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Combination of the Work into a Module Replacement Operation 36

Para uma melhor compreensão do nosso olhar sobre os livros, faz-se necessário resgatar alguns conceitos justificados no terceiro capítulo desta dissertação, que buscou fundamentar a opção pelo referencial adotado. Nosso referencial teórico baseia-se, sobretudo, nos pressupostos bakhtinianos, especificamente na Teoria da Enunciação. Utilizamos os conceitos de: Dialogismo, Polifonia e Gêneros do Discurso. Todos esses conceitos foram a base para a elaboração das seis classes utilizadas para compreender a transição entre os dois gêneros: a Literatura Infantil e o Ensino de Ciências.

A transição entre os gêneros é entendida por Bakhtin como o ato de apropriação entre os gêneros primários e os gêneros secundários. Os gêneros primários estão presentes no cotidiano como, por exemplo, nas cartas, diários íntimos, documentos, etc. Os gêneros secundários caracterizam-se por serem mais elaborado, como o romance, o teatro, o discurso científico, entre outros. Segundo o autor, os gêneros secundários podem utilizar-se dos gêneros primários visando o desenvolvimento: “Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies [...]” (BAKHTIN, 1997, p. 281).

Contudo, nessa apropriação suas particularidades são alteradas: “Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios [...]” (BAKHTIN, 1997, p. 281). Essas apropriações resultam em transformações aos objetos que foram apropriados.

No contexto apresentado nesta dissertação, os objetos do Ensino de Ciências apropriados pela Literatura Infantil são adaptados aos interesses do autor, seja para ilustrar, fantasiar ou, simplesmente, para atrair o leitor em formação. Quando o uso desses elementos são apropriado para o ensino, ou seja, servem como um apoio didático para o discurso científico, há então uma transposição didática, que compreendemos como a apropriação entre os gêneros do discurso adaptados para a realidade da sala de aula. Entendemos, portanto, que os gêneros se constituem historicamente a partir de novas situações de interação verbal e do seu contexto social. Eles vão se estabilizando relativamente em diferentes esferas sociais e, assim, as mudanças decorrentes dessa interação são ligadas à atividade humana.

A produção de um livro de Literatura Infantil não se constitui “no vácuo”, visto que suas condições de produção correspondem a determinadas finalidades e conteúdo. Como vimos, a Literatura Infantil se constitui histórica e culturalmente por sua finalidade pedagógica, conforme aponta Lajolo (1984). Portanto, circula e é consumida na escola, de modo que sua produção se dá em função da escola.

[...] este utilitarismo na Literatura Infantil data do século XIX. Por um lado, a instrução é apresentada de maneira a despertar o interesse do leitor pelo conhecimento ou pelo comportamento; por outro, o aspecto divertido precisaria, de certa forma, esconder a realidade moral, em busca de um “ideal de leitura” para as famílias, professores e autores, preocupados com a formação das novas gerações. Portanto, tratar-se-ia de uma narrativa que abre espaço para a educação (aprendizagem) e para a recreação (entretenimento). (CHARTIER, 1999 apud BOLFER, 2003, p. 35) Nesse contexto, esse gênero possibilita uma ampla atuação na formação do sujeito, sendo reconhecido por sua forma atraente de formar o leitor. A produção das obras de Literatura Infantil dedica-se a encantar o olhar infantil, reproduzindo narrativas e ilustrações próprias para cada faixa etária.

Todo esse estilo próprio da arte literária permite a apropriação de vários gêneros, incluindo os das Ciências Naturais. Sabemos que temas dessa área são

amplamente utilizados nas ilustrações das histórias, bem como nas narrativas, trazendo aventura para a ficção. Temas como meio ambiente, astronomia, saúde e tecnologia fascinam a criança e, são compreendidos, portanto, como apropriação entre gêneros.

Bakhtin (1997, p. 279) define gêneros como “tipos relativamente estáveis de enunciados”: Enunciados estão presentes em situações sociais pela comunicação. O autor defende que esses enunciados não estão situados apenas em uma dimensão linguística ou formal. Ao contrário, estão vinculados às atividades sociais, marcados pela natureza sócio ideológica e discursiva dos gêneros.

