Portanto, o ponto de partida para o exame que se faz consiste em conceber a abordagem do marxismo, priorizando o seu aspecto de filosofia da práxis, isto é, filosofia da ação humana, ética e política, mas vista como uma perspectiva classista.
Diga-se, ainda, que se deva ter cautela com a amplitude do termo “marxismo”, problemático na medida em que os próprios fundadores dessa corrente em mais de uma ocasião cuidaram de lembrar, com algum sarcasmo (mas também para evitar o auto-elogio e o cabotinismo típicos de um jacobinismo vulgar), que “não eram marxistas” 38 e que guardavam cautela tanto com as deformações de sua elaboração devido a uma leitura vulgar de sua teoria, notadamente no campo das relações entre fenômenos estruturais e seus desdobramentos no campo da vida espiritual.
Acentue-se que, para Marx, a convergência rígida entre aparência e essência tornaria, por um lado, a ciência, enquanto atividade explicativa / compreensiva do mundo,
37 SMITH, Adam. A riqueza das nações: Investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural, 1985, volume I, p. 50.
38 Carta de Marx a Engels em 11 de novembro de 1882; também o mesmo comentário numa carta de Engels dirigida a Paul Lafargue em 27 de agosto de 1890. Disponível em <www.marxists.org/letters>. Acesso: 26/08/2005.
desprovida de qualquer papel 39 e, por outro lado, desnecessário qualquer esforço na busca de transformações sociais visto que, se inevitáveis, dispensariam qualquer ação humana.
Como tal mudança não ocorre deterministicamente, o projeto de transformação do mundo (explicitado na 11ª tese sobre Feuerbach) impõe, enquanto necessidade radical, a reflexão acerca dos pressupostos filosóficos em que se assentam o tratamento dos problemas de escolha moral no pensamento de Marx e na produção filosófica de alguns dos seus comentadores.
Diga-se desde logo que aqui se entende “necessidades radicais” enquanto aquelas que encarnam deveres coletivos que, por sua natureza, transcendem o capitalismo e, mesmo geradas em seu interior, não podem ser satisfeitas em tal regime social. Neste sentido, entendemos de situar uma moralidade verdadeiramente humana como “necessidade radical”. 40
Tal forma de refletir acerca do problema da escolha moral, vista de uma maneira mais ampla, rompe o cerco da crítica que considera o pensamento de Marx uma forma de determinismo vulgar, esquema teórico que corta e simplifica a realidade e que só teria validade para explicar as sociedades pretéritas, e que hoje – no que se convencionou chamar, de forma vaga e acrítica, de pós-modernidade, conceituação que também se critica enquanto forma de enquadramento da realidade social – não seria dotado de nenhum interesse, a não ser meramente histórico41.
39 MARX, Karl. O Capital. Livro III, 2º Tomo. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 271.
40 HELLER, Agnes. Teoría de las necesidades em Marx. Barcelona: Península, 1986, p. 87, 102. 41 No fundamental, ainda que - pela época em que foi escrita sua tese de doutorado - não fosse possível para Kamenka contextualizar e categorizar o que se chama “pós-modernidade”, o seu diagnóstico da filosofia de Marx vai na mesma direção exposta no parágrafo supra. Ver: KAMENKA, Eugene. Los fundamentos eticos del marxismo. Buenos Aires: Paidos, 1969, p. 29s. O ponto de vista de Kamenka, construído a partir dos referenciais da filosofia analítica, é examinado em: WILDE, Lawrence. Marxism's ethical thinkers. New York: Palgrave, 1988, p. 7-11.
Assim, muitos dos que criticam tal visão dita reducionista, do marxismo, acusam-no de dominado pela idéia de uma causalidade restrita ao invés de trabalhar com o conceito de possibilidade. 42
Do mesmo modo, e no mesmo âmbito dessa crítica, o pensamento de Marx seria nada mais que uma visão de mundo movida por um determinismo tacanho e inapto a perceber questões subjetivas, o que servia tão só para abrir caminho e justificar uma concepção total da sociedade e de seus fenômenos. 43
A limitação de tais críticas é que a idéia de causalidade, nas formulações de Marx, não era estrita e muito menos mecânica, mas plena de uma série de pressupostos e condicionamentos.
Como chamou atenção Engels, numa carta enviada a Bloch, a produção das idéias e valores (incluindo aqui a moral, a consciência jurídica) não pode ser tomado como reflexo mecânico da base econômica, pois como deixa claro uma visão materialista da história, o elemento determinante final na história se situa na produção e na reprodução da vida real.
Além disso, afirma, “nem Marx e nem eu jamais fomos. Se alguém deforma isso dizendo que o elemento econômico é o único determinante, transforma aquela proposição numa frase abstrata e sem sentido”. 44
Para ele, a situação econômica é a base, mas os vários elementos da superestrutura – formas políticas da luta de classes, formas jurídicas e até os reflexos de todas essas lutas na consciência dos participantes exercem influência sobre o curso das lutas históricas e em muitos casos preponderam, determinando-lhes a forma.
