Devido o percentual dos professores de Geografia e História representarem 91% do total que ministram a disciplina de Estudos Amazônicos no município de Marabá/PA, abordaremos a proposta curricular da disciplina baseado na possível competência desses profissionais, mas para isso é necessário definir o que é conteúdo de ensino, que não é relativamente fácil, mais ainda como foi elaborado a seleção destes conteúdos em determinada matriz curricular.
Os conteúdos, como construções histórico-sociais sofrem mudanças no decorrer do percurso histórico da Educação no Brasil e no mundo. O termo conteúdo, segundo Sacristán (1998, p 149), é carregado de uma significação intelectualista e culturalista própria da tradição dominante das instituições nas quais foi forjado e utilizado.
A partir da construção do entendimento de competência elencados por Perrenoud e contextualizado por Nóvoa, utilizaremos tal conceituação para exploramos a proposta curricular da disciplina de Estudos Amazônicos e a competência dos professores para trabalharem determinado conteúdo, levando em consideração a formação inicial do docente. Para isto, iremos explicitar os conteúdos sugeridos na proposta curricular (SEMED, 2006) do município de Marabá para os 6º ao 9ºanos.
Conteúdos Sugeridos para o 6º ano: O Espaço Geográfico Amazônico
O que é o espaço geográfico;
O trabalho do homem constrói o espaço geográfico; As várias Amazônias:
Segundo IBGE: Amazônia Legal, Amazônia Internacional, Região Geoeconômica da Amazônia;
O processo de Construção do Espaço Marabaense: O espaço geográfico marabaense;
Aspectos naturais;
Os índios: verdadeiros donos da terra;
A chegada do homem branco: conflitos e perda de identidade; O burgo do Itacaiúnas e a gênese do município de Marabá;
As lutas políticas no processo de emancipação do município;
Atividades econômicas: caucho, castanha, pecuária, garimpagem, etc... As transformações recentes e suas implicações sócio-ambientais:
O projeto de Integração Nacional e seus reflexos na construção do espaço regional A dinâmica urbana em Marabá e suas contradições:
O processo de ocupação espontânea O surgimento dos núcleos
As consequências dessas ocupações: social, econômica e cultural; Os impactos ambientais no município;
As enchentes;
Poluição (da água, ar, lixo visual e sonora); Assoreamento dos rios.
No conteúdo sugerido para o 6º ano do Ensino Fundamental II, é possível observar que a temática ‘Espaço Geográfico19 Amazônico’ é a que introduz os primeiros conceitos sobre o espaço amazônico e suas diversas peculiaridades, tratando assim, a Amazônia de uma forma heterogênea. Entretanto, na temática ‘O processo de construção do espaço marabaense’, é possível identificar conteúdos referentes à disciplina de História e, até mesmo que não foram estudados na graduação por nenhuma das Licenciaturas, sejam elas, Geografia ou História, pois temos que levar em consideração o local onde o professor que atua com a disciplina de Estudos Amazônicos fez sua graduação (região, estado e município).
De acordo com dados enviados pela SEMED/Marabá, no ano de 2015, existiam 76 professores de Estudos Amazônicos atuando na zona urbana e, no ano de 2016, até o mês de abril, existem o total de 93 professores atuando na zona urbana, dentre estes professores a maioria são de Geografia, História e Pedagogia.
Como grande parte dos conteúdos do 6º ano é de competência do profissional de Geografia, seria coerente que os profissionais de História e Pedagogia que trabalham com a
19 Milton Santos(1982) vai se referir a esta categoria dizendo: "o espaço é acumulação desigual de tempos". O
que significa conceber espaço como heranças. O mesmo Milton Santos (1997) vai se referir a espaço–tempo como categorias indissociáveis, nos permitindo uma reflexão sobre espaço como coexistência de tempos. Desta forma, num mesmo espaço coabitam tempos diferentes, tempos tecnológicos diferentes, resultando daí inserções diferentes do lugar no sistema ou na rede mundial (mundo globalizado), bem como resultando diferentes ritmos e coexistências nos lugares. Constituindo estas diferentes formas de coexistir, materializações diversas, por consequência espaço(s) geográfico(s) complexo(s) e carregado(s) de heranças e de novas possibilidades.
disciplina de Estudos Amazônicos, passassem por um processo de formação continuada ou comprovassem, através de cursos de extensão, especialização, mestrado e/ou doutorado que não teriam problemas ao lidar com esses conteúdos em sala de aula.
Conteúdos sugeridos para o 7º ano
As sociedades indígenas na Amazônia antes do contato com os europeus;
Belém na conquista da Amazônia: antecedentes à fundação e os primeiros anos; A vida nas cidades da Amazônia;
Uma colônia de ocupação (do início do século XVII a meados do século XVIII); As primeiras atividades econômicas; drogas do sertão;
A política pombalina na Amazônia e o projeto de transformação do índio em colono; A importação da mão-de-obra negra na região (substituição da mão-de-obra indígena
pela negra);
O Pará: a independência e o império;
Do patriotismo à revolução: história da Revolução Cubana20 A Amazônia em meados do Séc. XIX e XX;
O extrativismo da Borracha;
A castanha do Pará: um produto precioso que durou tão pouco; Nosso estado, nossa gente;
Dividindo as terras do Pará para produzir; Meso regiões e micro-regiões paraenses; Formação das cidades paraenses;
As maiores cidades; Demografia Paraense;
A miscigenação do povo paraense.
