62Sector-specific policies and measures
Category 4 companies – Sector policy objectives: The ownership should remain intact unless the sectoral-policy interests no longer apply or can be fulfilled in another satisfactory manner
O povo, na sua fé, apesar da ameaça de serem interditos, continuaria a cumprir os rituais. A população de Santiago de Besteiros e Castelões obedeceu às ordens do Bispo, diligentemente cumpridas pelos párocos no terreno: pelo contrário a população de Campo de Besteiros continuou, ano após ano, a subir a serra, a cumprir todo o percurso, a entoar as ladainhas. Ao longo de todos os anos em que durou a interdição, sem padre, somente com uma cruz e uma cartilha, percorriam os caminhos calcorreados pelos seus antepassados em pagamento de graças recebidas, sempre na maior das devoções, de cabeça descoberta, as mulheres sem o cesto dos farnéis à cabeça. Com expressões de máximo respeito, talvez de forma a responder ao Bispo que ousava, na sua decisão de interdito, impedir o povo de professar a sua fé. Percorriam o caminho da peregrinação formados como se fosse uma procissão e com alguém investido nas funções de direção do grupo, comumente função de padre, entoavam as ladainhas. Um povo sem pastor, mas mesmo assim, um povo de Deus que continuava a rogar pela proteção dos seus campos. As pessoas que “comandavam” o cumprimento destas procissões votivas eram pessoas bem aceites na comunidade que desempenhavam papel de relevo, tinham, mesmo algum ascendente económico e social, capazes de liderar e unir a vontade do povo. Segundo os entrevistados eram muitos que cumpriam a tradição, incorporando-se também pessoas de outras freguesias, como de Santiago de Besteiros e Castelões. A fé, era a fé que os movia, era a fé que lhes dava coragem de desrespeitar a ordem de um bispo, porque sentiam que se desrespeitassem esta tradição estariam a colocar em causa a sua sobrevivência, porque
460 Cf . TAVARES, Pe. Celso. (Vestígios Pré-Históricos de Besteiros II – O Castro de S. Bartolomeu e o significado histórico-etnográfico das Ladainhas do Guardão. Revista da Beira Alta. 1949. p.352.
sobretudo iam rogar a proteção para os campos agrícolas462. Da descrição de Aurelina Calheiros, segundo aquilo que diziam os mais velhos, porque na altura, ainda era uma criança, quando o Bispo tomou esta decisão, a terra deixou de produzir, estava triste e cinzenta, nada crescia, tendo sido um ano de muita míngua463.
O que não se conseguia impor por normativas, procurava-se restringir ao povo o acesso ao culto e às suas celebrações mais significativas. Não era só a não realização das festas religiosas, mas também o encerramento das portas para impedir o acesso dos cristãos ao espaço sagrado, neste caso ao seu interior.
O pároco que exercia as funções de sacerdote na freguesia de Campo de Besteiros, durante esse tempo da interdição foi o Cónego António Rodrigues Pereira que a paroquiou “mais de oito anos”464. Mantinha as capelas encerradas, não celebrava as festividades,
entre elas, a festa da bênção dos ramos mantendo com a comunidade um relacionamento bastante difícil465.
Uma das festas mais marcantes para o homem de Besteiros era a festa da Santa Cruz, a 3 de maio. Encontrarmos uma notícia que neste ano, 1944 “não se realizou no Monte do Calvário qualquer festa”466. O relator refere em tom de lamento que a capela
encontrava-se encerrada, impedindo os cristãos de aceder ao seu interior. O dia também passou sem sequer um foguete, como se fosse outro dia normal do ano, sem interrupção do quotidiano, ou seja, sem festa. Dia triste, porque era dia festivo, sendo impedidos os cristãos de o viverem de forma plena. Apesar das portas fechadas do santuário viu-se “muita gente a cumprir as suas promessas, a subir de joelhos a encosta do monte”467,
durante o dia. Promessa bastante dura por sinal, que em nada parece ter sido influenciada pelo comportamento das autoridades eclesiásticas. Os romeiros venciam de joelhos com muito sacrifício físico e psicológico a dura encosta pejada de calhaus soltos, nada comparável com a situação atual do Monte do Calvário. As portas de madeira fechadas
462 José Marques da Costa. Testemunho recolhido em 26 de janeiro de 2019. Guardão de Cima.
463 Aurelina Marques Calheiros. Testemunho recolhido em 9 de fevereiro de 2019. Campo de Besteiros. 464 Campo de Besteiros, 12 – Novo pároco. Jornal Folha de Tondela. Tondela. 19 dezembro de 1948. p. 2. 465 Aurelina Marques Calheiros. Testemunho recolhido em 9 de fevereiro de 2019. Campo de Besteiros. 466 Campo de Besteiros 10 – Santa Cruz. Jornal Folha de Tondela. Tondela. 14 maio 1944. p. 2. 467 Campo de Besteiros 10 – Santa Cruz…p. 2.
