A residência das mulheres e seus filhos e filhas foi também um espaço observado e acompanhado durante a fase 2 da pesquisa.
As casas das três famílias pesquisadas encontram-se no bairro Piratininga, que conta com certa infraestrutura. Nele, existem os serviços básicos de água, luz, telefone, rede
de esgoto e coleta de lixo. Grande parte das ruas é asfaltada e a linha de ônibus atende regularmente aos seus moradores. O bairro ainda conta com a presença de uma série de segmentos religiosos, como Igreja Quadrangular, Assembleia de Deus, Igreja Batista e Igreja Católica. Possui uma UMEI (Unidade Municipal de Educação Infantil), duas escolas municipais de ensino fundamental, mas não há centro de saúde, o qual fica localizado no bairro vizinho.
Há pequenos comércios, um supermercado, bares, um sacolão e uma padaria. As casas desse bairro na sua maioria são construções simples e há muitas moradias compostas de aglomerados de casas no mesmo terreno. Em geral, os espaços das residências são pequenos e a população costuma ficar nas calçadas e ruas principalmente aos finais de semana.
Há na rua próxima à escola alguns locais que a população denomina de conteiners, pela semelhança com os grandes galpões de ferro, destinados para armazenar o material a ser vendido. Há locais na quadra abaixo da escola onde a população vende os materiais recolhidos.
Dentre as famílias participantes da pesquisa, uma delas, a família de Vânia, mora a três quadras de distância da escola, numa casa alugada, totalizando sete pessoas na sua residência. É uma casa em bom estado de conservação, com cômodos pequenos. Há três quartos, uma sala, um banheiro, uma cozinha, uma área pequena no espaço fora da casa com um tanque. Não há animais de estimação, pois, segundo Vânia, o espaço é muito pequeno. A mobília é simples, há poucos eletrodomésticos e existe uma televisão no domicílio.
Alice mora mais distante da escola, sua residência fica próxima à outra escola municipal que existe no bairro. Ela mora na residência dos pais, junto com mais cinco pessoas. É uma casa simples de alvenaria, inacabada, com cômodos relativamente amplos. Há uma sala, uma cozinha, um banheiro e três quartos, mas apenas dois são utilizados, devido ao mofo, infiltrações nos demais cômodos. Há pouca mobília, não há camas para todas as crianças, usam-se colchões no chão. Na sala, há uma televisão e um sofá bastante deteriorado. Há um galinheiro com duas galinhas, um quintal com terra e a família possui um cachorro muito querido pelas crianças.
Marina mora numa casa cedida pelo ex-sogro, com cômodos bem pequenos: uma sala, uma cozinha e, no mesmo espaço, um tanque e varais para secar roupa, um banheiro e dois quartos, mas apenas um é utilizado pela família. O quarto não utilizado possui um porão, não possui janela, havendo pouca ventilação, nele há muito mofo e infiltrações, o que faz com que o espaço não seja utilizado como dormitório pela família. Nesse espaço, são guardados brinquedos e objetos de pouco uso. Não há quintal, pois se trata de um aglomerado de casas da mesma família, o espaço é bastante restrito.
As três participantes da pesquisa, quando interrogadas sobre seus sonhos e projetos de vida, têm em comum o sonho da casa própria. Para entender o significado das casas para as mulheres pesquisadas e as formas como elas leem os seus ambientes, aproximo-me das reflexões do antropólogo Roberto DaMatta. O autor definiu em seu livro A casa e a rua a diferença cultural entre o espaço público e o espaço privado. Usadas pelo autor como metáfora, a casa e a rua, nos ajudam a entender os comportamentos, relações e contradições da sociedade brasileira. Segundo o autor, casa e rua não se restringem aos espaços físicos, sendo, na verdade, g a des esfe as de aç o so ial , ue s o opostas e ao esmo tempo complementares. A casa e a rua refletem as ambiguidades da sociedade brasileira, são diferentes conjuntos de valores cuja abrangência pode variar muito em função de seu referencial.
DaMatta, usa casa e rua como categorias sociológicas e afirma que,
'casa' e 'rua' são categorias sociológicas para os brasileiros, estou afirmando que, entre nós, estas palavras não designam simplesmente espaços geográficos ou coisas físicas comensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas de ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas. (DA MATTA, 1987, p. 15)
Aproximar-me da intimidade dos sujeitos por meio da entrada em suas casas, foi uma experiência extremamente rica. Durante os primeiros contatos, o constrangimento foi inevitável, tanto da parte das mulheres pesquisadas como da minha parte. Era notório nos primeiros encontros o desconforto delas que podia ser notado quando arrumavam objetos fora do lugar ou mesmo demonstravam na expressão facial o ar de incômodo. A dificuldade de ter alguém em casa, uma estranha, observando a correria da vida,
uma pessoa que as acompanhava nas tarefas corriqueiras como arrumar cozinha, passar pano na casa, lavar banheiro, lavar roupa, passar roupa, ensinar os deveres escolares, levar criança na escola, na hidroterapia, na natação, tarefas que iam realizando e, concomitantemente, íamos conversando.
