3. A MODEL OF RELATIONSHIP LEARNING
3.1 COLLABORATIVE OBJECTIVES
Em abril de 2011, por deliberação da SEE-SP, aconteceu, na DE Regional de Assis, um “HTPC coletivo” divido por áreas de conhecimento,28 cuja proposta era promover uma
28 Estavam previstos, para o ano letivo de 2011, mais três encontros presenciais com os docentes divididos por
área, totalizando um encontro por bimestre, entretanto, os mesmos não chegaram a ocorrer para a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias.
ϳϯ
leitura coletiva e interativa do currículo do Estado de São Paulo. Neste encontro, realizado escola estadual Prof. Carlos Alberto de Oliveira, todos os professores da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias foram convocados e arcariam com os custos de suas ausências caso não comparecessem. Por isso, todas as escolas da região de Assis transferiram suas atividades normais do HTPC semanal para esta reunião.
Apesar de seu caráter obrigatório, alguns docentes mostraram-se bastante entusiasmados com as discussões levantadas, expondo seus pontos de vista, comentando a realidade de suas escolas, apresentando exemplos provenientes de sua prática profissional, outros, entretanto, pareciam estar ali meramente para “cumprir tabela”, preocupando-se principalmente com o passar das horas.
A intenção do encontro foi promover, entre os responsáveis pelas disciplinas de Ciências Humanas e História, a troca das experiências com o trabalho desenvolvido a partir do material pedagógico em questão. Os professores, divididos em grupos e com a proposta pedagógica e o currículo de suas respectivas disciplinas em mãos, dividiram o texto para leitura e apresentação da seguinte maneira: 1. Uma educação à altura dos desafios contemporâneos; 2. Princípios para um currículo comprometido com seu tempo; 3. Uma escola que também aprende; 4. O currículo como espaço de cultura; 5. As competências como referência; 6. Prioridade para a competência da leitura e da escrita; 7. Articulação das competências para aprender; e 8. Articulação com o mundo do trabalho. Vale ressaltar que tais tópicos compõem o texto do Documento Curricular de todas as disciplinas.29
A leitura e a apresentação dos tópicos pelos professores proporcionaram discussões acerca da necessidade de adequar o ensino público à nova “sociedade do conhecimento” e ao crescente desenvolvimento das tecnologias do mundo produtivo, transcorrendo acerca de questões relativas à preparação dos alunos da rede para a continuação dos estudos em nível superior. Também surgiram questionamentos acerca da infraestrutura necessária nas escolas para adentrar o novo mundo tecnológico proposto pelas matrizes curriculares da SEE-SP. Dessa maneira, os professores julgaram que os recursos tecnológicos das instituições de ensino da rede pública, apesar de já disponíveis, eram insuficientes para atender à crescente demanda das salas de aulas, em média com 35 alunos.
As críticas direcionadas pelos professores aos materiais didáticos de História disponibilizados pela SEE-SP (Cadernos do Professor e Cadernos do Aluno) foram o que mais chamou a atenção durante esse “HTPC coletivo”. Para os docentes de História, o maior
29 Essa forma de dividir os assuntos a serem tratados está de acordo com a divisão do próprio currículo da área de
ϳϰ
problema verificado no material era a falta de conteúdo disciplinar, mais precisamente a falta de textos expositivos e conceituais sobre os períodos relativos às Situações de Aprendizagem. Os professores ainda criticaram o atraso na chegada dos Cadernos e a extensão das Situações de Aprendizagem propostas pela Secretaria, as quais, na visão desses profissionais, nem sempre podiam ser cumpridas integralmente durante o ano letivo por razões diversas, ente elas, sobretudo, indisciplina e desinteresse dos alunos.
Frente a tais críticas, o discurso da PCOP de História relacionou-se à afirmação de que o currículo em questão faz parte dos “novos tempos” sociais e educacionais, ou seja, trata-se de um currículo do tempo presente, da nova sociedade produtiva e tecnológica. Dessa maneira, preocupou-se em fazer com que os professores refletissem sobre as atitudes dos alunos desse “novo tempo”, ressaltando a necessidade de que sejam também iniciadas algumas mudanças nas tradicionais formas de “ensinar História”, ou seja, na prática docente.
Contrariando o entendimento de alguns professores, a PCOP ainda enfatizou que as atividades contidas nos Cadernos não precisariam necessariamente ser cumpridas à risca, já que se configuram como sugestões de trabalho para subsidiar o professor no desenvolvimento de temas e assuntos do currículo. Assim, sugeriu aos docentes que outros materiais didáticos poderiam ser empregados no processo de ensino-aprendizagem, dependendo da necessidade deles e da realidade de cada escola e de cada sala.
