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De acordo com a Hipótese do Período Crítico (HPC) há um período no qual a aquisição de línguas acontece naturalmente e sem esforço (ELLIS, Op. cit). Tal período envolve tanto a aquisição da língua materna, como segundas línguas. Alguns de seus conceitos são estendidos a línguas estrangeiras. Essa hipótese tem sido vista com reservas por se tratar de um tema controverso. De qualquer modo apresentamos algumas considerações sobre ela.

Finegan (1999) cita o caso de Genie, uma criança que não foi exposta à língua alguma enquanto crescia. Os pais de Genie a trancaram em um porão até os treze anos de idade e raramente falavam com ela. Quando ela foi descoberta em 1970, ela era incapaz de falar, e a lingüista Susan Curtis tentou ensiná-la inglês, mas as tentativas não foram bem sucedidas. Desprovida de insumo lingüístico nos primeiros anos de sua vida, a capacidade de aquisição lingüística de Genie ficou prejudicada.

O período crítico possui base neurológica. A perda da plasticidade neural acabaria por volta da puberdade. Após esse período o domínio completo de uma língua não seria mais possível (Lennberg, 1967 apud Bongaerts et al, 1997).

Penfield e Roberts (1959 apud ELLIS, Op. cit) afirmam que a idade ótima para aquisição natural (sem esforço) de línguas segundas acabe por volta dos dez anos de idade. Durante este período, o cérebro retém plasticidade, que com o início da puberdade começa a desaparecer. Eles sugerem que isso seria o resultado da lateralização da função da língua no hemisfério esquerdo do cérebro. A capacidade neurológica de entender e produzir linguagem inicialmente envolve ambos os hemisférios do cérebro e lentamente, na maioria das pessoas, acabam por se concentrar no hemisfério esquerdo. A crescente dificuldade dos aprendizes mais velhos seria um resultado direto dessa mudança. Lenneberg (1967 apud ELLIS, Op. cit) descobriu que danos causados ao hemisfério direito causaram mais problemas na linguagem nas crianças que nos adultos, e que no caso de crianças que passaram por cirurgias no hemisfério esquerdo não houve desordem na fala e se recuperaram rapidamente o controle da língua, enquanto que adultos, sob as mesmas circunstâncias, tiveram perda quase total da língua e continuaram a mostrar danos lingüísticos permanentes. Tais fatos sugeririam que a base neurológica da criança é diferente da dos adultos.

Para Ellis (Op. cit) essas evidências não implicam que seja mais fácil adquirir um língua antes da puberdade. Lenneberg (1967 apud ELLIS, Op. cit), por outro lado, afirma que a aquisição de línguas é mais fácil para as crianças.

Major (1987) salienta quer há controvérsias sobre quando lateralização se completa. Segundo Lenneberg (1967 apud Major, Op. cit) seria por volta da puberdade. Para Scovel (1969 apud Major, Op. cit) após a puberdade. Já para Krashen (1973 apud MAJOR, Op. cit) aos cinco anos de idade. Para Major (Op. cit), de acordo com o conceito de Krashen, a lateralização não poderia explicar por que crianças após cinco anos de idade conseguem facilmente alcançar a pronúncia nativa de uma L2, pelo menos em um contexto natural. Ainda mais problemático é que mesmo se a lateralização não fosse completada até a puberdade, não estaria claro por que a lateralização afetaria a pronúncia, mas não a habilidade de atingir enunciados nativos na sintaxe e morfologia, como muitos adultos são capazes de fazer, o que também é corroborado por Assis- Peterson e Gonçalves:

O efeito do período crítico pode ser mínimo no caso da aquisição da gramática, mas é mais relevante no caso de aquisição de pronúncia. (ASSIS-PETERSON; GONÇALVES, 2001, p. 22)

Para Ellis (Op. cit), a Hipótese do Período Crítico é inadequada para explicar o papel da idade na aquisição de uma L2, sendo que a única vantagem de se começar a aprendizagem de uma língua mais cedo seria devido à aquisição fonológica, em termos de sucesso e não de velocidade. Assim, tal hipótese precisaria ser redirecionada a fim de explicar por que a perda de plasticidade afeta apenas a pronúncia e não os outros níveis da linguagem.

