A pesquisa de doutoramento que ora apresentamos tem como lugar de origem as ciências humanas e sociais e se insere especificamente nos estudos da linguagem, assumindo a ordem do discurso da LA.
O surgimento da LA, como área de conhecimento, remonta-se aos anos 1960 no Brasil. À época, a LA era compreendida como um campo de aplicação de teoria associada à Linguística Teórica, cujo espaço de atuação voltava-se para o ensino e aprendizagem de línguas, sobretudo, línguas estrangeiras.
A partir dos anos 1990, a LA se consubstancia como área autônoma quando se inicia um debate voltado para os fundamentos epistemológicos da referida área, trazendo para cena novos modos de produzir conhecimento, alicerçados numa dimensão teórico-metodológica inter/trandisciplinar (CELANI, 1992; SIGNORINI e CAVALCANTI, 1998; SIGNORINI, 1998; MOITA LOPES, 1990, 1996, 1998, 2006, 2013).
Diante dessa nova perspectiva, os linguistas aplicados passaram a defender uma agenda científica em LA que ultrapassasse as questões voltadas ao ensino de línguas, ensejando investigações que englobavam a linguagem à vida social, em suas múltiplas esferas - públicas e privadas - como um modo de criar inteligibilidade sobre as relações sociais (SIGNORINI, 1998; MOITA LOPES, 2006).
Na modernidade recente16, a LA em sua perspectiva inter/transdisciplinar tem se configurado como uma área de interface que avança por zonas fronteiriças de diferentes abordagens disciplinares. Adentrando no campo movediço da vida social, as pesquisas em LA problematizam e almejam discutir como “a linguagem, os textos, as línguas e as pessoas movem-se, cada vez mais, em sociedades hipersemiotizadas, o que tem levado a pensar as línguas, a linguagem e quem somos no mundo social em outras bases” (MOITA LOPES, 2013, p. 16).
Moita Lopes (2006), para melhor descrever os aspectos epistemológicos da INdisciplinaridade da LA, apresenta quatro características que a representam:
a) A imprescindibilidade de uma LA mestiça, que corresponde, na verdade, à mesma reestruturação interdisciplinar que está ocorrendo em outros campos do conhecimento, de modo a poder dialogar com o mundo contemporâneo; b) Uma LA que explore a relação entre teoria e prática, porque é inadequado construir teorias sem considerar as vozes daqueles que vivem as práticas sociais que queremos estudar; mesmo porque no mundo de contingências e de mudanças velozes em que vivemos a prática está diante da teoria;
c) Uma LA que redescreve o sujeito social ao compreendê-lo como heterogêneo, fragmentado e fluido, historicizando-o;
d) La como área em que ética e poder são pilares cruciais, [...] uma vez que não é possível relativizar todos os significados: há limites éticos que devem nos orientar (MOITA LOPES, 2006, p. 31)
Os pontos apresentados pelo autor destacam uma LA preocupada pela produção de conhecimento responsivo aos seres humanos, buscando compreendê-los em suas múltiplas demandas, singularidades, práticas sociais e eventos nos quais se engajam mediante as diversas mudanças de natureza econômica, política, tecnológica, cultural e social.
Essa preocupação da LA é movida pela necessidade de acompanhar as demandas de um mundo constantemente permeado por mudanças locais e globais, mundo esse essencialmente discursivo que inclui e ao mesmo tempo exclui pessoas por não conseguirem lidar com os bens simbólicos e matérias que os cercam. O estudo voltado para essas práticas sociais, mediante o olhar para a linguagem que as constitui, contribui com a vida humana contemporânea. “Essa coexistência de dois mundos diferentes requer inovações teórico- metodológicas na pesquisa, as quais só podem ser consideradas em um campo que se concebe de forma continuamente problematizadora e não sedimentada” (MOITA LOPES, 2013, p. 20).
16 O uso da expressão modernidade recente remete-se ao período da história contemporânea que
Sendo a LA uma área que problematiza o uso da linguagem na prática social, para lidar com os desafios contemporâneos, ela busca legitimar conhecimentos relacionados a grupos minoritários. Para tanto, atenta para a compreensão sobre seus modos de vida, identidade, raça, gênero, sexualidade dentre outras demandas, construindo outro discurso para a vida social, pleno de alternativas que possam alterar o presente e reinventar a vida social (MOITA LOPES, 2013), em nosso caso, a construção identitária do grupo minoritário população em situação de rua na cidade de Natal/RN.
A perspectiva inter/transdisciplinar da LA constitui um campo metodológico multifacetado, que pode intersectar diferentes campos do saber, a depender da especificidade da investigação, na intenção de produzir conhecimento que se preocupa com a vida social, conhecimento pautado em alternativas sociais e nas vozes das minorias. Esse foco da LA empreende investigação voltada para a linguagem enquanto prática social e adentra em novos percursos de modo que o conhecimento se torna responsivo à vida social por meio da investigação de temas referentes a sujeitos excluídos (MOITA LOPES, 2006).