separavam os fiéis do interior da Capela, mas na entrada, na parte de fora “viam-se muitas luzes acesas e pessoas a orarem com fé”468.
Assim respondia o povo sem outras armas que não o seu terço, a sua fé, as suas orações ao bispo e ao clérigo responsável pela paróquia. Cumpria as suas promessas e, em nenhuma das palavras escritas se vê algum reparo à interdição. De forma implícita, porém, faz-se reparos ao bispo e ao pároco, porque são eles que detêm o poder de abrir as portas, são eles que detêm o poder de permitir a celebração dos cultos, de aproximar o povo das cerimónias religiosas e, dos seus locais de culto. Algo que transparece também na observação “o senhor Pároco desta freguesia resolveu, este ano, não fazer a bênção dos ramos”469. Insensível aos diferentes pedidos contribuiu de forma consciente para que
“todas as crianças tivessem um desgosto com a resolução do senhor Padre lamentando- se profundamente”470. Critica-se a atitude, a ligeireza e insensibilidade da mesma.
Depreende-se e compreende-se o entusiamo nas palavras escritas em 1949 do correspondente de Campo de Besteiros na Folha de Tondela, ao referir que “finalmente a nossa freguesia deu um grande passo em frente, desde que está à sua frente um sacerdote novo”471. A nomeação de um novo pároco, o padre Adelino Nogueira472, perspetivava
para a comunidade de fiéis outra abertura para os seus anseios, outro olhar mais atento para as suas tradições religiosas, e desejava deitar para trás das costas, e sobretudo esquecer “tempos idos”473, em que a autoridade episcopal acolitada pelo pároco de
Campo de Besteiros a castigou pela ousadia em desrespeitar uma pastoral diocesana. As críticas que fazem ao padre anterior são comedidas, limitando-se a pequenos reparos, que resumem num desabafo, comparando a ação do novo pároco com um “diferente de tempos idos”474. Dele o povo não guarda memórias, nem saudades. Sentem,
468 Campo de Besteiros 10 – Santa Cruz.. p. 2
469 Campo de Besteiros 14 – Benção dos Ramos. Jornal Folha de Tondela. Tondela. 18 março 1945. p. 2. 470 Campo de Besteiros 14 – Benção dos Ramos… p. 2.
471 Campo de Besteiros, 11 – Jornal Folha de Tondela. Tondela. 22 março de 1949. p. 2.
472 “Foi, pelo sr. Bispo desta diocese, nomeado para paroquiar esta freguesia, o Padre Adelino Nogueira. Sacerdote inteligente, activo e relativamente novo. É, também, muito apreciado ordador sacro.” Campo de Besteiros, 12 – Novo Pároco. Folha de Tondela. Tondela. 19 dez. 1948. p. 2.
473 Campo de Besteiros, 11. Jornal Folha de Tondela. Tondela. 22 março de 1949. p. 2. 474 Campo Besteiros, 11. Jornal Folha de Tondela. Tondela. 22 maio de 1949. p. 2.
porém, que “(…) finalmente, que a nossa freguesia, espiritualmente deu um grande passo em frente, desde que está à sua frente um sacerdote novo”475.
Uma pequena notícia, demasiado curta por sinal, não é mais que um singelo agradecimento ao reverendo Abade Adelino Lopes Nogueira “que devido à sua força e vontade se levou a efeito a festa da Santa Cruz”476. No pouco que se escreve tenta-se não
julgar, mas as alterações comportamentais do “pastor do rebanho” para o anterior são significativas, merecendo sempre referências elogiosas,477 contribuindo para o romper de uma amarra que impedia o povo besteirense de celebrar a sua fé, de cumprir de forma plena a sua religiosidade.
