Um aspecto que apresentou grande relevância para o sucesso terapêutico dos clientes foi a qualidade da relação terapêutica desenvolvida. Meyer e Vermes (2000) enfatizaram a questão sobre o quanto a percepção do cliente frente à relação terapêutica influencia nos resultados da terapia, e, quanto mais positiva ela se torna, maior é a efetividade em relação aos objetivos do tratamento.
As mudanças ocorridas na vida social e familiar dos dois clientes sugeriram que a terapia apresentou resultados positivos nas áreas interpessoais, inclusive também confirmados pelo reconhecimento das mudanças dos clientes por parte de amigos e familiares, conforme relatado pelos próprios clientes, sendo este um aspecto que pode ser considerado bastante reforçador para a manutenção das mudanças obtidas.
Um outro aspecto importante a ser levantado é em relação a importância do ambiente familiar para qualquer tratamento psicológico. Esse aspecto positivo ligado ao cliente RM pode ter contribuído para a sua melhora mais rápida que a cliente CSO, que não estava inserida em um ambiente que proporcionasse apoio e adequação. Novas pesquisas poderiam enfatizar um pouco mais esse aspecto e desenvolver formas de atuação em conjunto com orientação familiar.
Em ambos os casos relatados existia uma falta de repertório social adequado inicial, porém, para RM não existia um reforçador ambiental marcante que estivesse mantendo o comer em excesso. Seus comportamentos eram mantidos por fuga e esquiva de não se expor em situações sociais. Já em relação a CSO, existiam conseqüências reforçadoras muito fortes mantendo o comportamento de comer em excesso, além, obviamente, das outras queixas referidas. Sabe-se que em pesquisa clínica é importante o uso de medidas que avaliem cada cliente sistematicamente para identificar e tratar suas necessidades individualizadas, e, para esse tratamento puderam ser utilizadas variações de modelos e estratégias de avaliação para cada cliente, caso contrário, o que funcionou com um poderia não funcionar com outro. O tempo de tratamento e procedimentos utilizados tiveram que ser adaptados ao ritmo de cada cliente. Em outras palavras, pode-se dizer que os tratamentos realizados foram baseados em análises funcionais de cada caso.
Retomando-se os objetivos iniciais deste estudo, que relacionavam-se à verificação de mudanças clínicas através do trabalho terapêutico enfocado em outros comportamentos associados com a queixa principal parece apropriado fazer algumas reflexões sobre alguns resultados observados. Para os dois clientes foram percebidas relações entre a resposta do comer em excesso com outros comportamentos que eram o alvo deste trabalho. A estratégia de trabalho usada pela terapeuta obteve mudanças positivas em vários aspectos da vida dos clientes, expandindo alguns resultados positivos do tratamento para outras áreas da vida de cada cliente. Para estes clientes o tratamento baseado na análise funcional sem o enfoque na queixa da obesidade mostrou-se útil para a perda de peso e o desenvolvimento de diferentes habilidades sociais, no caso do cliente 2. Para a cliente 1 a relação entre as respostas também ficou clara, contudo ela apresentou um progresso nos ganhos comportamentais mais lento, e, pode-se dizer que nas últimas 10 sessões vem apresentando uma tendência de diminuição do peso também. Para que esta última hipótese se confirme seriam
necessários dados adicionais a partir do seguimento da cliente, que continuará voltando ao serviço de psicologia ainda por um determinado tempo.
Em relação à opção metodológica escolhida, as categorias foram definidas durante o tratamento baseando-se na percepção da terapeuta sobre aquilo que era relevante para cada cliente dentro de seus objetivos propostos na terapia, proporcionando assim um tratamento mais individualizado e não um “pacote”.
Sendo assim, as categorias da terapeuta para os dois clientes parecem ter sido utilizadas de acordo com o que foi proposto no tratamento, demonstrando flexibilidade para cada cliente e adequação aos diferentes momentos do tratamento. Frente aos dois casos relatados, os comportamentos da terapeuta não se modificaram de forma marcante, mas somente adequaram-se as necessidades atuais de cada cliente.
É importante ainda ressaltar que as categorias foram avaliadas em relação à ocorrência por sessão, independente da sua freqüência dentro de cada sessão. Elas foram criadas com objetivo de discriminar os processos de mudança de cada cliente e como tentativa da pesquisadora de tornar o mais objetivo possível as impressões subjetivas advindas do processo terapêutico, porém, sem o objetivo de sofisticação e detalhamento que caracterizaria provavelmente um outro tipo de estudo. Uma transcrição de cada sessão seria ainda extremamente trabalhosa para a pesquisadora e sem a certeza de que ocorreriam mudanças relevantes na análise final de cada caso, visto que na clínica, existem outras mudanças que são percebidas mas que às vezes são de difícil mensuração mas que devem ser levadas em consideração para uma avaliação da sua evolução. Para os objetivos da pesquisa proposta esta medida de observação mostrou-se bastante útil para verificar como o cliente relatava os fatos e se comportava diante deles no decorrer de um processo terapêutico, e, a partir dessa medida foi possível uma caracterização das relações existentes entre as diferentes classes de comportamento, neste caso as que se relacionavam direta ou indiretamente com a obesidade e a competência social.
As interpretações dos resultados de estudos de caso são sempre tentativas, e, avanços nessa área de pesquisa clínica comportamental sempre derivam do efeito cumulativo de vários estudos. Sarwer e Wadden (1999) levantaram um aspecto importante no que se refere a tratamento e efetividade perceberam que a combinação
de diferentes abordagens para inúmeros problemas, não somente o da obesidade, na maioria das vezes acabam resultando na maior efetividade de qualquer tratamento.
Conforme aponta Kazdin (1998) , através de estudos de caso como estes não se pode validar cientificamente as inferências levantadas, mas podem ser apontados problemas específicos que poderão ser validados em pesquisas futuras. Pode-se também utilizar as informações obtidas e os procedimentos adotados como uma valiosa fonte de informação científica, as quais contribuem para a descrição de situações clínicas que não seriam viáveis em estudos experimentais.
Através da observação do progresso dos clientes e dos relatos dos mesmos, pode-se perceber que CSO e RM avaliaram o tratamento de uma forma muito positiva.
De acordo com Craighead e Kirkley (1994), a perda de peso para a maioria dos casos é muito mais complexa do que se pode parecer originalmente. Dessa maneira, a busca pelo maior entendimento das variáveis envolvidas nessa questão deve ser continuada através de novas experimentações e propostas de tratamento que se acrescentem às já existentes.