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Comparaison entre la construction SFI et le passif

In document La construction se faire + infinitif (sider 13-18)

Chapitre 1 Théorie sur la construction SFI

3. Comparaison entre la construction SFI et le passif

Embora, após Bakhtin, se conceba todo texto ou discurso33 como fundamentalmente dialógico, já que pressupõe uma interação entre discursos e entre interlocutores - falante/ouvinte, escritor/leitor-, acredito que se podem chamar os textos escritos que compõem o corpus desta pesquisa de monologais, uma vez que em sua estrutura se caracterizam como tal - em sua forma exterior, não se configuram explicitamente como dialogais, já que não são produzidos por dois interlocutores, nem apresentam dois enunciadores principais (cf. Roulet et al., 1985: 72).

Como já postulado por Roulet et al. (idem), textos monologais apresentam não a estrutura de troca – unidade discursiva de nível superior centrada em um tema, a qual representa o objeto de negociação entre os interlocutores -, que é a proposta para todo e

33 Os termos texto e discurso são por vezes tomados como sinônimos, já que essas noções coincidem no

caso de comunicações escritas, em que unidade comunicacional e unidade temática geralmente coincidem.

qualquer diálogo, mas, sim, a estrutura de uma intervenção – cada constituinte de uma troca-, exceto se se almeja simular uma estrutura de troca34. Em seu trabalho de 1987, Roulet assinala que todo discurso monológico, ou seja, que tem a estrutura de uma intervenção, visa a satisfazer à chamada completude interativa, a qual indica que uma intervenção está completa, na medida em que o enunciador não quer que seu discurso seja percebido como inconcluso, incoerente, pouco claro. Ele procura satisfazer à completude interativa abrindo comentários que ora visam a especificar uma função ilocucionária, ora situam o contexto de comunicação, por exemplo.

Como já assinalei anteriormente, os textos que compõem o corpus desta pesquisa foram produzidos por alunos universitários, atendendo à solicitação do professor, geralmente após a discussão de determinado o tema em sala de aula35. Analiso-os, então, a partir da hipótese de que cada um deles é um espaço de negociação entre os interlocutores que apresenta uma estrutura de intervenção, semelhante à de uma resposta a uma questão anteriormente apresentada – a proposta, pelo professor, de produção do texto.

Proponho analisar a organização desses textos, considerando, como Roulet (1999), que todo discurso deve ser concebido como um processo de negociação entre interlocutores, através do qual estes apresentam uma informação, formulam uma pergunta ou uma resposta, desenvolvem uma discussão, etc. Segundo o modelo genebrino de análise do discurso, deve- se partir da hipótese de que toda atividade linguageira apresenta o seguinte esquema de negociação :

34 Um texto escrito apresenta geralmente uma estrutura de intervenção, como a de uma resposta a uma

questão dada. No entanto, se o autor pretender simular uma troca entre dois interlocutores, seu texto poderá apresentar uma estrutura de troca.

35 As propostas de produção de textos aos alunos da disciplina ITTC nem sempre foram antecedidas de

Figura 2: Representação do processo de negociação

A negociação pode-se desenvolver de maneira linear, num só nível, sendo hierarquicamente representada por uma troca formada de 3 intervenções, ou pode apresentar ainda níveis secundários, diferenciados, conforme a necessidade ou não de obtenção de mais informações, fazendo-se necessária a abertura de troca(s) secundária(s) (cf. Roulet, 1999 : 36- 38).

Como mostra a Figura 2, uma proposição, uma pergunta, por exemplo, se formulada de maneira clara, causa uma reação, uma resposta, se não, força os interlocutores a abrirem uma negociação secundária para seu esclarecimento. A reação, por sua vez, pode ser uma resposta completa, o que conduz à fase de ratificação, ou incompleta ou pouco clara, o que implica a abertura de negociação secundária, e assim sucessivamente. As setas nessa figura servem para indicar os vários caminhos que podem ser percorridos nesse processo.

No caso de uma atividade linguageira que se realiza entre dois interlocutores levando à produção dos textos como os que compõem o corpus desta pesquisa, parto da hipótese de que há uma negociação que pode ser assim esquematizada :

Proposição Reação Ratificação

PR RE RA

RE

PR R

Figura 3: Representação da negociação entre professor e aluno

A negociação entre eles se desenvolve de forma linear, num só nível, visto que, como resposta à proposta de produção do texto pelo professor, abordando o problema por este colocado, o aluno constrói seu texto, que será posteriormente avaliado pelo mesmo professor36.

Segundo esse esquema de negociação, então, cada texto aqui analisado corresponde à fase de reação e se realiza sob a forma de uma intervenção, na qual se procura alcançar a completude interativa ou monológica37.

Cada texto é produzido visando a responder uma questão anteriormente colocada, a discutir sobre algum assunto proposto pelo professor ou de interesse do aluno, ou a comentar sobre um filme ou um programa de TV. Cada um pode ser representado então numa estrutura de intervenção, mais ou menos complexa, formada de intervenções ou atos, mas não de trocas secundárias.

