Section II A changing climate
5.4 Future sea level increase in
Hedychium coronarium* J. Koenig L.C. Bernacci 25571 (SP). Renealmia petasites Gagnep. M.A. Corrêa et al. 76 (SP, U).
publicada pelo BIOTA-SP apresentou um salto de qualidade com esse apoio, passando a ser mais acurada e de aplicação mais segura, importante para o conhecimento e conservação da biodiversidade do estado de São Paulo.
3. O Projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo
e o ensino de Botânica
Um dos desdobramentos do projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo foi o desenvolvimento de um projeto de ensino que visou à aplicação dos conhecimentos e experiências adquiridos, em escolas públicas de ensino fundamental e ensino médio do estado. Assim denominado, o Programa de Ensino do Projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, coordenado pela prof. Dra. Luiza Sumiko Kinoshita (UNICAMP), teve o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Nesse programa foram aplicadas novas metodologias para o ensino prático de Botânica numa perspectiva interdisciplinar, visando a conscientização e a mudança de atitude do aluno na busca de uma postura crítica e ativa em relação aos problemas ambientais, como também dar subsídios para o desenvolvimento de materiais didáticos ao final do projeto. Para tanto, foram realizadas atividades conjuntas com os professores e os alunos das escolas participantes e pesquisadores da área de Botânica e Educação.
O Programa de Ensino da FFESP forneceu elementos de análise para três dissertações de mestrado na área de Educação, mas um dos produtos mais relevantes foi a publicação de um livro pela equipe de Campinas (Kinoshita et al. 2006) com apoio da FAPESP, já utilizado em cursos de licenciatura em Ciências Biológicas, o qual vem suprir informações sobre a flora paulista no ensino de Botânica sob a perspectiva interdisciplinar. Os textos apresentados no livro procuram relatar, de modo reflexivo, a construção de uma experiência pedagógica em uma escola pública de ensino fundamental na cidade de Campinas, SP. Como subprodutos, há ainda três encartes, que complementam o texto do livro, rico em imagens, muito úteis para a preparação de aula (Carmello-Guerreiro et al. 2006, Torres et al. 2006, Lima et al. 2006).
Uma análise geral e discussão das características de construção do Programa de Ensino da FFESP permitem elencar elementos para sua avaliação e extensão como modelo para outros projetos, tais como os propostos no âmbito do BIOTA-SP.
4. Principais grupos de pesquisa
No início do projeto FFESP, em 1993, a pesquisa em taxonomia de Angiospermas no estado de São Paulo estava relacionada especialmente aos herbários SP, SPF e UEC, e nesses dois últimos estavam sendo formados os mestres e doutores. Havia uma grande ênfase nos estudos de grupos dos campos rupestres e historicamente, as três instituições mantinham especialistas em famílias muito bem representadas nesse tipo de vegetação, que ocorre especialmente em Minas Gerais e Bahia. No SP havia especialistas em Bromeliaceae, Convolvulaceae, Euphorbiaceae, Malpighiaceae, Malvaceae, Moraceae, Orchidaceae, Urticaceae (incluindo Cecropiaceae) e Xyridaceae; no SPF havia especialistas em Eriocaulaceae, Rutaceae, Simaroubaceae e Velloziaceae e no UEC especialistas em Melastomataceae, Apocynaceae, Asteraceae e Leguminosae. Nenhuma dessas instituições possuía um programa de estudos das plantas de São Paulo como um todo, apesar do Instituto de Botânica ter, em andamento, as floras do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga e da Ilha do Cardoso. A aprovação do projeto FFESP pela FAPESP
um só objetivo. Assim, houve um novo direcionamento nas pesquisas taxonômicas do estado visando à elaboração da Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo.
A situação atual dos estudos florísticos, tanto no Brasil como no estado de São Paulo desde a fase inicial do projeto é bem distinta, tanto pelo ingresso de novos orientadores credenciados nos programas de pós-graduação já existentes, como pela expansão de novos cursos. Praticamente todos os taxonomistas doutores ligados às instituições paulistas são orientadores nos programas de pós-graduação da USP, UNICAMP e UNESP, além dos criados mais recentemente, como o do IBt. Nos diferentes cursos, diversos projetos de pós-graduação vêm desenvolvendo temas referentes a monografias de famílias ocorrentes no estado de São Paulo. Atendendo, dessa forma, um dos importantes objetivos do projeto, a formação de recursos humanos contribuindo para formar mestres e doutores em taxonomia de fanerógamas.
