3.2 Model description
3.2.1 Cohort resampling
Como se viu até aqui a obra de Marx começa definindo que a forma da produção de riqueza é a produção generalizada de mercadorias, produção de valor de troca. A produção no capitalismo não tem como objetivo o consumo, mas o lucro. Sem lucro, portanto, os capitalistas não têm motivos para investir. O tempo de trabalho socialmente necessário como medida do valor é que regula a troca dos produtos. No regime de propriedade privada a força de trabalho, sem nenhuma propriedade de meios de produção, sobrevive apenas se submetendo ao capital e produzindo em troca do salário.
A superação da obra de Ricardo e de Adam Smith se deu precisamente no conceito de força de trabalho. Os dois fundadores da economia política corretamente apontavam que os capitalistas no mercado trocam as mercadorias pelo seu valor. E definiam que os empresários, possuindo os meios de produção, contratavam os trabalhadores pelo valor dos seus trabalhos, como se os operários possuíssem o trabalho. Acontece que ninguém possui trabalho, o trabalho é uma atividade; o que os trabalhadores possuem é força de trabalho – e é a força de trabalho que é comprada. Esta força de trabalho pode realizar uma atividade de dez horas, de
cinco horas, ou de quantas horas for possível, de acordo com os limites físicos do trabalhador e os limites morais e culturais da sociedade. Substituir o equivocado conceito de trabalho por força de trabalho foi uma descoberta de Marx.
Tendo comprado a força de trabalho, o proprietário dos meios de produção pode usufruir desta força, consumi-la ao máximo. Quando compra a força de trabalho, o marxismo admite que o capitalista possa comprá-la pelo seu valor de mercado. E qual o valor da força de trabalho? Como toda a mercadoria, vale o tempo necessário para garantir sua produção (e reprodução, para que novos assalariados substituam os antigos na velhice e na invalidez); quer dizer, vale o equivalente ao valor das mercadorias necessárias para o trabalhador restabelecer suas forças e poder voltar a vender sua força de trabalho, garantindo o mínimo para sua família. São, portanto, as mercadorias ligadas à alimentação, ao vestuário, aos transportes, moradia, etc., as fundamentais na determinação do valor da força de trabalho.
O segredo da exploração, porém, está já no pagamento da força de trabalho mesmo que seja por seu real valor, na medida em que os capitalistas sugam ao máximo os trabalhadores na produção, para além da reposição dos salários. Com seu trabalho, o trabalhador restitui ao capitalista o equivalente ao seu salário, pago pelo capitalista, e ainda lhe garante um valor a mais, um trabalho que excede o tempo necessário para reproduzir o valor de sua própria força de trabalho: eis aí a mais-valia. Ou seja, dada uma jornada de trabalho de 8 horas, digamos que em quatro horas o trabalhador produza o equivalente ao que recebe como salário, as quatro horas restantes representam o trabalho excedente, a mais-valia do capitalista. Eis aí o segredo da exploração, que no capitalismo aparece como se fosse uma troca de equivalentes entre a força de trabalho e o salário, ocultando aos trabalhadores a produção excedente apropriada pelo capitalista. Agora o valor varia. A força de trabalho produz este “milagre”, faz o capital variar, ser acrescido de mais-valia.
Esta foi a genial descoberta de Marx, a partir da qual, segundo Engels, o socialismo adquiriu um caráter científico, por ter desvendado o segredo da acumulação capitalista, qual seja, a exploração da única mercadoria que tem como valor de uso a propriedade de criar valor: a força de trabalho humana. As demais mercadorias transferem seu valor para o produto, mas não criam novo valor; somente a força de trabalho cria valor. Aí se encontra a base do lucro. Marx mostrou que o lucro, no regime capitalista, não pode normalmente ser garantido pela venda da mercadoria a um valor maior do que ela realmente vale porque os capitalistas que vendem também compram, de tal forma que ganhando ao vender mais caro perderiam em seguida ao comprar mais caro. Não podem, portanto, lucrar enganando-se mutuamente. É pela exploração da força de trabalho que o lucro é viabilizado.
A produção capitalista se realiza e se reproduz apenas se os salários pagos são uma parte da produção total que os trabalhadores executam em troca do salário. É importante, para o objetivo de nosso trabalho, perceber que também o salário tem em si mesmo a contradição. Para o trabalhador ele é um meio de subsistência, um meio para garantir seu consumo e a vida. Mas esta é a aparência. Nesse sentido, se pode dizer que é um momento do que é o salário. Indo além deste momento, se vê que o salário é o meio em torno do qual o capital garante que o trabalhador produza a mais-valia e, garanta, então, a acumulação do capital. Por isso o salário é na verdade o capital variável.
Abre-se um parêntese para dizer que o lucro total existente num determinado momento não se divide em partes iguais entre os distintos setores da burguesia. Há um lucro médio, e há setores que estão acima ou abaixo desta média. Mas o lucro geral, a soma total da lucratividade vem da exploração da força de trabalho, porque a força de trabalho é a única fonte geradora de mais valor, ou seja, do valor que se acrescenta em relação a si mesmo, isto é, de lucro, com a diferença que a taxa de mais-valia é calculada sobre a base do valor empregada na contratação da força de trabalho e a taxa de lucro é calculada sobre a base dos gastos no conjunto do capital, tanto a força de trabalho quanto em matéria-prima, maquinarias, etc. As diferenças na produtividade e na técnica entre as forças empregadas pelo capital alteram a divisão do lucro global entre as distintas facções da burguesia. Os que investem em tecnologia muitas vezes recebem superlucros, quando saem na frente, antes que todas as empresas tenham incorporado a tecnologia nova. Assim, cada capitalista tenta produzir pelo menor valor, portanto, trata de aumentar sempre sua produtividade, revolucionando para isso o processo de produção, aumentando a organização e a técnica do processo de trabalho, abrindo uma contradição entre a produção cada vez mais socializada e a apropriação privada.