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Manoel Salustiano Soares nasceu no dia 12 de novembro de 1945 no engenho Outeiro Alto, cidade de Aliança, zona da mata norte de Pernambuco (MURPHY, 2008, p. 37). Seu pai, João Salustiano, nasceu e criou-se na palha da cana76, sendo um respeitado rabequeiro na localidade onde vivia, tocando rabeca em grupos de cavalo-marinho, bailes de forró e mamulengo, tornando-se um importante personagem da tradição desse instrumento na região canavieira (NASCIMENTO, 2005, p. 21).

Quando tinha apenas cinco anos de idade, Manoel Salustiano iniciou sua vivência no cavalo-marinho e em outros brinquedos, como o mamulengo, o coco, o reisado, a ciranda, o maracatu e o fandango, sempre levado por seu pai. Dos seis para os sete anos, começou a ajudá-lo a cortar e amarrar cana, período em que principiou sua aprendizagem como brincador de cavalo-marinho. Ele trabalhava durante toda semana, mas sempre ansioso para chegar o sábado e brincar o cavalo-marinho onde seu pai tocava rabeca. Participou como arlequim, galante, e depois colocando figura. Aprendeu a tocar pandeiro e foi toadeiro, cantando ao lado de seu pai. Chegou a mestrar cavalo-marinho, até que findou por aprender a arte do pai, e poderia seguir naquele mesmo destino, mas tomou a decisão de fazer diferente, para não passar o resto da vida em meio aos canaviais (LIMA, 2007, p. 15).

Em 1965, então com vinte anos de idade, Manoel Salustiano resolveu mudar-se para Olinda em busca de melhores condições de vida. Trabalhou como zelador e até vendedor de picolé. Suas perspectivas começaram a mudar quando ele tomou conhecimento da existência de um cavalo-marinho em Recife, no bairro de Casa Amarela. Era o grupo de mestre Joaquim Felipe. Ele brincou por um tempo nesse cavalo-marinho tocando rabeca, mas começou a despertar o interesse de formar o seu próprio grupo (MURPHY, 2008, p. 38). Na ausência de brincadores, teve que ensinar as pessoas a tocar, cantar, dançar e botar figuras. O grupo se consolidou, e nascia, dessa forma, o mestre Salustiano, ou simplesmente mestre Salú.

A primeira vez que mestre Salustiano foi levado ao conhecimento do poder público ocorreu quando ele conheceu o professor Abílio de Castro, secretário de turismo de Olinda, que queria uma apresentação cultural para um grupo de turistas que participavam de um congresso no Mercado da Ribeira77. Após essa apresentação, outros contratos vieram para apresentações nas festas de natal, ano novo e dia de Reis no Alto da Sé78 e em posteriores festivais folclóricos organizados por escolas da cidade (NASCIMENTO, 2005, p. 130-132).

Na década de 1970, mestre Salú conheceu Leda Alves e Ariano Suassuna, que seriam seus grandes apoiadores79, promovendo seu grupo e conseguindo-lhe trabalhos administrativos em instituições e órgãos públicos ligados à cultura como a FUNDARPE e a Casa da Cultura, além de aulas de cultura popular a serem ministradas em escolas públicas (MURPHY, 2008, p. 39). Mestre Salustiano também trabalhou durante os dois últimos governos de Miguel Arraes 80, atuando na Secretaria de Cultura de Pernambuco durante a gestão dos então secretários Leda Alves e Ariano Suassuna (NASCIMENTO, 2005, p. 21).

No ano de 2002, mestre Salustiano realizou seu sonho de criar um espaço destinado à cultura popular e às tradições pernambucanas. A Casa da Rabeca foi fruto de uma visão empreendedora que transformou um pequeno sítio, localizado na periferia de Olinda, em uma propriedade com quatro hectares, onde cada um dos seus trinta filhos ocupa um terreno, tendo

77 Mercado público localizado no sítio histórico de Olinda, construído no final do século XVII. No

princípio foi um local onde eram comercializados produtos de primeira necessidade, mas a partir da década de 1960 começou a ser explorado pelo turismo através da venda de artesanatos.

78 O Alto da Sé faz parte do sítio histórico de Olinda, sendo um local de grande fluxo turístico. Nele se

encontram a Igreja da Sé, construída no século XVI, lojas de artesanato e barracas de comidas típicas, além de uma bela vista para o mar.

79 Leda Alves é atriz e estudiosa da cultura popular, enquanto Ariano Suassuna (1927-2014) foi um

escritor paraibano radicado em Pernambuco que se tornou forte defensor da cultura nordestina.

80 Miguel Arraes de Alencar (1916-2005) foi advogado e importante político brasileiro. Ocupou os

cargos de prefeito do Recife, deputado estadual, deputado federal e governador de Pernambuco em três ocasiões (1963-1964, 1987-1990 e 1995-1999).

ao centro uma área para apresentações com uma casa de artesanato, bar, estacionamento e um amplo salão com piso de cimento e palco. Por iniciativa do próprio mestre Salú, desde 1995 são realizados nesse espaço encontros anuais de cavalo-marinho na época de natal e dia de Reis, reunindo os vários grupos existentes em Pernambuco, atraindo imprensa, visitantes locais e turistas, proporcionando aos grupos e brincadores desse folguedo uma maior visibilidade.

Manoel Salustiano tornou-se um dos artistas populares mais valorizados no manguebeat, influenciando e sendo influenciado pelos artistas da nova cena musical pernambucana, o que lhe garantiu uma agenda repleta de shows, além da gravação de seus quatro CDs: Sonho da Rabeca, As três gerações, Cavalo-Marinho e Mestre Salú e a sua rabeca encantada, constituindo um marco inicial da inserção do cavalo-marinho no mercado cultural.

Com raízes fincadas na zona canavieira onde nasceu, mas ao mesmo tempo desenvolvendo uma perspectiva empresarial e administrativa no ambiente urbano, associado ao seu talento artístico e capacidade de articulação, mestre Salú usufruiu de um trânsito livre entre os artistas populares, o governo, a mídia e o movimento mangue (NASCIMENTO, 2005, p. 21), tornando-se um importante ícone da música pernambucana, reconhecido no Brasil e no exterior, além de se tornar um referencial para os brincadores de cavalo-marinho que permaneceram no interior.

Mestre Salustiano faleceu em 2008, vítima de problemas no coração devido ao mal de chagas, mas sua herança se mantém viva, sobretudo através de seus filhos, que continuam seu legado. Maciel Salustiano é um cantor e rabequeiro talentoso que desenvolve uma proeminente carreira musical, enquanto Pedro Salustiano participa de espetáculos de dança no Brasil e no exterior; ambos ligados à cultura da zona da mata trazida por seu pai, mas sem abrir mão de um caminho artístico próprio em direção à cultura massiva.