Na formação de recursos humanos destacam-se ainda os grupos de pesquisa registrados no CNPq, que contam com a participação de um grande número de bolsistas de produtividade em pesquisa. Os recursos financeiros obtidos pela FAPESP, CNPq, FINEP, CAPES e MMA foram fundamentais para dar continuidade aos trabalhos. Como exemplo pode ser mencionada a lista da flora fanerogâmica do país (Forzza et al. 2010b). Parte dos resultados foi utilizado e revisado para produzir o presente checklist da flora de São Paulo. Os dois produtos acima mencionados contaram com a importante colaboração dos pesquisadores paulistas.
5. Principais acervos
As coleções botânicas depositadas nos herbários constituem os principais documentos para o desenvolvimento dos trabalhos florísticos e taxonômicos, além de embasar estudos nas diversas áreas da botânica e da ecologia. Uma amostra de planta colhida em seu ambiente natural, constituída de estruturas vegetativas e reprodutivas (flores e/ou frutos), passa pelo processamento das técnicas de herbário (herborização e secagem) recebendo uma etiqueta com dados da localidade geográfica e dos coletores, fenologia e características gerais da planta e do ambiente. A amostra ou exsicata devidamente processada é incorporada ao acervo do herbário, passando a constituir um documento científico que será indefinidamente preservado.
Além de abrigar o acervo científico, o herbário possui uma estrutura dinâmica de trabalho, cuja equipe é formada pelo curador, o quadro de pesquisadores e o pessoal de apoio. A rotina de trabalho de organização e manutenção da coleção é acompanhada pelo intercâmbio entre os herbários e pelas atividades de pesquisa. As coleções de herbário são, sem dúvida, a principal fonte de dados do taxonomista, imprescindíveis em qualquer trabalho como monografias, floras, listas e inventários florísticos, trabalhos fundamentais para o conhecimento e conservação da biodiversidade.
A FAPESP forneceu os recursos financeiros que permitiram a melhoria da infraestrutura dos herbários, incluindo novos armários e equipamentos, como estereomicroscópios e computadores. Também possibilitou o extenso trabalho de campo por meio da liberação de recursos em diárias, material de consumo e serviços de terceiros, permitindo a incorporação de novos espécimes aos herbários paulistas. Essas ações foram complementadas pela aprovação de vários tipos de bolsas que incluíram desde Iniciação Científica e Aperfeiçoamento, até Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado, além de Apoio Técnico, ressaltando-se aqui também a relevante participação do CNPq. Muitos dos trabalhos desenvolvidos pelo FFESP fizeram parte de temas de dissertações de mestrado e teses de doutorado, defendidos nas instituições paulistas.
foram incorporadas ao longo dos últimos 10 anos, em boa parte resultante de excursões posteriores financiadas ou não pelo FFESP, visando à elaboração das monografias das famílias em estudo.
Apresenta-se a Tabela 2 atualizada (2011) dos acervos dos principais herbários paulistas que contribuíram e que foram beneficiados pelo FFESP
6. O Herbário sede do Projeto FFESP
O Herbário do Instituto de Botânica (SP) foi escolhido para sediar o projeto FFESP por ser o maior do estado, reunindo um rico acervo de representantes da flora paulista, além de estar entre os quatro maiores herbários brasileiros. Seu acervo atual, de 440.440 números de plantas, inclui, além das fanerógamas, outros grupos como algas, briófitas, pteridófitas e fungos, mas a maior parte do acervo corresponde às Angiospermas.
Além da importante tarefa de centralizar atualmente a coordenação do projeto, o Herbário SP conta com 15 pesquisadores e três funcionários de apoio técnico e 24 alunos de pós-graduação que contribuem de forma direta ou indireta com o projeto.
Do início do FFESP, em 1993, até 2007 o Herbário SP teve como curadora a Dra. Inês Cordeiro, que foi responsável pelo intenso intercâmbio entre os herbários, por receber e abrigar as novas coleções do FFESP e pela distribuição das duplicatas aos especialistas. Atualmente a curadoria está sob os cuidados da Dra. Maria Cândida Mamede, que dá prosseguimento a esses trabalhos.
Os Herbários SPF e UEC foram escolhidos como os principais na recepção das duplicatas, mas todos os herbários de São Paulo foram beneficiados com o projeto, o que promoveu um grande avanço para o desenvolvimento da taxonomia no estado.