O padre Nogueira captou as pessoas pelas palavras e pela sua maneira de ser muito aberta e ditosa e, esse momento é marcante para o povo besteirense. De certeza, o abade Ribeiro dos Santos, natural da freguesia de Campo de Besteiros, guia dos fiéis da paróquia do Guardão, encontrou um aliado forte para abrir uma nova “frente de luta” para convencer o Bispo a condescender na realização da festividade das cruzes.
O cristão ao formular a sua rogação, seja individual ou comunitária não se preocupa com existência de fronteiras marcadas e, bem definidas entre o sagrado e o profano. É um ato íntimo e estritamente religioso rogar a Deus, porque nesse exercício, sobretudo simbólico, mas também concreto, ligado a valores essenciais como o da subsistência, em demanda de proteção para os seus campos agrícolas, para as suas culturas,478procura garantir melhores condições de vida para si e para os seus. Contrariada a comunidade nesse propósito, na sua reação a uma decisão, para si, incompreensível, apercebemo-nos de uma “erupção de atitudes e comportamentos religiosos atestando a resiliência individual e coletiva a partir do religioso”479. A reação de contestação vem de
dentro, do íntimo das pessoas que se viram coartadas nos seus anseios individuais, mas também comunitários. A comunidade sentiu que estava a ser colocada em causa a sua subsistência. Segundo a tradição, traduzida em dizeres e provérbios, os efeitos de falta de
475 Campo de Besteiros, 11. Jornal Folha de Tondela. Tondela. 22 maio de 1949. p. 2. 476 Campo de Besteiros, 11 – Jornal Folha de Tondela. Tondela. 22 maio de 1949. p. 2. 477 Campo de Besteiros, 11 – Jornal Folha de Tondela. Tondela. 22 maio de 1949. p. 2.
478 Cf. Ferreira, António Matos – O religioso sob suspeita e a desconfiança do Centro in Experiências à
deriva – Paixões Religiosas e psiquiatria na Europa. Séculos XV a XXI. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2013. p.
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preces e ou de rogações malfeitas ou de votos quebrados podiam comprometer as colheitas. A tradição refere que por não terem cumprido o voto, a freguesia de Santa Eulália sofreu sobre ela uma trovoada que destruiu todas as suas colheitas480. Na relação negocial, composta pelo prometido / pedido e a resposta obtida a tradição, como vimos, acumulava exemplos de represália por parte da entidade a que se recorria, quando não cumpriam os votos. Esperavam-se respostas positivas a pedidos de colheitas abundantes. Quando não aconteciam, as pessoas interrogavam-se se isso era fruto de falta de fé quando se faziam as rogações ou castigo da divindade por possíveis pecados. Esta relação com o divino, tendo por base o ato negocial, nunca foi, do ponto de vista teológico e pastoral, pacífica481. Um bispo do século XX, com o percurso descrito atrás, numa época de tensões entre a parte da sociedade secularizada e que desconfiava de tudo que era religioso482 e
os grupos de crentes, esmagadoramente católicos, assim como as faixas dos que eram religiosos, mas não se identificavam com qualquer igreja, tinha forçosamente que pensar nos caminhos que permitiriam fazer crescer a fé dos diocesanos. O mundo da renovação litúrgica da altura, mas também a sua experiência pastoral alentejana, implicaram-no numa proposta que pretendia que fosse racional e assente no conhecimento dos textos bíblicos e da doutrina da igreja. As decisões do Bispo ao estabelecer regras a que todas as festas deveriam obedecer, mostra o seu desconhecimento da importância da festividade para as populações do vale e da serra. O peregrino que ia à Festa das Cruzes deslocava- se com um principal objetivo, rogar pela proteção dos campos, e como já referimos a fronteira entre o sagrado e o profano era bastante ténue. Os comportamentos de sociabilidade que adotava eram normais, porque numa peregrinação em que a maioria dos participantes se deslocava a pé, num itinerário que demorava cerca de uma hora, cabiam momentos de convívio, de sociabilidade, de cantares e de alguns ditos que podiam aos ouvidos mais castos, soar um pouco excessivos483. Após as cerimónias religiosas era costume que se fizesse ouvir música, vermos também algumas danças ou cantares ao
