A implementação de qualquer política industrial é sempre uma tarefa árdua, com- plexa e delicada. Política industrial significa intervenção na realidade do mercado, tentando recriar essa realidade, para deslocar as trajetórias existentes para pata- mares superiores, para recriar as configurações existentes e dotá-las de dinâmicas novas e melhores. Essa mudança é por vezes entendida como uma tentativa de
suprimir ou afrontar os mercados, mas deveria ser entendida mais como um pro- cesso de influenciar o seu funcionamento, sem, no entanto pretender substituir a sua lógica. Ela é não apenas poderosa e irremovível como pode, ademais, ser uma poderosa força da própria política industrial. A concorrência pode dar-se segundo parâmetros que apenas exploram as vantagens clássicas dos recursos existentes, ou pode desenvolver e explorar continuamente novas vantagens competitivas, criadas pelas forças do progresso técnico e da inovação, associadas a economias de escala e de escopo dinâmicas e a rendimentos crescentes. A melhor política industrial é aquela que consegue contribuir para este deslocamento, sem fraudar – e pelo con- trário: utilizando – as forças de mercado e a concorrência, poderoso acelerador das mudanças. A política industrial não pode e não deve pretender substituir ou negar as forças poderosas do mercado e da concorrência, mas sim, compreendendo-as, lançar mão delas em prol dos seus propósitos e do desenvolvimento.
Se qualquer política industrial constitui um empreendimento difícil, pelo seu cará- ter laborioso, complexo e delicado, com mais forte razão isso ocorre num contexto em que os vícios e fracassos do passado apagaram inteiramente as conquistas histó- ricas da política industrial, deixando-a estigmatizada e condenada a um prolongado ostracismo. Para que as novas políticas industriais possam reviver e reconquistar um espaço de cidadania, ao lado das políticas macroeconômicas e das demais políticas, é mister que elas cumpram um processo de legitimação; que passa pela gradual recomposição dos seus propósitos e resultados.
Nos países da América Latina, a implementação da política industrial tem revelado ser um calcanhar de Aquiles extremamente significante e perturbador. A definição de grandes objetivos ou a eleição de objetivos muito ambiciosos – e que dificilmente poderão ser alcançados em intervalos social e politicamente plausíveis – tornam-se uma fonte importante de fragilidades. As descontinuidades são não apenas uma pos- sibilidade, como elas decorrem dos próprios sistemas de implementação – frágeis. Essa fragilidade contribui para propiciar reiteradas frustrações, que levam à revisão casuística, obedecendo a critérios pouco claros e frequentemente conjunturais. Três tarefas são mais importantes nesse processo. A primeira diz respeito aos seus objetivos, que não devem ser excessivamente ambiciosos; pelo contrário, devem estar à altura dos meios disponíveis para o seu alcance. Ambições declaradas são promessas, e promessas frustradas são fontes de fragilidade, por isso devem ser evi- tadas. A segunda tarefa consiste na concepção de um sistema de implementação da política industrial que estabeleça claramente as etapas, os instrumentos, os recursos disponíveis, as incumbências de cada ente envolvido, a mobilização de competências existentes e o desenvolvimento de novas competências, a coordenação amiúde e sistemática. Esses são elementos decisivos, sem os quais qualquer política industrial
pode soçobrar e deixar, atrás de si, um rastro de passivos onerosos do futuro. Para evitar esse risco, tão ameaçador, a terceira tarefa seria a de montar um sistema de acompanhamento da implementação da política, passo a passo. Estes três compo- nentes deveriam, como método, incorporar-se a toda e qualquer política industrial. Nenhuma política industrial está totalmente protegida do risco de frustrações, mas é possível evitar muitos deles e minimizar outros, elevando as chances de sucesso, fortalecendo-as e dando-lhes longevidade.
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