Posto esse contexto que caracteriza os postulados epistemológicos da LA, ainda convém destacar a maneira pela qual a pesquisa e o modo de produção de conhecimento se articulam em LA. Para visualizar essa articulação, vejamos o quadro que segue.
Quadro 14 - Postulados epistemológicos da pesquisa e modo de produção do conhecimento em LA
CONTEXTO DE APLICAÇÃO
“Estudo das pessoas em ação no mundo” (MOITA LOPES, 1998, p. 110).
CONHECIMENTO TEÓRICO E PRÁTICO
“Conhecimento tem que ser informado pela prática social onde as pessoas agem” (MOITA LOPES, 1998, p. 110).
TIPOS DE CONHECIMENTO: PARTICIPATIVO E COLABORATIVO
“A pesquisa de natureza colaborativa, metodologias que têm sido cada vez mais utilizadas em LA consideram a visão dos participantes e envolvem a colaboração do pesquisador, de modo que ele esteja engajado na formulação do conhecimento... maior preocupação com o retorno dos resultados para prática social” (MOITA LOPES, 1998, p.111).
CONHECIMENTO
“[...] a pesquisa em LA aponta que o específico no mundo social é fato de os significados que o caracterizam serem constituídos pelo
ALTAMENTE CONTEXTUALIZADO
ser humano, que interpreta e reinterpreta o mundo a sua volta, fazendo, assim que não haja realidade única, nas várias realidades” (MOITA LOPES, 1998, p. 111-112).
RESPONSABILIDADE SOCIAL E DIVULGAÇÃO DOS
RESULTADOS
“[...] fazer uma pesquisa altamente contextualizada já é decorrência da preocupação com a mudança das práticas sociais” (MOITA LOPES, 1998, p. 112).
REALIDADE COMPLEXA
“[...] deslocar a LA da dependência única da Linguística” (MOITA LOPES, 1998, p. 113).
Fonte: Damaceno (2013. p. 126) com base em Moita Lopes (2008)
Assumindo que nossa investigação corrobora os preceitos epistemológicos da LA, mencionamos que o estudo científico sobre sujeitos e identidade implica fomentar um projeto que coloque em xeque abordagens sociológicas, culturais, bem como, linguísticas, uma vez que as relações sociais vivenciadas pelos sujeitos se materializam por meio das práticas discursivas que se imbricam dialeticamente.
Destacamos que o nosso estudo sobre a construção identitária individual da população em situação de rua em Natal/RN se insere em uma perspectiva transdisciplinar, posto que focaliza conhecimento responsivo à vida social por meio da investigação de sujeitos excluídos, ancorando-se na perspectiva epistemológica da LA na modernidade recente.
Partindo do pressuposto de que as pesquisas realizadas dentro da LA configuram-se pelo intercruzamento de abordagens teóricas, cujo foco de interesse compreende o uso da linguagem nas práticas sociais como um modo de criar inteligibilidade sobre as relações sociais (SIGNORINI, 1998; MOITA-LOPES, 2006), o nosso posicionamento nesta pesquisa enquanto linguista aplicado contempla a linguagem enquanto prática social e se volta especificamente para a construção de identidades individuais de pessoas em situação de rua em Natal/RN em tempos de grande efervescência política, cultural e econômica.
Os gestos de interpretação para o que revelam as histórias de vida de pessoas que viveram ou estão em situação de rua foram orientados por diversos campos teóricos, a saber, pela Análise Crítica do Discurso, Fairclough (2001, 2006), especificamente por sua Abordagem Sociológica e Comunicacional do Discurso – ASCD, Pedrosa (2012, 2013, 2014); pela Sociologia para a Mudança Social, Bajoit (2006); pelos estudos sobre o sujeito e as identidades, Bajoit (2008), Tourain (2009), Tejerina (2010); pelos Estudos Culturais, Hall
(2005); pela Linguística Sistêmico-Funcional notadamente pelo Sistema de Transitividade, Halliday (1985); Halliday e Mathiessen, (2004); Eggins (2004) e Cunha e Souza (2011), dando a esta investigação a formatação de uma pesquisa de base transdisciplinar17.
A necessidade de acessar as áreas do conhecimento supracitadas pode ser compreendida se levarmos em consideração que estudos científicos voltados para a reflexão sobre práticas sociais e linguagem constituem um campo teórico-metodológico multifacetado, intersectando diferentes olhares na intenção de produzir conhecimento que se preocupa com a vida social. Tal conhecimento pauta-se em alternativas sociais e nas vozes das minorias, por exemplo, pessoas em situação de rua. Esse é o foco da LA, que empreende investigação voltada para a linguagem enquanto prática social e adentra em novos percursos de modo que o conhecimento se torna responsivo à vida social por meio da investigação de temas referentes a sujeitos excluídos (MOITA LOPES, 2006).