42 BOBBIO, Norberto. Qual socialismo?. In: O Marxismo e o Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 233-251.
43 Como exemplo mais característico dessa interpretação temos POPPER, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974, p. 88-95 e p. 124-140, ambas as citações no 2º volume.
44 ENGELS, Friedrich. Carta a Joseph Bloch, em 22 de setembro de 1890. Disponível em <http://www.marxists.org/espanol/marx-engels/cartas/e.htm>. Acesso em 23/12/2008.
Ora, visto dessa forma, a tese marxista pela qual a existência social dos humanos determina, em última instância, sua consciência é válida, mas não num sentido mecanicamente determinista.
O que o marxismo não postula é que a ética caracterizadora de uma sociedade baseada num modo de produção excludente da maioria seja transformada unicamente pelo esforço moral de indivíduos, ainda que bem intencionados e no restrito âmbito de suas relações pessoais. 45
O argumento, geralmente utilizado, de que as idéias de Marx só seriam dotadas de valor histórico não apenas embute certo preconceito, como significa um fechamento às possibilidades e contribuições que o conjunto de tal formulação pode dar às ciências humanas em geral e ao pensamento filosófico em particular.
Tal argumento, além de algo simplificado, pode ser tomado como cientificamente questionável, visto que – especialmente nas humanidades – o pensamento sempre progrediu ao levar em conta os acúmulos anteriores, independente do espaço cronológico que nos separa de tal ou qual formulação.
E ainda que os atos concernentes a tais escolhas resultem de opções políticas e de uma visão de mundo que já é, ela mesma, uma escolha, a aplicabilidade de tais formulações ao campo específico da filosofia e, ainda mais da filosofia moral, torna-se questão de monta na medida em que se constituem também em formas de justificar a ação política.
O afastamento de um moralismo rígido pode ser compreendido na medida em que, se olhado em sua origem, os fundadores de tal corrente de pensamento já lembravam que no âmbito de uma atividade verdadeiramente científica e na compreensão do
funcionamento da sociedade, bem como os meios necessários à sua transformação, deve o cientista se abster de usar termos rigidamente dogmáticos como os de verdade e erro46.
Esses conceitos, como se sabe, aplicam-se em campos restritos da atividade humana, visto que não podem ser tratados como antíteses estáticas e sim como limites determinados no interior dos quais os fenômenos enquanto tais, e em sua concretude, se manifestam.
Dito de outra forma: trata-se de analisar filosoficamente os fenômenos sociais, fazendo-o sob o foco da relação entre moralidade e práxis individual e/ou social, discutindo-se qual o papel e o caráter da filosofia marxista, seu conteúdo e papel nas sociedades contemporâneas.
O marxismo é, de fato, e isto já se encontra claramente demarcado nesta introdução, uma filosofia voltada para a prática, mas aqui trata de fixá-lo como percepção da filosofia não como atividade contemplativa, mas caminhando da abstração para a realidade, ou seja, para solucionar e enfrentar os problemas centrais do agir do indivíduo perante o mundo da vida.
É a partir do marxismo, entendido como uma filosofia posicionada socialmente e comprometida com a transformação do estado de coisas existente, que fica claro o fim prático que a filosofia deve ter. 47
46 ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. [1877-1878].Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 75-77. 47 Alguns comentadores, embora apontando autores que prefiguram o que viria a ser uma “filosofia da práxis”, reconhecem que sua verdadeira descoberta se dá com Marx. Por todos, ver: MAGALHÃES, Fernando. A linguagem da transformação: Maquiavel, Marx e a poesia do futuro. Recife: [sem indicação], [sem data]. Mas note-se que o termo tem sua primeira referência não em Marx e sim um jovem hegeliano, August von Ciezskowski, discípulo de Michelet, ortodoxo hegeliano. Para ele a práxis era a síntese de pensamento e ação. Ver, sobre Ciezskowski: MACLELLAN, David. Marx y los jovenes hegelianos. Barcelona: Martinez Roca, 1969, p. 23; SCHAFF, Adam. O marxismo e o indivíduo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967, p. 77.
O materialismo dialético, como filosofia do comunismo, se põe exatamente como teoria dialética da realidade e também se coloca contra qualquer interpretação contemplativa da filosofia. Sua principal característica é a de se reivindicar como uma filosofia da ação humana.
Quando se localiza o marxismo a partir deste viés, não se quer dizer com isso que apenas esta corrente teve isoladamente esta inquietação epistemológica e social. Apenas vislumbra-se nela um maior grau de coesão de foco nela em detrimento de pensadores, que apesar de toda contribuição dada, estavam mais preocupados com a filosofia em seu elemento contemplativo, se assim se pode dizer, num momento histórico do desenvolvimento da filosofia.
1.3. MORALIDADE IMPLÍCITA E SEU EXAME NAS OBRAS DOS