É relevante retomarmos, ainda, alguns apontamentos fundamentados no capítulo 3 desta dissertação, para efeito de compreender os conceitos bakhtinianos utilizados na análise dos livros de Literatura Infantil.

A Literatura Infantil, como objeto de estudo desta pesquisa, foi analisada partindo do princípio de que seus enunciados resultam da intersecção de muitos diálogos, ou seja, da participação de múltiplas vozes. O dialogismo e a polifonia foram conceitos que nos auxiliaram na compreensão da apropriação entre a Literatura Infantil e o Ensino de Ciências, considerando que não há neutralidade em nenhum desses gêneros.

Portanto, mesmo na arte literária, o autor busca dialogar com vozes de diferentes esferas, sejam elas conceituais no ponto de vista das Ciências ou imaginárias e ficcionais do ponto de vista da Literatura Infantil.

Para escrever ou ilustrar a obra de Literatura Infantil, há, por parte do autor e do ilustrador, um movimento de conexões, o que também nomeamos como apropriações. Todavia, afirmamos que esse gênero não deve buscar rigor em suas produções, no sentido do ensino de conceitos, o que o torna atraente na sua provocando a multiplicidade de sentidos e, constituindo-se, um excelente recurso para o desenvolvimento do ensino e da aprendizagem.

Dessa forma, buscamos investigar os enunciados escritos e as ilustrações emitidos nas “vozes” dos livros de Literatura Infantil, identificando as vozes que foram apropriadas de outros discursos e de outras esferas - nesta investigação, interessa-nos os conceitos e concepções de Ciências presentes nas histórias. Compreendemos, por exemplo, que uma história que narra uma aventura espacial bprocura, nos elementos do Ensino de Ciências, meios para atrair o leitor. No entanto, esses aspectos são resultados de um movimento dialógico e polifônico

realizado pelo autor e que, consequentemente, será emitido ao leitor que se posicionará dialogicamente reproduzindo a réplica.

Sintetizando, os três conceitos utilizados na análise “conversaram” entre si, o que resulta nas classes e facilita a identificação dos livros. O livro foi analisado considerando o discurso do autor, observando as vozes evocadas, a fim de identificar as apropriações decorrentes de outros discursos.

Assim, a análise dos livros se constituiu a partir da verificação da forma como os elementos das Ciências Naturais foram empregados nas histórias, partindo dos conceitos baktinianos referidos neste capítulo, bem como da distinção entre os gêneros literário de ficção e o paradidático. Com base nesses pressupostos, foram criadas as seguintes classes:

Quadro 01: Classes criadas com os conceitos: Dialogismo, Polissemia e Gêneros do Discuso

Nota-se que as classes 1, 3 e 5 se deslocam para o gênero paradidático, uma vez que há evidências da apresentação de conceitos com objetivos de ensinar, embora façam uso de enredos, personagens, fantasias e outros recursos próprios da ficção. Esses livros são catalogados pelas editoras como Literatura Infantil. Já as classes 2, 4 e 6 pertencem à ficção e se apropriam de elementos das Ciências Naturais para enriquecer, ilustrar e, criar fantasias.

Para uma melhor compreensão, serão expostos, no quinto capítulo, os fichamentos contendo o resumo e a análise de cada um dos livros selecionados para o kit. Em seguida, apresentaremos o quadro geral indicando a presença dos conceitos e das classes empregadas.

O próximo segmento tem como objetivo descrever os procedimentos do instrumento utilizado na coleta de dados com os sujeitos da pesquisa que foi realizada na segunda fase deste estudo.

CLASSES 1.Usa a ficção para ensinar conceitos científicos.

2.Usa conceitos e/ou objetos da ciência para ilustrar a ficção 3. Usa a ficção para divulgar o trabalho do cientista.

4. Usam a imagem do cientista para ilustrar a ficção.

5. Desprovido de ficção, tem por objetivo ensinar. Não utilizam histórias, enredos, personagens, porém estão classificados como Literatura Infantil.