 107, p. 236) e a atribuição de uma identidade a dados imediatos de diferentes momentos, poderia ser estendido a todos os outros aspectos do mundo fenomênico (e não só no que diz respeito ao espaço visual – mas também à identidade dos sons, dos gostos etc.).

Wittgenstein expressa esse caráter imediato do modo pela qual as propriedades internas dos fenômenos (que determinariam as suas identidades) nos são dadas, no MS 105, onde afirma que:

É certamente possível determinar a identidade de uma posição no campo visual, pois, de outra forma, não seríamos capazes de distinguir se uma mancha sempre permanece no mesmo lugar ou se ela muda seu lugar.113

111 Cf. PB, §§97, 98. Embora Wittgenstein contemple a possibilidade de que, caso vejamos de forma

continuada o círculo mudar de posição “diante dos nossos olhos”, poderíamos atribuir a ele o mesmo nome (Cf. PB, §95).

112 Cf. MS 107, pp. 15-16 / PB, §95.

113 MS 105, pp. 29-31 / PB, §206. (“Es ist offenbar möglich die Identität eines Ortes im Gesichtsfeld

festzustellen denn sonst könnte man nicht unter scheiden ob ein Fleck immer im gleichen Ort bleibt oder ob er seinen Ort ändert”).

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Na sequencia do texto que compõe as PB, Wittgenstein conclui, ainda na seção 206: “[n]o espaço visual há posição absoluta e com isso movimento absoluto”.114

Embora aqui não haja lugar para uma análise detida das ideia de Wittgenstein sobre o espaço visual (pois tal tema se encontra para além dos limites desta tese), é possível notarmos, do ponto de vista das análises do tempo, como a ideia do estabelecimento da identidade da posição poderia estar relacionada às concepções de Wittgenstein sobre a memória primária.115 No trecho citado do MS 105, Wittgenstein

retraça a identidade da posição no campo visual à possibilidade de distinguirmos se uma mancha permanece no mesmo lugar ou se muda. Nesse caso, a relação entre identidade e memória não parece ser tão imediata, pois veríamos, em direta sucessão, a mudança de posição da mancha. Porém, esse caso, no que tange à memória, não difere essencialmente de outro exemplo dado pelo autor, ainda no parágrafo 206, das PB: “[i]maginemos uma mancha que desaparece e reaparece (...)”.116 No caso do

desaparecimento da mancha, fica evidente que, ao reaparecer, a posição anterior da mancha nos seria dada apenas pela memória. A resposta oferecida pelo autor é que: “(…) podemos certamente dizer se ela aparece no mesmo lugar ou em outro”.117 Como

vimos anteriormente, essa possibilidade de dizer se a mancha aparece no mesmo ou em outro lugar estaria baseada (do ponto de vista das análises do tempo) no modo como a identidade da posição seria garantida pelo colapso entre passado e memória. Reconhecer (imediatamente) se ela aparece no mesmo ou em outro lugar seria a única fonte de conhecimento para determinar se a mancha aparece no mesmo ou em outro lugar. Por esse viés, a existência da ideia de “posição absoluta” poderia ser interpretada em estreita ligação com o modo pelo qual não poderíamos duvidar se o que nos é dado pela memória primária é ou não o passado e, consequentemente, se a posição rememorada da mancha é ou não a mesma (ao longo do tempo).

Uma possível crítica a essa aproximação seria afirmar que a identidade das posições no espaço visual não diz respeito ao colapso entre memória e passado, mas ao fato de que o campo visual seria intrinsecamente estruturado (como o capítulo XX das

114 MS 108, p. 100 / PB, §206. (“Im Gesichtsraum gibt es absolute Lage und daher auch absolute

Bewegung”).

115 Sobre o espaço visual ver Soutif 2011.

116 MS 105, p. 31 / PB, §206. (“Denken wir uns einen Fleck, der verschwindet und wieder auftaucht

(...)”).

117 MS 105, p. 31 / PB, §206. (“(...) so können wir doch sagen, ob er am gleichen Ort wieder erscheint

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PB parece sugerir). Porém isso não resolve a versão temporal do problema da identidade (que perpassa todo o espaço visual, assim como, todos os fenômenos), pois o mesmo problema se colocaria novamente em um outro nível. Como seria possível determinar a identidade dessa estrutura (que tornaria o campo visual intrinsecamente estruturado), como a mesma em diferentes momentos do tempo, sem a fusão das diferentes perspectivas temporais em uma única perspectiva, através da relação interna entre o passado da memória e o presente? Caso essa relação seja completamente cindida, teríamos aqui o fim da identidade em sentido absoluto (e o presente se tornaria um presente puntiforme). A posição de Wittgenstein será o oposto dessa fragmentação da identidade. Ao invés da fragmentação temporal e da perda total da identidade, em Wittgenstein, no que diz respeito aos fenômenos, ocorre a identidade em sentido absoluto – em decorrência do colapso entre memória primária e passado (que transforma a relação entre o presente e o passado em uma relação interna/necessária).