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Assim como no caso das emoções, são várias as teorias sobre motivação. Historicamente, as primeiras teorias da motivação consideram a ação humana como movida por forças interiores que desencadeiam reações automáticas (instintos) ou que geram uma tensão interna que precisa ser descarregada (pulsões). Essas teorias sobre os instintos têm interesse especial por sugerir uma ligação entre instintos, emoções e motivação e, entre elas, provavelmente a mais conhecida é a proposta de Sigmund Freud, segundo a qual o ser humano possui duas pulsões básicas, eros (pulsão de vida) e

concentra no indivíduo, gerando tensão e exigindo ser descarregada. Para o descarregamento dessa energia, a psique do sujeito é dotada de três estruturas: o id, o

ego e o superego, que atuam obedecendo a diferentes leis, de forma que diferentes tipos

de comportamento podem servir à mesma função de descarregar a tensão gerada por essas duas pulsões básicas.

Outra teoria de referência sobre motivação é de Clark Hull, behaviorista interessado principalmente em processos de aprendizagem, que propunha que com auxílio de reforços e punições um indivíduo é capaz de aprender determinado comportamento (condicionamento): teve importância por destacar a relação entre motivação e aprendizagem e uma de suas limitações é não dar conta daquilo que move o indivíduo para a ação. Skinner, expoente do behaviorismo, propôs um modelo da motivação em que não aparece o conceito de pulsão. Segundo ele, o que determina a frequência de um comportamento são suas consequências: dessa forma um comportamento com resultado positivo será repetido mais vezes, se o resultado é negativo, menos vezes (condicionamento operante). A principal crítica feita ao condicionamento de Skinner é não considerar as componentes emoção e cognição da mente humana; não se pode, no entanto, desmerecer sua obra, uma vez que suas idéias pedagógicas influenciaram muitas gerações.

Como alternativa ao behaviorismo e à psicanálise para o entendimento da motivação teve destaque o chamado movimento humanista da motivação. Os humanistas, como Carl Rogers20 e Abraham Maslow, enfatizam as fontes intrínsecas de motivação que são as necessidades de “auto-realização”, a “tendência realizadora” ou a “necessidade de autodeterminação”. Em comum, estas diferentes explicações têm a crença de que as pessoas são continuamente motivadas pela necessidade inata de realizar os seus potenciais.

Outra abordagem em que a motivação terá mais importância é a cognitivista. Teorias cognitivistas enfatizam o papel central das estruturas mentais e do processamento da informação. “Motivação é interna; não a observamos diretamente,

20 Carl Rogers (1902-1987), psicólogo e psicoterapeuta, mais que um teórico da motivação, pode ser

considerado um teórico da aprendizagem, uma vez que suas idéias pedagógicas inspiraram muitas escolas. Como psicoterapeuta ficou famoso pela idéia de uma “terapia centrada no cliente”; como educador, seus livros Tornar-se Pessoa e Liberdade para Aprender tiveram muita influência no Brasil, principalmente nos anos 1970.

mas apenas seus produtos (comportamentos)”. (PINTRICH & SCHUNK, 2002, p.20). Ainda que teóricos do cognitivismo não concordem sobre quais são os processos importantes, o que os une é a ideia da importância dos processos mentais: para os cognitivistas o nosso comportamento é determinado pelo nosso pensamento, e não apenas pelas recompensas que tenhamos eventualmente recebido. As pessoas reagem às suas próprias interpretações dos eventos externos, em vez de reagirem aos eventos em si. Dessa forma são fatores internos que determinam o nosso comportamento.

As categorias psicanálise, behaviorismo, humanismo e cognitivismo constituem apenas uma das maneiras como as várias teorias sobre motivação são classificadas. De acordo com Pintrich & Schunk (2002), outras categorias procuram entender o “explicador” da motivação: instinto, orientação (drive), determinação/vontade, atentar para (arousal), traço, consistência cognitiva, entre outros. Numa tentativa de síntese para essas várias teorias, os autores fazem outro recorte em que são considerados três modelos metateóricos ou paradigmas para a motivação: o mecanicista, o organísmico e o contextual. Nessa síntese são apresentados, para cada um desses modelos: a perspectiva teórica, a relação entre comportamentos simples e complexos, a continuidade entre níveis de pensamento e estágios de desenvolvimento, a metáfora usada para explicar o comportamento, assim como exemplos de teorias que fundamentam cada modelo, conforme está representado no quadro 4.1 (p.65).

Como exemplo e para uma melhor compreensão da tabela, o terceiro modelo da síntese tem como perspectiva científica o interacionismo: a relação entre a pessoa e o ambiente; em oposição ao modelo mecanicista é não reducionista (comportamentos complexos não podem ser “quebrados” em comportamentos mais simples) e, coincidindo com modelo organísmico, a relação entre comportamentos simples e complexos é multiplicativa (comportamentos somados formam comportamentos mais complexos que a soma das partes). Seguindo a tabela observamos que a relação entre níveis de comportamento e estágios de desenvolvimento se processa de forma principalmente descontínua; a metáfora para explicar o comportamento é o evento histórico e entre as teorias que a aplicam, por exemplo, a humanística.

Quadro 4.1 - Modelos metateóricos no estudo da motivação Modelo Perspectiva científica Relação entre comportamento simples e complexo Continuidade entre níveis de comportamento e estágios de desenvolvimento Metáfora utilizada Para explicar o comportamento Teorias aplicáveis

Mecanicista Ciências naturais: as leis das ciências naturais são as leis básicas do mundo

Reducionista (comportamentos complexos podem ser separados em outros mais simples) e aditiva (soma de comportamentos formam outros mais complexos) O comportamento muda e o desenvolvimento prossegue de maneira contínua, níveis diferindo quantitativamente Máquina Freudiana, condicionamento, drive, behaviorismo propositivo Organísmico Desenvolvimento humano: mudanças progressivas nos organismos Não reducionista, multiplicativa (comportamentos se combinam para formar comportamentos mais complexos que a soma das partes) Comportamento muda e desenvolvimento prossegue de maneira descontínua, níveis diferindo qualitativamente Organismo vivo em crescimento (planta) Volição/vontade, instintos, traços Contextual Interacionista:

relação entre a pessoa e o ambiente

Não reducionista e multiplicativa

Principalmente descontínua

Evento histórico Arousal, campo,

consistência cognitiva, humanística Baseado em Pintrich & Schunk (2002)