Em 1967, após alguns meses de negociação, Daniel Keith Ludwig compra a área e as três empresas pelas quais os portugueses atuavam no vale do Jari. O projeto de Ludwig, logo conhecido como “Projeto Jari”, visava à implantação de um complexo agroindustrial que tinha como carro chefe a produção de celulose em larga escala, principalmente para exportação. Também faziam parte do projeto plantação de arroz, criação de gado e mineração de caulim e bauxita.
No Jari, Ludwig pretendia se transformar no maior produtor de arroz e celulose para papel do mundo. Se ele realmente “botou na cabeça que a alfabetização dos miseráveis do Terceiro Mundo levaria a um brutal aumento da demanda de papel”52, como alguns defendem, ou não, o fato é que previu,
to six eminent U.S. research institutions”. New York, 06 jan. 2014. Disponível em: <http://www.ludwigcancerresearch.org/news/ludwig-cancer-research-bestows-half-billion-new- funding-six-eminent-us-research-institutions>. Acesso em: 10 mar. 2014.
50 Ver, por exemplo, VALDMANIS, Richard. “Billionaire Ludwig's estate donates $540 million for
U.S. cancer research”. Boston, 06 jan. 2014. Disponível em: <http://www.reuters.com/article/2014/01/06/us-usa-cancer-ludwig-idUSBREA0504Y20140106>. Acesso em: 10 mar. 2014.
51 Cabe lembrar que Ludwig não foi o primeiro americano a se aventurar – e fracassar – com
grandes projetos na Amazônia. Antes dele, Percival Farquhar (que comprou a Rio de Janeiro Light & Power, entre outras empresas brasileiras) constituiu a Madeira-Mamoré Railway Co. e, em 1911, recebeu do Governo brasileiro, como doação, 60 mil km2 de terras no atual estado do
Amapá. Entre as décadas de 1920 e 1930, foi a vez de Henry Ford fundar sua Fordlândia e tentar “fazer a civilização brotar da selva”. Também recebeu terras, desta vez, do governo do estado do Pará. Alguns elementos que exemplificam o esforço “civilizatório” presente no projeto de Ford podem ser rapidamente mencionados aqui: nos refeitórios de Fordlândia se servia carne em formato de hambúrguer e não se oferecia farinha de mandioca, uma séria afronta a cultura alimentar local e que parece ter sido o estopim do episódio que ficou conhecido como a Revolta de Panela. Guardadas as devidas diferenças, tanto Percival Farquhar como Henry Ford subestimaram as peculiaridades amazônicas e fracassaram em seus projetos econômicos.
72 corretamente, que haveria escassez mundial de fibras nas décadas de 1970 e 1980 (PACE, 1992). A intenção de Ludwig era fundar um projeto pioneiro, moderno e que serviria de modelo para o aproveitamento econômico da Amazônia, o que o fez cair nas graças do governo militar.
De acordo com Glauco Carneiro (1988), tanto Daniel K. Ludwig, o idealizador do Projeto Jari, como o consórcio de empresas nacionais que, como veremos, viria a assumir o Projeto em 1982 responderam a um chamado do governo brasileiro. O primeiro, no quadro dos “projetos de desenvolvimento” planejados para a Amazônia durante o regime militar no intuito de desenvolver e utilizar os recursos disponíveis “onde nada existia”53. O segundo configurava uma tentativa de “salvar o Projeto”.
O “convite” do governo brasileiro a que o autor se refere é também citado por Octavio Gouvêa de Bulhões, Ministro da Fazenda do Governo do General Castelo Branco (1964-1967), a época em que Ludwig compra a área no vale do Jari54. O que Carneiro chamou, aqui, de “convite” parece ter sido mais que uma abordagem direta a Ludwig – o que não pudemos confirmar –, parte da política de atrair a iniciativa privada para a Amazônia, no contexto de um projeto maior, a “Operação Amazônia”, que visava, em linhas gerais, ocupar, desenvolver, “integrar” a Amazônia ao que se entendia como economia nacional. Como nos diz, de forma entusiasmada, Carneiro:
O Governo Brasileiro não se limitou a escrever esse chamamento, mas enviou dois emissários, de alto nível, ao mundo desenvolvido, para explicar, de viva voz, que se dispunha a apoiar, de todas as formas os investimentos que viessem somar seus capitais e experiência ao esforço nacional de ocupação econômica da Amazônia. Foram eles o jornalista e político Carlos Lacerda, que fez um giro pela Europa, conclamando esses investimentos, e o Ministro do Planejamento, Roberto Campos, que manteve contatos com os círculos financeiros internacionais, enfatizando que o governo instaurado em 1964 facilitaria