480 CESAR, José Júlio- A Cruz, símbolo de dor e de fé. ….
481 LIMA, José da Silva – Religiosidade Popular. In AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.). Dicionário de
História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores. 2000, C-I p.262
482 FONTES, Paulo F. de Oliveira – O Catolicismo Português no século XX da separação à democracia in AZEVEDO; Carlos Moreira (coord.) – História Religiosa de Portugal. …vol 3 . p 143
desafio de copo de vinho na mão, no momento da partilha comunitária dos farnéis, como já se viu. Momentos alegres, obviamente num espaço que tinha sido percorrido, algumas horas antes pelas procissões. O povo separava as águas, ou seja, divertimento após a devoção, porque como verificamos, durante as procissões o comportamento era irrepreensível. Exprimia a sua alegria, por vezes efusiva, porque não se sentia amarrado a uma peregrinação penitencial. Celebravam a alegria de estarem juntos, de terem cumprido um objetivo comum, de rogação, tanto naquela cerimónia de pedir misericórdia ao Salvador do Mundo, e, mais tarde, na cerimónia da bênção dos campos.
Nessa luta, os besteirenses não se sentiram isolados; apesar de outras freguesias não se organizarem para participar na procissão, no dia da Ascensão, alguns dos seus membros mostraram-se solidários e, em consciência participavam. No dia, junto à Igreja Matriz do Guardão eram aguardados por habitantes anfitriões que os apoiavam, nessa luta. Contribuíram assim para engrossar o número daqueles que subiam à serra484.
Ambiente de repressão que se vivia no país, a censura que impedia que qualquer notícia que quebrasse a normalidade dos dias485, sobretudo que quebrasse a trilogia Deus, Pátria e Família fosse publicada486. A recusa em aceitar uma decisão imanada do Bispo por um número elevado de pessoas, de certeza não seria bem aceite aos olhares atentos do regime. Os motivos eram religiosos, por parte de gente simples, mas estavam à frente deste movimento de constatação algumas figuras com destaque social, nas duas localidades. O que os movia era a fé, e não se ouvia uma palavra de ordem fosse contra
484 Maria da Conceição Santos Pomar. Testemunho recolhido em 26 de janeiro de 2019. Guardão de Cima. 485 “E era necessário excluir qualquer suspeita ou rumor de que a ordem estabelecida poderia ser modificada, por via violenta ou por via pacífica e democrática. A polícia política e os demais instrumentos de repressão do Estado Novo deixaram marcas profundas num tecido social que foi vítima de perseguições e repressão e que sempre se debateu com a ausência de liberdades fundamentais. “ In A Época em Imagens CARDOSO, José Luís (al) in PINTO, António Costa, MONTEIRO, Nuno Gonçalo (dir). Olhando para Dentro- 1930-1960. História Contemporânea de Portugal (coord. Cardoso, José Luís). Lisboa: FundacionMaphre. 2014
486 “Salazar cumpria, assim, a missão de apontar um caminho de certeza e de afirmar a convicção num conjunto de valores que para o regime não admitiam discussão (Deus, pátria, autoridade, família, trabalho) e se revelariam fundamentais na mística do Estado Novo.” In A Época em Imagens CARDOSO, José Luís (al) in PINTO, António Costa, MONTEIRO, Nuno Gonçalo (dir). Olhando para Dentro- 1930-1960.
quem fosse, somente as ladainhas, o seu entoar triste e monocórdico, o rezar, o respeito, o silêncio, a ordem487.
Perpassava a ideia pela comunidade dos fiéis de Santa Eulália que se não cumprissem os votos feitos pelos seus antepassados seriam sujeitos a castigo divino. Assim escreveu José Júlio César:
“que todos se retiram com o propósito firme de voltarem no ano seguinte, pela vida fora, a cumprir o voto tantas vezes secular, até mesmo para que não se repita o facto que a tradição refere, de uma trovoada arrasar e destruir todos os frutos da freguesia de Santa Eulália, a cujos o limite se circunscreveu, num ano em que os seus habitantes, por qualquer motivo deixaram de participar na procissão das cruzes”488.
Essa mesma ideia foi corroborada por Aurelina Calheiros489, e sempre presente no povo de Campo de Besteiros, na importância de cumprir a palavra dada.