Dentro da proposta geral do projeto, houve a previsão orçamentária tanto para as coletas como para as visitas a herbários paulistas, além dos herbários R, RB e HB no Rio de Janeiro e outros que apresentassem boa representatividade do grupo botânico em estudo. Esse benefício do projeto foi sem dúvida importante não apenas para a elaboração das monografias, como para o desenvolvimento de dissertações de mestrado, teses de doutorado e outros trabalhos em taxonomia que se desenvolviam em paralelo.
O projeto manteve recursos para estas atividades (coleta e visita a herbários) até aproximadamente 2006, quando novos aditivos da
7. Principais lacunas do conhecimento
O conhecimento da diversidade de fungos macroscópicos e de plantas do estado de São Paulo foi cuidadosamente avaliado por Joly & Bicudo (1998), enquanto que a biodiversidade das fanerógamas, sob diversas abordagens, foi analisada por Shepherd (1998), que registrou cerca de 626.000 espécimes cadastrados em 14 herbários paulistas, sendo os cinco maiores em ordem decrescente: SP, SPF, UEC, IAC e HRCB. Na ocasião, foram referidos 48 pesquisadores no projeto FFESP, incluindo pós-graduandos ou estudantes, em 10 instituições, como coordenadores e responsáveis por 138 famílias. Sete anos depois, foram apresentados novos dados por Shepherd (2005), como parte da avaliação do estado do conhecimento da biodiversidade brasileira. O número de herbários paulistas passou para 16, mas o número de exsicatas permaneceu praticamente o mesmo, conferindo um valor de cerca de 2,5 exsicatas por km². Foram citados 58 taxonomistas de angiospermas em São Paulo, o maior número entre todos os estados brasileiros. O autor destacou o envolvimento de mais de 200 taxonomistas colaborando para o projeto FFESP, mostrando que mesmo nesse estado ainda haveria carência de especialistas em vários grupos.
Os números apresentados nesses trabalhos são favoráveis ao estado de São Paulo quando se compara com outros estados brasileiros, tanto em número de pesquisadores como de espécimes em herbários. Também são dignos de nota os recursos financeiros destinados para estudos de biodiversidade em São Paulo, tanto pela FAPESP como por órgãos de fomento federais, além de empresas da região. Mesmo assim, persistem algumas deficiências como as citadas abaixo:
1. Complementação das coletas em áreas de difícil acesso ou em áreas que estão sob grande impacto. Destacam-se as áreas limítrofes com os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como a Mata Atlântica nos arredores de Ubatuba, os campos de altitude do Itatiaia e os cerrados do norte e noroeste do estado; 2. Investimento no repatriamento de dados e imagens de mate- riais-tipo e coleções clássicas de espécimes coletados em São Paulo, principalmente os de Riedel, Saint Hilaire, Selow e Martius. Nesse sentido é importante a continuidade do projeto do Herbário Virtual de Saint Hilaire estabelecido no IBt. Tam- bém, o REFLORA-CNPq será uma excelente oportunidade,
Tabela 2. Principais herbários do estado de São Paulo que contribuíram para o projeto Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, apoiado pela FAPESP. Table 2. Major herbaria that contributed to the Phanerogamic Flora of São Paulo State, supported by FAPESP.
Herbário Acrônimo Acervo (espécimes)
Herbário Irina Delanova Gemtchujnicov - UNESP BOTU 27.000
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz - USP ESA 80.000
Herbário da UNESP - Rio Claro HRCB 40.000
Herbário Fanerogâmico e Criptogâmico do Instituto Agronônico IAC 53.147
Herbário Municipal de São Paulo PMSP 9.338
Herbário da UNESP - São José do Rio Preto SJRP 28.000
Herbário Maria Eneyda P. K. Fidalgo - IBt SP 440.440
Herbário da Universidade de São Paulo SPF 201.000
Herbário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP SPFR 14.000
Herbário Dom Bento Pickel – IF SPSF 44.284
Herbário da Universidade Estadual de Campinas UEC 154.640
Herbário da UNESP – Bauru UNBA 5.244
importantes para a flora do estado de São Paulo como as feitas por Martius (M e BR), Riedel (LE, C, OXF) e Lund (C), siglas de acordo com Thiers (2010);
3. Continuidade nos investimentos de infra-estrutura dos her- bários das várias instituições participantes do projeto FFESP, especialmente aquelas que estão ainda em implantação. Tais condições permitirão a realização de projetos taxonômicos que levem à publicação de trabalhos em revistas de impacto e formação de recursos humanos capacitados;
4. Desenvolvimento de mecanismos e interações que possibilitem a disponibilização para diversos setores dos resultados obtidos com o projeto FFESP;