A minha presença diária nas casas das famílias era impossível, tomei certos cuidados para não ser excessivamente invasiva. Vânia, logo no primeiro encontro já me deu esse alerta, dizendo
[...] eu não ligo da gente encontrar toda semana, pra mim não tem nada a ver, não. Mas tem que sê no dia da minha folga, que agora é de sexta. Acho melhor depois do almoço... Não dá pra mim nem de segunda..., nem de segunda a quinta, só de sexta mesmo... se fô na sexta dá pra mim ... (Diário de Campo, 24 de fevereiro de 2012).
O mesmo acontece com as demais mulheres pesquisadas, nas primeiras abordagens, cuido para que elas próprias façam as escolhas dos melhores dias e horários. Marina sugere os finais de semana e a sexta-feira pela manhã, em função de trabalhos assumidos nos outros dias da semana, como: ensinar os deveres de casa para as crianças das vizinhas, tomar conta de um sobrinho, vender lingerie, e outras atividades. Já Alice tem uma rotina muito variada, então, no seu caso, o acordo era aguardar e marcar semanalmente nossos encontros, o que gerava uma certa instabilidade na minha própria rotina, pois precisava me encaixar nas disponibilidades dela. Embora fossem flutuantes os dias e horários (manhã, tarde ou noite) e os encontros mais curtos, eram sempre muito intensos. Alice tem quatro filhos, uma delas cadeirante e não tem um trabalho fixo, isso contribui para que a rotina dela seja muito instável, pois ela depende das circunstâncias e dos trabalhos que aparecem ao longo da semana. O tempo que Alice tem na sua casa é bastante corrido e nossas conversas foram todas acompanhadas de uma carga de trabalho doméstico muito intensa.
Como não era possível realizar observações diárias, foi necessário elaborar algumas estratégias para retomar os acontecimentos da semana, entender o que tinha acontecido ao longo dos dias anteriores. Retomar o que tinha acontecido ao longo da
semana fornecia elementos de como estava a rotina delas, o que foi possível ser captado a partir das conversas informais.
Pesquisadora: Como foi a sua semana, Vânia? Como é que tá a sua rotina? Você me contou na semana passada que ia mudar o horário do trabalho? E aí, mudou?
Vânia: Tô chegando aqui com essa mudança// eu chego 4h20 da manhã. Antes eu chegava 2h30. Mudou o esquema, os turnos pega mais tarde e a gente depende de especial pra vir embora. Ai eu chego aqui 4h20, aí o quê que eu faço, tomo um banho rapidinho, deito, e durmo, levanto 6h. Aí eu arrumo ela, quer dizer, ela mesma se arruma pra ir pra escola, ela não é de tomá café, ela toma um leite quente com toddy, aí enquanto ela tá arrumando, eu preparo o café, que o Rodrigo trabalhava no Extra, sabe. Hoje ele foi promovido e tá lá na Sadia. Aí quê que acontece, eu levo ela na escola, volto e normalmente a gente tem roupa pra lavar. Igual o Rodrigo trabalha de uniforme, tudo é branco. Hoje o Rodrigo já trocou o dele agora já é bege. Mas, suja muito tem que tá trocando, a gente mexe com alimento, tem que tá sempre limpa. E aí vem//, aí tem a casa pra arrumá, cozinha, a Fátima está em casa, que é essa minha irmã, mas a gente nunca deixa sozinha, vem almoço. Torno a buscar a Roberta. Na hora que ela chega, que ela almoça, é a conta que ela chega, olho para casa, a mochila, toma banho e ir embora, que eu saio daqui
h Di io de a po, de aio de 12).
Esses relatos, além de ser uma forma de retomar os acontecimentos da semana, iam me fornecendo elementos importantes sobre a rotina, as formas de se organizar, além de sinalizar até que ponto a pesquisadora poderia permanecer em campo. Era preciso manter uma vigilância, para não causar excessos e desconfortos. Em alguns dias, percebia que Vânia estava com mais sono e encerrava o encontro. Portanto, a situação diária era o termômetro dos tempos de encontro e do tipo de conversa a ser conduzida.
Com as crianças, sempre procurava iniciar as conversas fazendo perguntas de maneira variada, de preferência de natureza mais ampla, lembrando relatos da semana anterior ou mesmo questionando como haviam passado a semana em casa e na escola. Nesses momentos, pude captar os conflitos com alguns colegas ou mesmo a mudança de professores na escola ou ainda alguma chateações, alegrias e tristezas ocorridas no transcorrer da semana. Tais momentos eram férteis também para compreender um pouco mais sobre as relações entre meninos e meninas na escola.
Depois de certo tempo, com mais intimidade, os relatos da semana viraram rotina para iniciar as conversas e, a partir daí, entrar em outros assuntos da pesquisa. Nas conversas informais, foi possível captar as relações de gênero e as formas como as crianças e mães lidam com as situações cotidianas. Análises mais detalhadas sobre cada momento desses serão melhor situadas nos próximos capítulos, quando seleciono e focalizo as relações raciais e de gênero.
No próximo capítulo, abordo o perfil dos sujeitos pesquisados a partir da dinâmica de vida das famílias, discutindo como essa realidade compõe a identidade das mulheres e crianças participantes deste estudo. Procuro registrar as singularidades de cada família e sistematizar as aproximações existentes entre o universo socioeconômico, cultural e racial dos sujeitos.