A descrição do quadro interacional dos textos do corpus, conforme apresento abaixo, pode ser correlacionada a essa interpretação da negociação que se dá entre os interlocutores. A consideração da dimensão interacional do discurso se faz interessante visto que permite mostrar como os textos escritos produzidos pelos alunos compõem a cena textual.

O módulo interacional trata da materialidade da interação, que se distingue de outras informações situacionais, textuais ou lingüísticas constitutivas dos discursos. Segundo Roulet (1999:33), o módulo interacional define “as propriedades materiais da situação de interação do discurso e das situações de interação que ele representa: canal

36 Para poder tratar de uma forma geral essa negociação envolvida na produção dos textos do corpus,

escolhi abstrair as eventuais situações em que se registraria um pedido do aluno de esclarecimento sobre a proposta do trabalho, ou uma possível discussão entre professor e aluno sobre a relevância da proposta apresentada, ou sobre a pertinência do tema abordado, ou ainda sobre o sistema de avaliação do texto, por exemplo, visto que tais situações implicariam a abertura de negociações secundárias.

37 Os termos completude interativa e interacional são substituídos por completude monológica e

dialógica, respectivamente, em Roulet, Filliettaz e Grobet (2001). Proposição: Proposta de produção do texto Reação: Texto do aluno Ratificação: Avaliação pelo professor

escrito ou oral, alternância de turnos de fala ou de escritura, número de interactantes, co-presença ou distância espaço-temporal entre estes, reciprocidade ou não da comunicação.”

O papel do módulo interacional é delimitar os níveis de interação e especificar suas características. As informações interacionais são interessantes para o estudo dos outros componentes do modelo de análise na medida em que se pode estabelecer correlações entre os dados interacionais e, por exemplo, a maior ou menor presença de conectores ou a maior ou menor freqüência de traços tópicos no texto. Ao analisar um texto filosófico de Ricoeur, Roulet (1999) observa uma correlação entre o seu quadro interacional e a sua organização informacional. A freqüência dos traços tópicos, que favorece a construção de sentido do texto pelo leitor, se correlaciona ao caráter monogerado da interação, à distância espaço-temporal e à não reciprocidade da comunicação.

O quadro interacional deve ser definido como a configuração da relação entre os sujeitos – os interactantes -, no plano da materialidade da interação. Segundo Burger (1997), um quadro de interação se apresenta como uma estrutura em níveis. Os diferentes níveis da interação delimitam materialmente as possibilidades de construção do discurso. Um nível resulta de uma combinação dos seguintes parâmetros: o canal utilizado (escrito, oral, visual), o modo de comunicação (tipo de “presença” dado pela distância espaço-temporal entre os interactantes) e o tipo de elo comunicacional (unidirecional ou recíproco).

Uma interação supõe ao menos dois pólos que interagem entre si. Assim, considera-se que um nível de interação se compõe de duas posições ocupadas pelos interlocutores. Considerando a relação entre o aluno e o professor no momento da produção do texto, proponho o seguinte quadro interacional:

Figura 4: Texto acadêmico escrito: nível e posições de interação

O quadro interacional neste caso é simples, pois comporta apenas um plano (nível) de interação, composto de duas posições de interação: autor/escritor e leitor, entidades interacionais que definem cada interactante sob o ângulo das condições materiais de sua participação na interação e no discurso.

Nos textos do corpus, de modo geral, tem-se uma situação de interação tal como a que proponho nesse esquema. Trata-se de uma interação à distância, visto que autor (aluno) e leitor (professor) não se encontram face a face no momento da produção dos textos.

É interessante lembrar que existe ainda uma distância entre os papéis sociais dos interactantes. O professor é quem tem maior domínio do tema abordado pelos alunos, quando se trata da produção de textos sobre questões teóricas estudadas nas disciplinas, como o ensino de gramática ou os processos de formação de palavras ou ainda as diferentes abordagens teóricas (no caso dos textos produzidos pelos alunos de Letras), assim como é também ele que vai avaliar o trabalho lingüístico do aluno através de seu texto.

Ainda com relação à distinção de papéis, tem-se que, como observa Pires (2000), na situação de interação provocada pelo professor, o aluno/ autor, ciente dessa distinção, temendo expor-se ao risco de ser mal interpretado ou censurado, coloca-se como um enunciador que tende a assumir uma posição não comprometedora, marcada pelo senso comum. Dessa forma ele se anularia ou mascararia o ato enunciativo individual. Essa postura do aluno/autor se faz evidente nos textos do corpus através da preferência que faz pelo emprego, por exemplo, das construções impessoais – passivas e construções de indeterminação do sujeito-, pelo emprego da terceira pessoa ou da primeira pessoa do

Autor/escritor Leitor aluno professor canal escrito distância espaço-temporal não reciprocidade

plural em lugar do uso da primeira pessoa do singular, por meio da qual ele se apresentaria como o sujeito de seu texto.

Nos textos do corpus, não se pode dizer também que haja um elo de reciprocidade da comunicação visto que cada texto é construído pelo autor, apresentando então apenas um enunciador principal. A distância espacial favorece um elo unidirecional, já que, estando os interactantes distantes, não há possibilidade de uma parte contar com a reação da outra. Dessa forma, a distância espaço-temporal e social bem como a não possibilidade de uma produção com reciprocidade poderão influir na organização dos textos.

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