5. Formação de recursos humanos em grupos onde o nosso con- hecimento é insuficiente.
8. Perspectivas de pesquisa em botânica para os próximos
10 anos
A Sistemática, ciência fundamental para o conhecimento da biodiversidade, tem evoluído muito e além do tradicional emprego de múltiplas fontes de evidência, dispõe agora também de novos paradigmas pautados em métodos explícitos de análise. Nas duas últimas décadas, a sistemática vegetal teve avanços impressionantes, tanto pelo incremento de análises cladísticas como pela aplicação de técnicas moleculares. Análises da variação no genoma de cloroplastos e de segmentos do genoma nuclear incrementaram grandemente o entendimento da filogenia das plantas em todos os níveis taxonômicos. As modernas técnicas moleculares representam um recurso poderoso que, ao invés de ofuscar, aumenta a necessidade de conjuntos de dados não-moleculares, de botânicos que possam interpretá-los, e das maneiras de obtê-los, isto é, trabalho de campo, estudos florísticos, coleções de herbário, e os pilares da taxonomia básica, que são a morfologia e a anatomia. As sequências moleculares e os cladogramas são ferramentas que devem ser manipuladas pelo botânico que conhece as plantas para colocar as questões, estruturar a amostragem, selecionar os caracteres, incluindo quais genes analisar, e interpretar os resultados (Maddison 1996).
Nesse contexto, o panorama almejado para a próxima década no Brasil é de continuidade do desenvolvimento teórico e metodológico vigoroso da Sistemática como a ciência do estudo da biodiversidade, com fortalecimento de equipes de pesquisa botânica do país que permitam efetivo aprimoramento do nível dos estudos taxonômicos e do acesso facilitado a informações sobre biodiversidade. Estes poderão vir a sanar as enormes lacunas no estado de conhecimento da vegetação e flora antes mencionadas, e atenderão à crescente demanda por informações técnico-científicas de qualidade para a definição de estratégias e prioridades de conservação de áreas naturais, e para a adoção de medidas de controle e manejo ambiental. Monografias e floras são o meio mais eficiente de geração das informações e espécimes necessários para esses fins, assim como para pôr em prática as profundas reorganizações filogenéticas atualmente em curso (Pirani 2005).
No Brasil, muitos projetos florísticos de grande monta foram encetados, seja demarcados com base em unidades geopolíticas, seja baseados em ecossistemas, ou unidades de conservação ou unidades geográficas, incluindo-se aqui a Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. Esses projetos têm o especial mérito de terem envolvido colaboração de numerosos pesquisadores e de terem, na maioria, constituído etapa marcante na formação de recursos humanos, e do grande volume de informação acumulada com todas as explorações florísticas, trazendo avanços no conhecimento da taxonomia e
do Herbário Virtual da Flora e Fungos do Brasil, em vigor desde o final de 2008.
Por outro lado, no plano das revisões taxonômicas, monografias e estudos filogenéticos, embora no Brasil também tenha havido crescimento e melhoria na qualidade, a produção foi bem menos expressiva, pelo menos até certo ponto como decorrência da maior dificuldade e maior demanda de tempo e de verba a conclusão desses tipos de trabalho, em relação aos de cunho florístico. Para que a pesquisa taxonômica no país passe para um nível mais aprimorado e alcance repercussão internacional, urge que se incorporem, ao labor do sistemata brasileiro, contínuos esforços visando à investigação sistemática de caráter mais abrangente e aprofundado, de preferência envolvendo emprego de filogenias (Pirani 2005). Deve ser valorizada aqui a forte diversificação das fontes de evidência taxonômica que efetivamente passaram a ser empregadas no país desde os anos 80, em crescente integração com outras áreas de pesquisa e usos de técnicas mais refinadas de microscopia eletrônica, citológicas, químicas e moleculares. É também muito promissor o fato de as novas gerações de mestres e doutores estarem majoritariamente imbuídas do paradigma cladista (Pirani 2005).
A continuidade e as próximas etapas da Flora Fanerogâmica de São Paulo permitem visualizar uma perspectiva de incremento de dados e de meios para se alcançar forte grau de aprimoramento da taxonomia praticada no país.