A necessidade de rogar pela proteção, fez com que, ano após ano continuassem a subir a serra, apesar dos principais responsáveis terem sido identificados, homens e mulheres, mais tarde, chamados à sede do concelho, à figura do administrador para serem inquiridas das razões de tal obstinação e de tal desobediência. Atitude de tal modo intimidatória que uma mulher, natural de Campo de Besteiros, apesar de não estar na posse das suas faculdades mentais, perante tal aparato, ousou questionar o administrador - “que hoje se prende quem canta e quem reza, o que farão aos que roubam?”490. Tais diligências parece que não tiveram resultados, já que não parecia haver motivações políticas e com a fé de um povo “não se brinca”. O número de pessoas foi aumentando todos os anos, sempre vigiados à distância pela GNR, embora José Manuel Calheiros tenha referido que num ano estavam soldados do regimento de infantaria 14 de Viseu,
487 José Manuel Medeiros Calheiros. Testemunho recolhido em 16 de fevereiro de 2019. Campo de Besteiros.
488 CESAR, José Júlio. A Cruz, símbolo de dor e de fé…
489 “No ano em que deixou de haver ladainhas, veio uma praga em que as terras não davam nada, faziam-
se sementeiras e desparecia tudo, ficavam só os toros”. Aurelina Marques Calheiros. Testemunho recolhido em 9 de fevereiro de 2019. Campo de Besteiros.
posicionados pela serra491. Cumpriam o ritual, apesar de encontrarem as portas das capelas e da Igreja Matriz fechadas. Esse orgulho sempre perpassou nos besteirenses, o orgulho do dever cumprido, da coragem assumida aos olhos de todos. Aurelina Calheiros fala desse momento de forma orgulhosa, “a avó não ia, porque respeitava a vizinha e muito amiga, mãe do padre Ribeiro dos Santos, mas a cartilha era dela. Ia o avô Calheiros, o José Marques, Alfredo Úria Leitão, o Aureliano Coimbra, o Zé da Corte e outros”. Todos no máximo respeito, sem permitirem que as mulheres transportassem fosse o que fosse à cabeça, “a Glória começava a ladainha, e nós íamos atrás, a entoar, era mais as minhas irmãs, porque eu ainda era pequenita”492.
Dessa grande ligação à festividade dá-nos conta José Manuel Calheiros que relata uma história ocorrida com ele, ainda jovem, acompanhado por outros rapazes, quando se deslocavam para a Ascensão, ainda sem presença dos padres. De cada vez que conta emociona-se, as lágrimas soltam-se, e de voz embargada, relata quando ia a caminho da Capela de São Bartolomeu, numa das ruelas de Janardo, quando ouvem abrir uma porta que fez muito barulho, de ferragens muito antigas, muito mal oleada. Dentro de casa sai uma velhinha, de voz chorosa, que lhes implora que nunca deixassem de ir à festa das Cruzes, porque era muito importante que cumprissem esse voto493.
Não temos notícias desta luta contra a interdição, mas temos pequenas notícias sobre outros assuntos religiosos, que, apesar de pequenas notícias, nos transmitem o clima vivido. O pároco procurava por outros meios desmobilizar o povo, retirando-lhes momentos importantes de celebração da sua religiosidade. Capelas fechadas, santos retirados dos altares, despidos na sacristia, como ocorria na capela do Calvário494. Era toda uma guerra psicológica para quebrar a vontade de um povo, mas mesmo assim não conseguiam sucesso na sua demanda.
Uma notícia assaz estranha é dada pelo correspondente de Campo de Besteiros da “Folha de Tondela”, em maio de 1947, a informar que se tinha realizado “na povoação
491 José Manuel Medeiros Calheiros. Testemunho recolhido em 16 de fevereiro de 2019. Campo de
Besteiros.
492Aurelina Marques Calheiros. Testemunho recolhido em 9 de fevereiro de 2019. Campo de Besteiros. 493 José Manuel Medeiros Calheiros. Testemunho recolhido em 16 de fevereiro de 2019. Campo de Besteiros.
de Santa Eulália a tradicional procissão da Senhora da Ascensão, a qual decorreu dentro do máximo respeito”495. Nunca encontramos nenhuma referência a esta procissão, nem
dela tivemos alguma vez conhecimento. Outro ponto a considerar é que não existia nenhum lugar em Campo de Besteiros denominado de Santa Eulália, antigo nome da freguesia, quer a nível religioso quer administrativo, e que a identificava, mas era o todo, e não se referia a qualquer lugar específico. Estranho também, a referência da Senhora da Ascensão, mas provavelmente seria uma notícia para os besteirenses espalhados pelo mundo, de que mais uma vez a freguesia tinha cumprido o seu voto e que tinha corrido tudo dentro da normalidade, que nesse ano ocorria a 15 de maio, enquadra-se na