Dessa forma, o termo “obrigatoriedade” não esteve presente na fala da PCOP de História, que se preocupou mais com o conceito de “construção”. Para ela, implementar o novo currículo de História é uma construção que cada profissional fará dependendo de seu cotidiano escolar. Entretanto, segundo suas orientações, o professor não poderá deixar em segundo plano o desenvolvimento das competências e habilidades propostas pelo Estado de São Paulo para cada ano escolar, já que isto sim, segundo o ponto de vista da PCOP, é o currículo a ser implantado nas escolas públicas paulistas.
Em síntese, pode-se afirmar que, apesar desse “HTPC coletivo” ter se configurado como um importante espaço para que os professores pudessem expor suas opiniões sobre o currículo e seus materiais didáticos, os termos “discussão” e “debate” devem ser utilizados com cautela quando se intenciona caracterizar o perfil desse encontro, pois parece que houve por parte destes mais preocupação em apresentar as agruras de uma jornada de trabalho extenuante e as condições desfavoráveis das escolas onde lecionam do que discutir as perspectivas do trabalho com o novo currículo paulista.
Por sua vez, também o posicionamento adotado pelos PCOPs da área de Ciências Humanas não foi o de elaborar críticas à matriz curricular e aos materiais didáticos –
ϳϱ
contemplando os fundamentos e métodos adotados pela SEE-SP –, tampouco o de propor alternativas de trabalho com as atividades do Cadernos frente às dificuldades relatadas pelo professores que estavam presentes. Ao contrário disso, a intenção foi tão somente de apresentar os materiais didáticos e a matriz curricular já utilizados na rede de ensino desde 2008. Nesse sentido pode-se afirmar que o debate ficou em segundo plano no encontro promovido pela DE Regional de Assis.
É interessante observar que na cidade de Assis encontra-se instalado um curso de licenciatura em História, na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – que poderia contribuir com as discussões promovidas pelo “HTPC coletivo” realizado pela DE, entretanto, os docentes da referida universidade não foram convidados a participar deste encontro, o que pode ser justificado pela própria distância existente entre escola e academia, entre ensino e pesquisa no Brasil.
Após mais de uma hora de discussões, o HTPC foi encerrado com a promessa de que outras reuniões para a troca de experiências e orientação seriam disponibilizadas pela SEE-SP em parceria com as DEs, o que, entretanto, ficou no plano das promessas. O professor da escola B relembra com descrédito a iniciativa da DE atestando, inclusive, o caráter de reprodução, “leitura” do material que possuiu este encontro:
Entrevistador: Como são essas orientações atualmente?
Olha, no primeiro bimestre, nós tivemos uma orientação técnica dada pelo PCOP de História referente ao Caderno 01.
Entrevistador: O caderno 01 seria o do 1º bimestre deste ano?
É, do primeiro bimestre deste ano de 2011. Na época, foi uma reunião de todos os professores de História da Diretoria para colocar suas experiências, o que está trabalhando, o que foi não trabalhado. Aí, haveria uma do 2º bimestre e não houve. Não sei o que aconteceu, por que ela (PCOP), na época, falou que ia chamar de novo para essa reunião [...]. Foi lá na escola Carlos Alberto e foi reunido por área, todos os professores acho que de Assis e depois eles se reuniram nas outras cidades também. Cada um teve coordenação do PCOP e foi feito uma leitura da proposta de História. Eles pediram para fazer uma leitura, fazer um comentário, aí falaram também que teria uma outra agora no segundo bimestre, mas não teve, não sei o que aconteceu e ficou nisso só, nessa orientação.
Finalmente, o destino tomado por esse “HTPC coletivo”, oferecido pela SEE-SP sob a batuta de seus PCOPs, faz lembrar as proposições de Cordeiro (2000) acerca das atuais discussões sobre o ensino de História, para quem as mesmas parecem amortecidas, abandonadas:
ϳϲ
[...] pode-se constatar uma espécie de amortecimento do debate: o ensino de História saiu de cena, não representando hoje o mesmo papel que antes, quando parecia para os envolvidos naquelas propostas que, com base na mudança das práticas configuradas no chamado “ensino tradicional”, tanto a escola quanto a própria vida na sociedade seriam radicalmente alteradas. (CORDEIRO, 2000, p.201)
Restam, portanto, as indagações sobre os motivos que levaram ao abandono o debate que, na década de 1980, representou um avanço para a História como disciplina escolar. Naquele contexto não somente o ensino de História passou por reestruturações, mas a própria sociedade que vivenciou a transição de um governo militar autoritário para um novo período democrático, o qual, durante a década de 1990, também passou por remodelações, advindas, sobretudo, da inserção dos preceitos neoliberais nas políticas públicas educacionais brasileiras. Contemplar essa conjuntura é de fundamental importância para que o atual debate sobre o ensino de História possa avançar.