53 Bulhões, Octavio Gouvêa de. “Apresentação”. In: CARNEIRO, 1988; p. 10.
54 Ele toca no assunto citando Carneiro: “‘Foi aceitando o convite do Brasil que Daniel Ludwig
decidiu-se a implantar o chamado Projeto Jari’. ‘A atenção de Ludwig voltava-se para a produção de celulose e de alimentos.’ Essa [foi] a intenção manifestada por Ludwig ao Presidente Castello Branco que a acolheu ‘declarando-se pronto a apoiar o Projeto’.” (Bulhões, Octavio Gouvêa de. “Apresentação”. In: CARNEIRO, 1988; p. 9).
73 de todas as formas a implantação de projetos que, integrados à política oficial brasileira, visassem a trazer para a civilização áreas do chamado “Inferno Verde”. (CARNEIRO, 1988, p. 26)
Assim, mais que um convite de fato, o que importa é, como veremos adiante, que o projeto de Ludwig se encaixou como uma luva nos planos do governo e foi, de fato, “acolhido” por este55.
Duas décadas após a implantação do Projeto, em 23 de julho de 1979, o então Ministro do Interior, Mário Andreazza56, disse à Comissão de Segurança Nacional da Câmara dos Deputados:
O Projeto Jari não pode ser considerado como um elemento excepcional dissociado da nova estratégia amazônica […]. Ele decorreu, como outros grandes projetos da Amazônia, do chamamento do Governo à Iniciativa Privada. Representa, o Jari, a implantação de um projeto de extensão inusitada, mas perfeitamente consistente com a dimensão amazônica. […] Considerando, pois, esse novo quadro amazônico, em que a presença do Poder Público é cada vez mais atuante e incisiva, quer nas funções de apoio à iniciativa privada, quer como catalisador do desenvolvimento econômico, social e político da região, além de promotor da política de ocupação e valorização econômica de seu território, não pode o Projeto Jari, no meu entendimento, ser considerado como um fulcro ou elemento excepcional dissociado desse projeto. (Apud CARNEIRO, 1988, p. 27)
Na visão dos militares, a Amazônia era um vazio improdutivo a ser conquistado. Seu desenvolvimento viria com a instalação de grandes empresas, que foram atraídas com uma política de massivos incentivos fiscais. Neste período, muitas das grandes firmas existentes no Brasil compraram enormes extensões de terra na Amazônia: indústrias, bancos, empreiteiras, empresas de telecomunicação etc. O Projeto Jari era a realização de um desses programas
55 O próprio Bulhões, conhecido por sua orientação liberal, alinhava-se ao grupo de economistas
que acreditava caber ao capital estrangeiro “uma função decisiva e fundamental no desenvolvimento econômico” brasileiro, “dada a insuficiência da poupança nacional”. Para esses economistas, o favorecimento ao capital estrangeiro seria acompanhado da restrição à empresa estatal que, de certa forma, tenderia a estagnação da produção. (Cf. SARETTA, 2001.)
56 Mário Andreazza foi Ministro do Interior de 1979 a 1985, durante o governo de João Figueiredo,
e Ministros dos Transportes do Brasil de 1967 a 1874, no governo dos generais Costa e Silva, e Emílio G. Médici.
74 e, durante muito tempo, contou com amplo apoio do alto escalão do governo militar57.
Nesse sentido, acreditamos que o caso do Jari permite lançar luz sobre o projeto dos governos militares para a Amazônia. Porém, o caso do Jari permite um passo além no tema, em especial, na análise da relação entre as políticas públicas para a Amazônia e sua concepção de propriedade privada da terra.58