Já, nos conteúdos referentes ao 7º ano, é possível percebermos que as temáticas são predominantemente de cunho da disciplina de História, com pequenos momentos de abertura para a disciplina de Geografia.
No contexto do município de Marabá, esta seria uma situação problemática, uma vez que a quantidade de professores com formação em História que ministraram a disciplina de
20 Acreditamos que houve um erro de digitação. Na verdade, ao invés de Cubana, leia-se Cabana, tratando-se da
Revolução Cabana mais conhecida como a ‘A Revolta da Cabanagem’, movimento de revolta social ocorrido no Brasil Império, no período de 1835 até 1840, na então província do Grão-Pará, hoje o estado do Pará.
Estudos Amazônicos é mínima: até o ano de 2015, existiam apenas 10 professores com graduação em Licenciatura em História ou que ainda estavam concluindo o curso.
Conteúdos sugeridos para o 8º ano: Amazônia: Espaço e Região;
As diversas maneiras de regionalizar o espaço amazônico;
Divisão Política do Brasil. Região Amazônica Oriental e Ocidental; Região Amazônica Internacional; Região de Planejamento e Região Geoeconômica da Amazônia;
O Espaço Amazônico de ontem: ciclo da borracha; O Espaço Amazônico de hoje;
Órgão Federal de Planejamento;
SUDAM, SUFRAMA, Distrito Industrial de Manaus, Refinaria RENAN; hidrelétrica de Balbina e Tucuruí;
Pólo Petrolífero de Coari; Polamazônia;
Impactos e consequências sócio-ambientais dos grandes projetos. Produção econômica e a apropriação da natureza
A Amazônia e suas relações econômicas; A produção extrativista: madeira, garimpeira; Agricultura;
Pecuária;
Questão ambiental na Amazônia
Muitas áreas da Amazônia estão desmatadas;
Consequências do desmatamento para os solos, os rios e para a população local; Políticas públicas voltadas para a questão sócio-ambiental dos Grandes Projetos. As relações da sociedade com o espaço já ficam mais evidentes a partir dos conteúdos sugeridos para o 8º ano, logo, é importante ressaltar que, segundo a professora Violeta Loureiro (2016), inicialmente, a disciplina de Estudos Amazônicos tinha sido pensada para o Ensino Médio, mas, por falta de verba, a disciplina tornou-se obrigatória somente para o
Ensino Fundamental II. Isto talvez explique um maior adensamento do conteúdo da disciplina a partir do 8º ano.
Conteúdos sugeridos para o 9º ano
A Amazônia na divisão territorial do trabalho; A Amazônia no contexto global;
A política da integração da Amazônia ao resto do Brasil: abertura da Belém- Brasília;
Crescimento urbano Explosão demográfica
Ocupação militar: A Guerrilha do Araguaia; A estrutura agrária:
Conflitos fundiários ´Chico Mendes´; Movimentos Sociais – MST;
Trabalho Escravo; Impactos Ambientais; Biodiversidade;
Assoreamento dos rios; Poluição da água e do ar; Biopirataria;
O narcotráfico na Amazônia;
Desenvolvimento sustentável na Amazônia; Industrialização na Amazônia pós-90;
Incentivos fiscais e investimentos em infra-estrutura; Agropecuária mecanizada;
Nos conteúdos referentes ao 9º ano é possível identificar uma mescla entre os conteúdos já vistos no 6º, 7º e 8º anos e o aprofundamento com a temática do meio ambiente. É possível acreditar que este aprofundamento se deve às grandes questões ambientais na qual a Amazônia está inserida, gerando preocupações para os moradores da região e também do Brasil e do mundo.
Baseando nesta perspectiva da temática ambiental, acreditamos que a disciplina de Estudos Amazônicos é fundamental para debater e conscientizar os discentes da relevância de
explorar os recursos naturais de uma forma a não prejudicar as presente e futuras gerações e, segundo a resolução Nº 2, de 15 de julho de 2012, que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Ambiental, a Constituição Federal (CF), de 1998, no inciso VI do § 1º do artigo 225 determina que o Poder Público deve promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino, pois “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida”, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
A LDB/96 prevê que na formação básica do cidadão seja assegurada a compreensão do ambiente natural e social; que os currículos do Ensino Fundamental e do Médio devem abranger o conhecimento do mundo físico e natural; que a Educação Superior deve desenvolver o entendimento do ser humano e do meio em que vive; que a Educação tem como uma de suas finalidades, a preparação para o exercício da cidadania.