Bongaerts et al (1997) afirmam que não há apenas um período crítico afetando todos os aspectos da língua ao mesmo tempo, mas muitos períodos, cada qual englobando habilidades diferentes. A habilidade de dominar um sotaque nativo em uma língua estrangeira seria a primeira a ser perdida, por volta da puberdade. O processo de lateralização e localização da linguagem seria gradual, levando anos. Diferentes aspectos da língua seriam afetados em diferentes estágios deste processo. Isso explicaria o fato de adolescentes superarem os adultos na aquisição da gramática. Por volta dos 16 anos a habilidade de adquirir a gramática ainda não teria sido afetada (ELLIS, 1994). Tal conceito parece ser uma explicação alternativa para a relação ente a idade e a capacidade linguística.

Assim, permanece a questão sobre qual seria a melhor idade para aprender uma língua estrangeira. Há a crença de que, “quanto mais cedo melhor”, porém uma análise mais cuidadosa revela que tal afirmação é superficial. Spada (2004) resume:

Praticamente qualquer um diria "quanto mais novo, melhor", quando se trata de aprender uma língua estrangeira através da educação formal, em escolas. Contudo, tanto a experiência como a pesquisa têm mostrado que estudantes mais velhos podem obter um nível de proficiência alto, se não nativo, em uma língua estrangeira. Então a resposta para a pergunta "qual é a melhor idade para que as crianças comecem a aprender uma língua estrangeira" depende de inúmeros fatores, sendo os dois mais importantes: 1) os objetivos e as expectativas do programa instrucional e 2) o contexto em que o ensino acontece. Se o objetivo de aprender/ensinar uma língua estrangeira é obter o mais alto nível de habilidade na segunda língua, o nível em que um falante de segunda língua se torne igual ao falante nativo, há apoio para o argumento de "quanto mais cedo, melhor". Esse apoio, encontrado na literatura sobre a hipótese do período crítico, é baseada no princípio de que fatores biológicos e maturacionais limitam a capacidade de aprendizagem de línguas depois de uma determinada idade. No entanto, alcançar a fluência de uma língua estrangeira em um nível de falante nativo não é o objetivo de todos os alunos em todos os contextos. Na verdade, a maioria dos aprendizes de língua estrangeira está principalmente interessada em obter uma habilidade básica de comunicação na língua estrangeira, porque a sua língua materna continuará sendo a sua língua principal. Nesses

casos, pode ser mais eficiente começar o aprendizado da língua estrangeira mais tarde. Pesquisas têm mostrado que, quando recebem apenas algumas horas de instrução por semana, alunos que começam mais tarde (por exemplo, por volta dos 10-12 anos, ao invés de 6-8 anos) geralmente se igualam com aqueles que começaram mais cedo. Sendo assim, uma ou duas horas por semana não irá produzir falantes de segunda língua muito avançados, não importa o quão cedo tenham começado. (SPADA, Op. cit) Assis-Peterson e Gonçalves (2001) afirmam que

São os estudos e aprendizes em situações de ambientes naturais que parecem evidenciar que “quanto mais cedo melhor. (ASSIS-PETERSON; GONÇALVES, 2001, p.17)

E ainda que,

Pesquisas mostraram que em contextos formais de ensino, nos quais as crianças recebem poucas horas de ensino por semana, aprendizes que começaram mais tarde (idade de 10, 11 e 12 anos) alcançaram rapidamente aqueles que começaram mais cedo. (ASSIS-PETERSON; GONÇALVES, op., cit, p. 23)

3.3.3 Aspectos cognitivos e afetivos da idade - efeitos na aprendizagem de língua