Entendemos que, acima de uma mera “transposição didática”, o papel do professor de Estudos Amazônicos e formar um cidadão capaz de refletir sobre a sua prática na sociedade, fazendo com que essa prática se permeie pela sociedade afim de criar uma consciência preservacionista. Não se trata apenas de preservar para as futuras gerações, mas internalizar nos sujeitos a relevância que a região amazônica tem para ele e para os outros, logo, a importância de mostrar a proposta curricular nos levou a entender de quem é a competência profissional para ministrar a disciplina de Estudos Amazônicos em sala de aula. Foi observado que grande parte dos conteúdos são de competência do professor de Geografia. Entretanto, o professor de História, com as suas competências, é fundamental para exercer a atividade docente, haja vista que parte dos conteúdos são de propriedade do profissional licenciado em História. Segundo Freire (1996):
A segurança com que a autoridade docente se move implica uma outra, a que se funda na sua competência profissional. Nenhuma autoridade docente se exerce ausente desta competência. O professor que não leve a sério sua formação, que não estude, que não se esforce para estar à altura de sua tarefa, não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe. Isto não significa, porém, que a opção e a prática democrática do professor ou da professora sejam determinadas por sua competência científica. Há professores e professoras cientificamente preparados mas autoritários a toda prova. O que quero dizer é que a incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor. (FREIRE, 1996, p. 92)
O que nos leva a crer que os profissionais de Geografia e História são os mais competentes a trabalharem com a disciplina, pela aproximação dos conteúdos descritos acima, com a área de conhecimento na qual os docentes tiveram sua formação inicial. Temos que levar em consideração o saber construído ao longo do processo formativo dentro do espaço escolar, e, principalmente no espaço de formação continuada da disciplina de Geografia e História. Como pesquisador e professor da disciplina no município de Marabá, presenciamos alguns momentos de discussão da proposta curricular da disciplina de Estudos Amazônicos no espaço de formação continuada. Estes momentos serviram, minimamente, para que os professores presentes questionassem a forma como a disciplina é tratada pela SEMED/Marabá e, consequentemente, propor uma nova matriz curricular para tentar equalizar e, até mesmo, geografizar a disciplina de Estudos Amazônicos, o que nós somos contrários, por entender que a disciplina tem um contexto interdisciplinar.
Neste sentido o papel do professor de Estudos Amazônicos é extremamente importante para continuidade da floresta Amazônica.
Um professor de profissão não é somente alguém que aplica conhecimentos produzidos por outros, não é somente um agente determinado por mecanismos sociais: é um ator no sentido forte do termo, isto é, um sujeito que possui conhecimentos e um saber-fazer provenientes de sua própria atividade e a partir dos quais ele a estrutura e a orienta. (TARDIF, 2003, p. 230)
Dada essa importância ao professor de Estudos Amazônicos, cabe a ele, instrumentar sua prática ao cotidiano do espaço amazônico, fazendo com que haja um estreitamento entre o espaço vivido e o espaço pensado21.
Segundo Vygotsky (1991), a mente humana reflete primordialmente na prática pedagógica, considerando o desenvolvimento da inteligência e da cognição como um processo ligado ao desenvolvimento social, fruto da interação social. Vygotsky destaca um ser humano capaz de criar suas próprias condições de existência. É o mesmo homem que Paulo Freire apresenta, um ser que não existe sozinho, mas que existe nos e pelos outros, que é capaz de
21 A ciência geográfica, definida pelo viés do espaço vivido, não tenta criar leis nem observar regularidades
generalizadoras. Seu ponto de partida é, ao contrário, a singularidade e a individualidade dos espaços estudados. Ela também não procura avançar resultados prospectivos e normativos, como as ciências ditas racionalistas. Seu objetivo principal é fornecer um quadro interpretativo às realidades vividas espacialmente. A objetividade não provém de regras estritas de observação, mas do uso possível das diversas interpretações na compreensão do comportamento social dos atores no espaço. Por seu contato e por sua participação direta no conjunto de significações criadas em uma comunidade espacial, o geógrafo torna-se um personagem ativo no próprio desenvolvimento desta comunidade. Contudo, ele deve ter a consciência explícita de seu engajamento pessoal e, portanto, da impossibilidade de um distanciamento ‘objetivo’ com relação ao seu campo de pesquisa. (GOMES, 1996, p. 320)
mudar a sua história e a história do mundo. É o mesmo homem que Milton Santos destaca, aquele que, ao agarrar-se ao seu lugar, para não se perder num mundo globalizado tão perversamente que não lhe dá chances de se humanizar. É no lugar e no cotidiano que o homem se percebe como sujeito.
Neste sentido, busca-se um professor de Estudos Amazônicos que entenda o seu papel no lugar vivido, para que através deste professor, seja construído um pensamento preservacionista da floresta amazônica e partindo desse pensamento preservacionista, possamos agregar sentimentos entre os sujeitos e a floresta. Cremos assim, que podemos iniciar um novo processo de como ensinar conteúdos referentes à Amazônia.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E ANÁLISE DOS DADOS
Neste capítulo da dissertação expomos as abordagens, técnicas e processos utilizados no desenvolvimento de nossa investigação, assim como a análise dos dados, logo, dividiremos nas seguintes subseções: ‘Tipo de pesquisa’, ‘Contexto e sujeitos’ e ‘Análise de dados’.